Marco Rubio usa família Bolsonaro para atingir interesses dos EUA no Brasil, diz Ive Brussel
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- Em entrevista ao Jornal da Fórum na terça‑feira (2), a advogada Ive Brussel comentou o novo “tarifaço” anunciado pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, sob a administração Trump.
- Brussel atribuiu a ofensiva ao Brasil à postura agressiva de Rubio, que busca alinhar o país ao grupo de nações sancionadas por Washington, como Cuba, Venezuela e Nicarágua.
- Segundo a especialista, Rubio utilizou Flávio Bolsonaro como figura política para vender nos EUA a ideia de um futuro presidente brasileiro alinhado aos interesses americanos.
- Na narrativa apresentada, a taxação seria direcionada contra o presidente Lula, e não contra o Brasil como nação.
Em entrevista ao Jornal da Fórum desta terça-feira (2), a advogada pós-graduada em Direito Público pela PUC-MG e criadora de conteúdo Ive Brussel comentou o novo tarifaço de 25 e 12,5% impostos pelo governo Trump através de um anúncio do secretário de estado dos Estados Unidos, Marco Rubio. A entrevistada atribuiu parte da ofensiva contra o Brasil à influência do secretário, que define como “um dos principais defensores de uma postura agressiva em relação à América Latina”.
Segundo ela, Rubio busca enquadrar o Brasil no mesmo grupo de países atacados por Washington, como Cuba, Venezuela e Nicarágua. Ela avalia que o objetivo é ampliar a capacidade de pressão dos Estados Unidos em negociações envolvendo tecnologia, recursos minerais e soberania econômica.
“Precisa de um idiota útil, como Flávio, para conseguir o que quer”
“Há uma articulação de bastidor acontecendo, e eu nem sei se o Flávio Bolsonaro era favorável a essa taxação neste momento. Sinceramente, acredito que ela também é ruim para ele. É uma medida que o prejudica politicamente. O que me parece é que Rubio usou Flávio, e não o contrário. Não é Flávio quem está usando Rubio; são eles que estão usando o Flávio. O Flávio Bolsonaro foi aos Estados Unidos todo pimpão achando que ia se dar bem e afoi utilizado como capital político. Rubio usou Flávio para vender à opinião pública americana a ideia de que o Brasil poderá ter, no futuro, um presidente de direita totalmente alinhado aos Estados Unidos. Nessa narrativa, qualquer taxação imposta ao Brasil seria apresentada como uma medida contra Lula, e não contra o país. Ele precisa então de um idiota útil, como o Flávio, porque ele sabe que ele vai conseguir o que ele quiser“, explica.
Brussel lembra que, no dia 9 de julho de 2025, data em que Trump anunciou a taxação de 50% sobre produtos brasileiros, Eduardo Bolsonaro publicou mensagem agradecendo ao republicano. “No mesmo dia da punição ao Brasil, ele escreveu: ‘Obrigado, Trump. Faça o Brasil livre novamente’. Depois tentou negar, mas a publicação existiu”, afirma.
Para a analista, tanto Eduardo quanto Flávio Bolsonaro passaram a atuar como instrumentos de setores do governo americano interessados em pressionar o Brasil. “Eu não acho que eles estejam usando Marco Rubio. Acho justamente o contrário: Marco Rubio está usando eles”, disse.
Brussel lembra ainda que o Brasil é um país difícil para o governo Trump entender, porque encara a América Latina como um “quintal”. “Na cabeça deles a Venezuela é inimiga tem que dominar. Cuba tem que arrasar, dominar. Colômbia tem que voltar à extrema direita, e o Brasil é um país mais complexo, que tem uma economia muito grande, tem influência, coisa que nenhum outro país da América Latina possui, exceto o México, além dos lobbies americanos em favor do Brasil”, conta.
Ela ainda diz que a ofensiva dos Estados Unidos contra o Brasil não encontra respaldo econômico e atende a interesses políticos e geopolíticos. Segundo ela, os números do comércio bilateral desmontam a justificativa apresentada por Washington.
“Os Estados Unidos acumulam um superávit com o Brasil de mais de 415 bilhões de dólares nos últimos 15 anos, considerando produtos e serviços. Então, quem teria motivo para aumentar tarifas seria o Brasil, não os Estados Unidos”, disse.
A advogada destaca que o próprio presidente Lula apresentou os dados a Trump durante uma reunião realizada nos Estados Unidos, que passou cerca de três horas reunido com Trump. Entre os pontos discutidos estava um relatório detalhando as relações comerciais entre os dois países, demonstrando que diversos produtos americanos entram no mercado brasileiro com tarifa zero e que os EUA são superavitários na balança comercial. “Lula propôs que os ministros do Comércio dos dois países tivessem 30 dias para comprovar quem estava correto sobre os números apresentados. Até agora, já houve várias conversas e nenhum acordo foi alcançado”.
Ataque à soberania e contradições do governo dos EUA
Foi incluído no mesmo relatório a investigação americana sobre o Pix, iniciada em julho de 2025, e a regulamentação das plataformas digitais. Para Brussel, os argumentos apresentados pelos EUA em relação ao sistema de pagamento brasileiro são contraditórios.
Ela lembrou que Washington acusa o Brasil de promover concorrência desleal ao criar mecanismos próprios de pagamento e discutir regras para plataformas digitais, ao mesmo tempo em que os próprios Estados Unidos adotam medidas protecionistas. “Aqui eles praticamente obrigaram empresas estrangeiras a se adaptarem aos interesses americanos. O TikTok quase foi banido e acabou sendo forçado a vender parte de suas operações. Mas reclamam quando o Brasil discute regulamentação das Big Techs”, destaca. O Pix passou a ser um alvo porque ameaça a hegemonia dos sistemas tradicionais de pagamento dominados por grandes bandeiras norte-americanas.
Brussel acrescenta que a nova rodada de tarifas acabou enfraquecendo a última jogada da extrema direita no Brasil. Segundo ela, setores ligados ao bolsonarismo tentavam explorar o debate sobre o enquadramento de facções criminosas como organizações terroristas, mas perderam espaço após as medidas econômicas anunciadas por Trump.
“Com esse tarifaço, acabou sendo neutralizada a eventual vantagem política que eles haviam conseguido obter com o discurso sobre as facções criminosas. Essa narrativa até chegou a ganhar algum espaço, mas acabou perdendo força.
Houve pesquisas mostrando que a proposta repercutiu mal em diferentes segmentos da sociedade, inclusive entre grupos que não são necessariamente lulistas ou de esquerda. Em setores mais ao centro e entre liberais, por exemplo, surgiram críticas à ideia de classificar facções criminosas como organizações terroristas.
Até mesmo o empresário e ex-candidato presidencial João Amoêdo criticou essa iniciativa, argumentando que ela poderia gerar riscos e insegurança jurídica, inclusive para instituições financeiras e empresas que operam no país.”
Assista à entrevista completa por este
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