mais economia do que política – Observador

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O presidente dos Estados Unidos chega hoje a Pequim para encontros com Xi Jinping, que vão durar até sexta-feira. A viagem devia ter acontecido há seis semanas, mas foi adiada por causa da guerra no Irão, e o encontro entre Trump e Xi deverá ser apenas o primeiro de quatro agendados para este ano. Os líderes das duas maiores economias do mundo, porventura também das duas maiores potências militares, encontram-se num momento muito especial, em que ambos sabem que têm de cooperar, apesar da indiscutível rivalidade e de interesses estratégicos contraditórios. Em cima da mesa deverão estar temas políticos, da guerra no Irão à libertação de Jimmy Lai, um dissidente preso, mas a expectativa é que se procurará apresentar, sobretudo, resultados na frente econômica. No Contracorrente de hoje vamos procurar perceber o que pode estar em cima da mesa e o que podemos esperar de uma cimeira a que ambos os líderes chegam menos fortes do que gostariam. Trump não arrisca demasiado ir a Pequim numa altura destas. José Manuel, bom dia.

Bom dia. Está a haver muito aquele discurso de que é um encontro desigual, que a posição de Xi é muito mais forte do que a posição de Trump. Eu permito-me duvidar, porque ambos os líderes neste momento têm situações que não são as mais confortáveis todas. Primeiro que tudo, é evidente que Trump gostaria de poder chegar a Pequim com o tema do Irão resolvido e inicialmente era esse o plano. A guerra no Irão não correu como estaria previsto, mas a verdade também é que as consequências econômicas da guerra do Irão se fazem sentir mais na China do que nos Estados Unidos. Os Estados Unidos sofrem inflação, ontem saíram dados negativos da inflação, mas a inflação não é a mesma coisa que de repente ter problemas na cadeia de produção e ter quebras que possam acontecer quando de repente falham os combustíveis. E desse ponto de vista, esta fragilidade da China é de certa forma paralela à fragilidade dos Estados Unidos no que respeita a outras cadeias de produção, e que tem sido nos últimos meses o grande trunfo da China, que são as terras raras. No entanto, também aqui o mundo move-se e poderá haver locais no planeta onde se vão buscar essas terras raras sem depender tanto da China como neste momento, porque não se depende apenas delas existirem, elas talvez sejam menos raras do que isso, mas sobretudo dos mecanismos necessários para as tratar, que são muito pesados e muito complexos. No que diz respeito às questões também da economia, a posição da China talvez não seja tão gloriosa como muitas vezes também é referido. Há problemas internos grandes na economia chinesa e a própria atitude da China relativamente aos seus parceiros também não é aquela que é aplaudida com as duas mãos. A China está a transformar-se. Eu recordo-me, e deve também recordar, Carla, que há uns anos toda a Europa se queixava da Alemanha, porque a Alemanha só exportava e não importava.

Sim.

Neste momento é todo mundo que se queixa da China porque a China só exporta e não importa. E não são só os Estados Unidos que sentem esse desequilíbrio. E quando de repente a China decide: “Olha, não vamos passar a exportar aquilo”. Quando a China tosse, a Alemanha, por exemplo, teve uma pneumonia. Quando a China começa a fabricar automóveis, a indústria alemã entra em colapso. Por quê? Porque estas dependências do lado chinês também são muito dirigidas apenas de dentro para fora e com muito pouca outra capacidade. Seja lá como for, eu creio que é uma reunião de baixas expectativas, onde as estratégias dos dois líderes são claramente diferentes, onde vamos assistir também a duas figuras muito diferentes, uma muito imprevisível e a outra muito autocrática. Nós às vezes esquecemos dessas características. Ainda nos últimos dias, as antigas lideranças do Exército Vermelho foram condenadas à morte. Acusações de corrupção, as lideranças que se substituíram também já foram corridas. Há ali um ambiente que faz lembrar os períodos mais trágicos das ditaduras comunistas, e aquilo é uma ditadura comunista para todos os efeitos. Há aqui muitos pontos e há algumas dúvidas, coisas que assaltam o espírito. Talvez seja aquilo que mais pessoas estejam receosas. Até que ponto, por exemplo, em troca de abertura comercial para algumas exportações dos Estados Unidos, Trump vai fazer aquilo que já fez antes, que é permitir a exportação de alguns daqueles chips que a China não tem e que tem necessidade para desenvolver mais rapidamente a sua inteligência artificial. Até que ponto é que para conseguir, porventura, o apoio da China na solução da guerra do Irão, Trump vai aliviar a solidariedade com Taiwan. Como é que se processará o enquadramento do Japão? Especulava-se que o avião presidencial poderia aterrar no Japão antes de chegar à China e que isso seria um sinal importante para o Japão. Não tenho notícia, confirmação dessa possibilidade, veremos. Porque isso também é um sinal numa altura em que o Japão está claramente desconfortável, assim como a Coreia do Sul, que sofre muito com este bloqueio do Estreito de Ormuz e que poderão ficar de repente ainda mais dependentes da China. Há aqui muitos pontos de interrogação e eu creio que também contra o discurso dominante, não vai ser uma cimeira tão desequilibrada como se anuncia, mas não tenho nenhuma grande expectativa que lá saiam grandes soluções, até porque, como tu já referiste, este ano os dois líderes vão estar juntos quatro vezes. Xi Jinping vai devolver a visita e irá a Washington, mas além disso há mais duas cimeiras onde eles também vão estar os dois presentes. Isto provavelmente é só o começo de várias conversas que os Estados Unidos têm que ter com a China.

Trump já lhe chama um amigo, portanto vamos ver. Até já.

Mas isso sempre chamou. A primeira vez que lá foi. São todos amigos. Até se tornarem em ordens de estimação, mas isso é o estilo.

É o estilo. Até já, José Manuel.

Até já.

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