Maria Gil: “As mulheres ciganas são narradoras de memória num mundo nos reduz à invisibilidade” – Atual
Levei mais tempo do que o comum a construir uma reflexão sobre a beleza. A naturalidade de a acolher e o cuidado com ela surgem muito cedo na minha cultura – eu só reconheci a minha por volta dos 18 anos. Os ideais de imagem que me foram ensinados passavam por manter padrões estéticos que traduzissem a identidade étnica de onde venho, como o cuidado com o cabelo e o mantê-lo comprido. A minha mãe tinha um porte único, mas o meu pai falava da importância de ser distinta e única. A elegância sempre foi um lugar-comum na minha família.
A necessidade de esbater traços culturais da minha aparência foi-me sugerida em muitos momentos. Ou tive de os moderar, por exemplo, ao arrendar casa ou aceder a espaços comerciais sem o olhar preconceituoso dos proprietários. Ou simplesmente porque tenho prazer na discrição. E declaro, entre risos, que há lugares em que não concebo privilegiar a minha estética cigana, porque ela traduz muita da minha intimidade e personalidade.
Maria Gil: “A beleza encontra a memória e a cultura através de gestos geracionais.”
Foto: Cristiana Morais / MÁXIMA
Uma das maiores belezas da minha cultura é a responsabilidade afetiva e a força dos laços familiares. Os rituais de beleza ciganos são mais geracionais do que tradicionais, e estendem-se à forma como habitamos o espaço e nos relacionamos. Ainda tive a oportunidade de ver a minha mãe e a minha avó recorrerem a rituais de cuidado, como o uso de alecrim para estimular o crescimento e o brilho do cabelo. Para mim, isso representa a ligação a quem preparou o presente que me permite ter memória de onde vim.
As expectativas sobre a minha beleza foram muitas vezes defraudadas, porque não eram as que eu definia para mim, mas as que outros idealizavam. No caso do cabelo, que também investigo para a criação de um espetáculo e que trabalhei em Homo Sacer (2023), existe uma leitura identitária e filosófica. Quando se padroniza sem essa compreensão, surgem contradições. O meu primeiro corte aconteceu por um erro técnico de um cabeleireiro; depois, por motivos de saúde, perdi muito cabelo. Hoje, mantê-lo assim faz-me sentir grata pela superação. O cabelo conta histórias e esta é a minha.
Também as joias têm vários significados: foram transportáveis durante diásporas e nomadismos forçados, e também funcionaram como forma de poupança quando não havia acesso a contas bancárias. Estão ligadas à espiritualidade e à estética. Em Portugal, as avós maternas oferecem os primeiros brincos de ouro às netas, que vão crescendo ao longo da vida. A minha avó Maria Luísa Maia usava-os em ocasiões especiais e cobria-os em momentos de luto. Era como uma bússola emocional.
As mulheres ciganas dizem a verdade. Somos narradoras de memória para o futuro, num mundo que insiste em reduzir-nos à invisibilidade. É por todas nós que faço o apelo à resistência e à continuidade.
Créditos:
Fotografia: Cristiana Morais
Realização: Cláudia Barros
Maquilhagem: Sandra Alves
Maria usa escrava em filigrana e ouro, brincos Arrecadas Barrocas XXL em prata dourada, colar Moeda em prata com banho de ouro e anel Meia Conta de Viana em ouro, tudo Portugal Jewels.
