Ivo Canelas, o bicho do mato que um dia disse que seria ator – Observador

Mal acabou o curso no Conservatório, ganhou popularidade com O Fura Vidas (1999), na SIC — antes já tinha tido pequenas participações em Médico de Família (1997) ou Diário de Maria (1998). “Isso deu-me alguma exposição que, por um lado, achava excitante mas, por outro, com a qual não sabia lidar.”
Foi então o momento ideal para se mudar para Nova Iorque para estudar no The Lee Strasberg Theatre & Film Institute (a semente que vinha lá de trás), um passo incentivado pelos pais, depois de ultrapassado aquele primeiro impacto do “não quero ser engenheiro, quero ser artista”. “Apesar de serem ambos da área de química, são pessoas com características artísticas muito marcadas e aplicam isso até na forma como trabalham, mas sobretudo como veem o mundo.”
Conseguiu uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian e da FLAD (Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento) e, nessa altura, foi o máximo de preparação que fez. Arranjou um sítio onde ficar apenas 12 horas antes de viajar e praticamente por acaso. “Fui para os copos [em Lisboa] e uma amiga minha tinha um grande amigo mexicano que andava no Strasberg [Lee Strasberg, o instituto]. Ele disse-me: ‘Toma [faz um gesto a simular a entrega de chaves], ficas em minha casa um mês até eu voltar’.”
Nova Iorque, descreve, “é como em todos os filmes que vemos. Somos todos Sarah Jessica Parkers [a atriz que protagoniza a série O Sexo e a Cidade]”. Chegou lá no final de agosto de 2001 e comprou um cartão telefónico para ligar para casa. “Lembro-me de estar não sei quanto tempo numa cabine a tentar encontrar a ranhura para passar o cartão, porque cá era assim, mas lá aquilo tinha uns números que era preciso riscar.”
Viveu um mês perto de Madison Square Garden, depois viveu em Times Square, num quarto com vista para um saguão e ainda partilhou casa com a também atriz Adelaide de Sousa. “No final, tinha uma casa em Brooklyn num quinto andar sem elevador, a meia hora a pé do metro, mas era meu. Foi maravilhoso.”
Estava lá há cerca de um mês quando se deu o atentado do 11 de setembro. Nessa manhã, quando acordou, já um companheiro de casa estava colado à televisão. “Estava uma torre a arder e eu faço um comentário parvo, porque não tínhamos a mínima noção do que estava a acontecer: ‘Também ardem torres na América’. Estou a acabar de dizer isto e embate o segundo avião na torre.”
Olhando para trás, o ator reconhece que a ficha só caiu (a ele e a muita gente) nesse dia à noite. Até lá, para muitos parecia um dia normal. “Lembro-me de passar pelos cafés e ser ‘business as usual’, as pessoas a comerem e a lerem as notícias. Estupidamente eu tentei ir às aulas. Demorou a percebermos a dimensão daquilo.” Para voltar para casa, foi uma epopeia. “Estava tudo fechado abaixo da 14th Street e eu não tinha documentos que comprovassem onde morava.”
Seguiram-se semanas estranhas, de “um grau de emoção coletiva”, mas em que Ivo Canelas recorda uma vontade de as pessoas serem afáveis e humanas, “a contrariarem a capa que a cidade as obrigou a construir”.
Ficou nove meses seguidos nos EUA. “Nova Iorque era tudo aquilo que imaginei porque Nova Iorque pode ser qualquer coisa. A escola fazia parte dessa possibilidade porque a representação faz parte de um cliché do entretenimento americano. O objetivo era construir uma carreira lá. Mas nunca senti que esses momentos, se concretizados, fossem uma garantia de continuidade.”
Com um pé em Portugal, participou em O Navio dos Negros (no teatro) ou em O Princípio da Incerteza (filme de 2002). Porém, houve um momento em que o sonho americano esteve perto da realidade. Estava de passagem por Lisboa quando começou a receber uma catadupa de mensagens da agente americana. “‘Fuck, oh my god, you did it! Everything’s gonna change! Fuck [Foda-se, meu Deus, conseguiste! Tudo vai mudar! Foda-se]!’. Tinha conseguido o papel de protagonista numa série para o Discovery Channel.”
Estava a entrar numa piscina e sentiu-se a flutuar. “Caminhei sobre a água várias vezes. Durante uma hora vivi um sonho incrível dentro de água. Não sei explicar, marcou-me tanto, mas não me danificou”, admite. Mas, de regresso ao balneário, nova sequência de mensagens da agente: “Oh fuck, oh no! Oh fuck [Foda-se, oh não! Foda-se]!”.
Afinal, os títulos dos vários castings que tinha feito na mesma semana tinham sido trocados. Afinal, o que tinha conseguido era um papel com três falas numa série — não o de protagonista. “Mas disse aquelas três frases com toda a convicção. Já nem me lembro do nome da série, era uma coisa de kung fu fighting.”
Nessa altura, não conseguir um papel não era sinónimo de frustração. Um casting levava a outro, era sempre uma possibilidade em aberto. “A parte difícil é manter essa liberdade ao longo do tempo.”
No reverso da medalha, estava em Nova Iorque quando recebeu uma proposta para integrar o elenco do filme O Mistério da Serra de Sintra (2006). “Considerei se devia vir ou não e achei que sim. O filme permitiu-me aplicar um monte de coisas que havia experimentado na escola. E isso foi muito interessante.”
Recebeu o Globo de Ouro de Melhor Ator de Cinema pelo papel de Eça de Queirós. Apesar desse reconhecimento e de ter trabalho por cá, continuou a passar temporadas em Nova Iorque até à pandemia de Covid-19. “Ficava lá três meses e fazia uma data de audições.”
Porque é que parou? “É aquela velha máxima de querer ter resultados diferentes fazendo as mesmas ações. Estava cansado e já não encontrava a energia de ir para lá e estar bumba, bumba, bumba.”
Para se aguentar financeiramente por lá, fazia trabalhos temporários. “Havia sempre imensos eventos, por exemplo feiras de brinquedos, que te ocupavam o dia inteiro e não pagavam mal. Era das seis da manhã à meia-noite. Estava em contacto com o público e praticava o inglês, dava-me algum gozo.”
