Lula garante que “não vai ter tarifaço” às vésperas da decisão dos EUA
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- Presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, na segunda‑feira (13), que “não vai ter tarifaço” dos Estados Unidos.
- A declaração foi feita ao sair de um evento em São José dos Campos (SP), onde lançou a primeira turbina brasileira movida a etanol hidratado.
- A fala ocorre enquanto a Casa Branca tem até quarta‑feira (15) para decidir sobre novas tarifas de 25 % e 12,5 % sobre produtos brasileiros, decorrentes de investigação da administração Trump.
- Internamente, o governo brasileiro considera a imposição das tarifas o cenário mais provável, mas busca evitar concessões em setores estratégicos.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (13) que “não vai ter tarifaço” dos Estados Unidos, ao ser questionado por jornalistas na saída de um evento em São José dos Campos (SP). A declaração ocorre em uma semana decisiva: a Casa Branca tem até quarta-feira (15) para anunciar se aplicará novas tarifas de 25% e 12,5% sobre produtos brasileiros, com base em investigação aberta pelo governo de Donald Trump. Nos bastidores, o Palácio do Planalto trabalha com a confirmação das taxas como o cenário mais provável e mantém a estratégia de não fazer concessões em pontos considerados estratégicos para o país.
Lula nega ‘tarifaço’ em meio à expectativa de decisão dos EUA
A frase foi dita de passagem, durante a caminhada até a saída do evento, ao repórter João Mota, da TV Vanguarda. “Não vai ter tarifaço, não vai ter tarifaço”, repetiu Lula, sem conceder entrevista coletiva. O presidente havia participado do lançamento da primeira turbina brasileira de geração de energia elétrica movida a etanol hidratado, desenvolvida por pesquisadores do Instituto de Aeronáutica e Espaço no Campus do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), em São José dos Campos.
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Apesar da fala de Lula, a confirmação das taxas é tratada internamente no governo brasileiro como o desfecho mais provável da semana. A declaração do presidente pode ser lida como um sinal de confiança na diplomacia ou como uma tentativa de não alimentar a preocupação pública.
A iminência das tarifas e a postura brasileira
O governo brasileiro aguarda a decisão estadunidense para então definir sua resposta formal. O representante do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, declarou na última semana que “ainda há uma grande distância” entre os dois países nas negociações. “Vocês verão uma decisão final sobre o Brasil muito em breve, pois temos um prazo legal que se encerra em 15 de julho”, disse Greer.
Ainda assim, negociadores brasileiros não descartam a possibilidade de que o Departamento de Estado norte-americano inclua um anexo modificado na decisão sobre os 25%, ampliando a lista de exceções ao tarifaço. O governo brasileiro também aguarda ser convocado para uma última reunião virtual com Greer antes de quarta-feira (15), encontro que seria a quinta rodada de conversas entre o chefe do USTR e representantes brasileiros. A expectativa é que essa reunião já traga uma prévia do que será anunciado.
O pano de fundo das negociações e a investigação da Seção 301
As novas tarifas seriam aplicadas com base em uma investigação aberta pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sob a chamada Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana, mecanismo que permite ao governo dos EUA investigar e retaliar práticas comerciais de outros países consideradas ilegais ou injustas. Entre os alvos da investigação está o Pix, o sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central brasileiro, classificado pela investigação dos EUA como uma prática que prejudicaria empresas estrangeiras no mercado brasileiro.
Na última sexta-feira (10), Lula reuniu ministros para definir a estratégia dos dias finais de negociação. A orientação foi manter o diálogo em nível técnico, mas sem abrir mão de pontos considerados estratégicos. Temas caros aos norte-americanos, como mudanças na política tarifária para o etanol, foram mantidos fora da mesa. A postura sinaliza que o governo brasileiro está disposto a negociar, mas não a qualquer custo: a soberania sobre instrumentos como o Pix e a política de biocombustíveis é tratada como linha que não se cruza.
Cenários e a dimensão política da decisão
Um cenário alternativo, considerado remoto pelo Palácio do Planalto, é o de que os Estados Unidos adiem a aplicação das taxas como forma de viabilizar uma vitória política ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que atuou na audiência do tarifaço.
A dimensão política da decisão também foi apontada por especialistas que participaram das audiências públicas promovidas pelo USTR em Washington. Esses especialistas avaliaram que os argumentos técnicos dos EUA contra o Brasil, especialmente em relação ao Pix, perderam força ao longo dos debates. Em entrevista ao Sputnik Brasil, o professor de economia da FGV Gustavo Pessoa, que esteve presente nas audiências, afirmou que os sete painéis técnicos foram marcados pela apresentação de dados por representantes de empresas e associações brasileiras e norte-americanas favoráveis à retirada total ou parcial das tarifas.
“A decisão final sobre as tarifas deve ser política, apesar da robustez dos dados apresentados pelo Brasil”, avaliou Gustavo Pessoa, professor de economia da FGV, em entrevista ao Sputnik Brasil.
Pessoa também rebateu a tese de que o Banco Central teria conflito de interesses por atuar como regulador e operador do Pix, argumentando que o sistema é utilizado por cerca de 165 milhões de pessoas e mais de 19 milhões de empresas, nacionais e internacionais, o que afasta a ideia de favorecimento a empresas brasileiras em detrimento das estrangeiras. Se a avaliação dos especialistas estiver correta, o que estará em jogo na quarta-feira não é uma conclusão técnica, mas uma escolha política da administração Trump sobre como usar o comércio como instrumento de pressão.
