Mercado coloca Lul 4 no radar e duvida de ajuste fiscal em 2027

Parte expressiva do mercado financeiro nutriu, logo após a eleição de 2022, a convicção de que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) repetiria a postura austera do primeiro mandato. Vislumbrava-se equipe econômica liderada por Henrique Meirelles, agenda de rigor fiscal e previsibilidade ao investidor.
A expectativa se frustrou já na transição de governo. A escolha de Fernando Haddad (PT) para o Ministério da Fazenda foi vista como sinalização de que o discurso esquerdista do então candidato Lula era mesmo sincero, no rumo de protagonismo estatal e expansão de gastos.
Apesar disso, muitos investidores depositaram confiança na capacidade de Haddad se contrapor à ala mais progressista do PT. A proposta do novo arcabouço fiscal chegou a ser vista como busca de credibilidade para as contas públicas. Mas a adoção revelou o inverso, impulsionando despesas.
A mistura de déficits persistentes, expansão da dívida pública e sucessivas revisões das metas fiscais contribuiu para manter elevada a remuneração dos investidores. Nesse ambiente, os juros seguiram em alta, suscitando dúvidas sobre a capacidade de o governo honrar os seus pagamentos.
Mercado queria Tarcísio de Freitas e avalia o cenário com Flávio Bolsonaro
Nesse contexto, ganhou força a construção de uma alternativa política pró-mercado, reunindo partidos de centro e centro-direita. Tal missão havia sido endereçada ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), como o capaz de reduzir a polarização e retomar a estabilização econômica.
A decisão de Jair Bolsonaro de manter o protagonismo na sucessão e lançar o filho 01, Flávio Bolsonaro (PL), alterou a dinâmica. O senador quer mostrar ao mercado que é o nome competitivo para resgatar a responsabilidade fiscal, fazer reformas econômicas e controlar as despesas públicas.
As primeiras pesquisas, que mostraram crescimento de Flávio, despertaram otimismo de investidores. Depois, com a reação de Lula nos levantamentos, o entusiasmo perdeu fôlego, reforçando a ideia de prevalência de dois polos da política nacional, com vantagem para o peso da máquina pública.
Diante desse quadro, o mercado acolheu a hipótese de continuidade do governo, movimento descrito no jargão financeiro como “precificação do Lula 4”. Em outras palavras, investidores agregaram aos preços dos ativos o cenário tido como mais provável para balizar decisões e avaliações de riscos.
Plano de governo do Lula 4 endossa as preocupações fiscais do mercado
Desde 2023, Lula critica a austeridade e defende espaço para investimentos públicos e políticas sociais. Recentemente, seus emissários garantiram ao mercado que, se reeleito, o presidente adotará medidas fiscais a partir de 2027. A promessa colheu descrença, agravada pelo debate interno no PT.
O encontro de José Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de governo de Lula, com representantes do mercado financeiro na sede do Itaú, em São Paulo, reforçou a ideia de que um novo governo petista manteria a visão expansionista das contas públicas.
Gabrielli defendeu que o maior responsável pelo estresse fiscal não é a explosão das despesas do governo, mas o alto custo dos juros fixados pelo Banco Central (BC). Para ele, a política monetária dura encarece a rolagem da dívida pública, amplia o déficit orçamentário e acelera o endividamento.
O coordenador defendeu mais tributação sobre renda e patrimônio, revisão de benefícios fiscais, fortalecimento de bancos públicos e ampliação do Estado nos investimentos. O reequilíbrio das contas dependeria então de receitas e da redução dos juros, e não de reformas para conter despesas.
Retrato econômico desafia a sustentabilidade fiscal no longo prazo
A dívida pública bruta bateu a marca histórica de R$ 10 trilhões, mantendo trajetória de crescimento mesmo após série de recordes de arrecadação tributária. O avanço reacendeu críticas ao arcabouço fiscal, que combina a expansão de despesas com metas difíceis de cumprir no médio prazo.
Desde o início do terceiro mandato, o governo patrocinou diversas medidas para elevar a arrecadação, incluindo mudanças na tributação de fundos e de apostas eletrônicas. Ainda assim, o saldo é expansão do endividamento, mantendo pressão por ajuste estrutural das contas públicas.
Os juros elevados, adotados para conter a inflação e compensar o risco fiscal percebido pelo mercado, elevaram o custo da dívida pública e encareceram o crédito para empresas e consumidores. O volume expressivo de pedidos de recuperação judicial e o endividamento das famílias esfriam a economia.
Analistas lembram que juros altos e desequilíbrio fiscal se retroalimentam: a piora das contas públicas pressiona o custo da rolagem da dívida, e o maior custo financeiro dificulta, por sua vez, a estabilização. Resultado: baixo crescimento econômico, crédito caro e cautela de pessoas e empresas.
