Metas de inflação: o mito que aprisiona o Brasil
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- O Brasil adota metas de inflação há mais de 20 anos, apresentadas como símbolo de modernidade econômica.
- O Banco Central fixa metas baixas e rígidas e eleva a taxa de juros sempre que a inflação ameaça sair do alvo.
- Críticos afirmam que a política favorece rentistas, especuladores e capital internacional ao gerar juros elevados.
- Mesmo após o Plano Real, o país continua enfrentando inflação elevada, segundo a análise.
O Brasil vive há mais de duas décadas sob o regime das chamadas metas de inflação. Vendidas como símbolo de modernidade econômica, viraram dogma — repetidas em relatórios técnicos e discursos oficiais como se fossem verdades gravadas em pedra. Mas, quando olhadas de perto, revelam-se exatamente o que são: uma crença que serve ao mercado financeiro, não ao povo brasileiro.
Como as metas de inflação alimentam os juros altos
A lógica é simples na sua crueldade. O Banco Central anuncia uma meta, em geral baixa e rígida, e promete persegui-la a qualquer custo. Pra isso, sobe os juros sempre que os preços ameaçam sair do lugar. O resultado é previsível: crédito caro, investimento travado, consumo reprimido. Quem paga são os trabalhadores, os pequenos empreendedores, as famílias já endividadas. Quem lucra são os rentistas, os especuladores e o capital internacional, que encontram no Brasil um paraíso de juros altos.
O Brasil depois do Plano Real
O país sempre conviveu com inflação elevada. Nos anos 1980, ela se tornou galopante, corroendo salários de norte a sul. O Plano Real trouxe alívio, mas não eliminou a volatilidade. Desde então, raramente conseguimos manter a inflação dentro das metas exigidas — e a resposta invariável foi sempre a mesma: juros estratosféricos. É como exigir que um navio em mar revolto mantenha o curso reto sem levar em conta a tempestade. Um exemplo disso é o que acontece toda vez que surge a expectativa de um “super-El Niño”: um fenômeno climático pressiona as safras, encarece a comida, e o Banco Central responde como se a culpa fosse da demanda doméstica. Quem poderia prever ou evitar isso?
Metas de inflação e hegemonia neoliberal
A ortodoxia monetária neoliberal adora se apresentar como neutra, técnica, científica. Mas não há nenhuma neutralidade em fixar uma meta de 3% pra um país que ainda luta contra desigualdades estruturais herdadas do capitalismo tardio, sujeito a choques cambiais e dependente de commodities. Essa é uma escolha política, não científica. É a imposição de um padrão de estabilidade próprio de economias centrais — economias erguidas sobre a exploração de outras nações — a uma realidade completamente diferente da nossa. Como ensinou Maria da Conceição Tavares, o que predomina é a hegemonia neoliberal ditando regras que favorecem credores e sufocam devedores.
O custo social da obsessão monetária
O custo social dessa obsessão é devastador. Juros altos significam menos empregos, menos renda, menos oportunidade. Significam estagnação e desigualdade crescente. Significam um país que se ajoelha diante da especulação internacional, abrindo mão do próprio desenvolvimento. Em nome da estabilidade de preços, sacrifica-se o futuro.
Uma política monetária para o povo brasileiro
É preciso romper com esse mito. Um Brasil que almeje prosperidade precisa mirar em metas mais realistas e flexíveis, compatíveis com nossa história e nossa estrutura produtiva. Metas que admitam inflação entre 4% e 6%, sem transformar cada choque externo em crise interna. Precisamos de uma política monetária que persiga múltiplos objetivos — emprego, crescimento, distribuição de renda — e que aposte em investimento público pra conter pressões inflacionárias, em vez de depender exclusivamente do garrote dos juros. Precisamos, também, saber diferenciar inflação de demanda de choques de oferta, e parar de punir a economia por fatores que estão além do nosso controle.
Brasil não pode seguir refém da Faria Lima
O regime atual é um castelo de cartas erguido sobre expectativas puramente especulativas. O Brasil não pode continuar refém do jogo de adivinhações da Faria Lima. É hora de construir uma política monetária que sirva ao povo — não ao “mercado”. Uma política que reconheça nossa história, nossa realidade, nossas necessidades. Só assim poderemos manter a economia nos trilhos sem penalizar os mais pobres. E só assim o desenvolvimento deixará de ser promessa pra virar projeto.
Chico Cavalcante é jornalista
