Irã responde a bombardeios de Trump e atinge bases dos EUA no Bahrein e Kuwait

Irã responde a bombardeios de Trump e atinge bases dos EUA no Bahrein e Kuwait


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  • A Guarda Revolucionária do Irã anunciou, em 8 de março, ataques com mísseis e drones contra a sede da Quinta Frota Naval americana em Bandar Salman, Bahrein, e a Base Aérea Ali Al Salem, no Kuwait.
  • Os ataques foram retaliação direta aos bombardeios dos EUA em 7 de março contra alvos iranianos, após três navios mercantes serem atingidos no Estreito de Ormuz.
  • Washington justificou os bombardeios revogando a licença de exportação de petróleo do Irã, provocando o colapso do cessar‑fogo provisório e das negociações mediadas pelo Catar.
  • O Comando Central dos EUA informou ter atingido mais de 80 alvos iranianos, enquanto a TV estatal iraniana confirmou explosões em Sirik, Bandar Abbas e Qeshm sem vítimas mortais.

A Guarda Revolucionária do Irã anunciou nesta quarta-feira (8) ter atacado instalações militares dos Estados Unidos no Bahrein e no Kuwait, em resposta direta a uma série de bombardeios lançados na terça-feira (7) pelo Exército de Donald Trump contra o território iraniano.

A ofensiva de Teerã utilizou mísseis e drones e teve como alvos a sede da Quinta Frota Naval americana em Bandar Salman, no Bahrein, e a Base Aérea de Ali Al Salem, no Kuwait. A escalada ocorre após três navios mercantes serem atingidos no Estreito de Ormuz, episódio que Washington usou como justificativa para os bombardeios e para revogar a licença que permitia ao Irã exportar petróleo, colocando em colapso o acordo provisório de cessar-fogo e as negociações mediadas pelo Catar.

Ataque iraniano e alvos

A Guarda Revolucionária do Irã confirmou a ofensiva em comunicado oficial, afirmando que 85 instalações militares dos EUA foram atingidas nos dois países, em uma operação conjunta com mísseis e drones. Os alvos declarados foram as instalações em Bandar Salman, no Bahrein, onde a Quinta Frota Naval americana mantém sua sede, e a Base Aérea de Ali Al Salem, no Kuwait, que serve de quartel-general para as forças do Exército dos EUA na região. O Irã também alegou ter abatido um drone MQ-9 americano durante a operação, afirmação que ainda não teve confirmação independente.

Autoridades locais nos dois países confirmaram o acionamento de sirenes de alerta aéreo logo após o início dos ataques. O exército kuwaitiano informou que suas defesas enfrentaram ameaças hostis. A mídia estatal iraniana não divulgou informações sobre baixas ou a extensão dos danos causados nas bases, e não há avaliação oficial americana sobre os prejuízos sofridos. A divergência entre as versões é relevante: enquanto a Guarda Revolucionária fala em 85 instalações atingidas, outras fontes se referem genericamente a “alvos militares”, sem detalhar a extensão real da operação.

O alcance dos ataques iranianos, direcionados a dois países aliados dos EUA que abrigam infraestrutura militar estratégica no Golfo Pérsico, representa uma escalada qualitativa em relação às fases anteriores do conflito. Ao atingir o Bahrein e o Kuwait, Teerã sinalizou disposição de ampliar geograficamente o teatro de operações, pressionando aliados regionais de Washington e não apenas o território americano diretamente.

Ataques dos EUA e acusações

A retaliação iraniana foi precedida por uma onda de bombardeios americanos contra o território do Irã, deflagrada na terça-feira (7). O Comando Central dos EUA (Centcom) afirmou ter atingido mais de 80 alvos, incluindo mais de 60 pequenas embarcações da Guarda Revolucionária no Estreito de Ormuz, além de instalações de lançamento de mísseis e bases militares iranianas. Uma fonte americana ouvida pela Reuters disse que os ataques miraram também sistemas de defesa aérea do Irã e lançadores de drones e mísseis. A TV estatal iraniana confirmou explosões em Sirik, Bandar Abbas e na ilha de Qeshm, cidades portuárias no sul do país, próximas ao estreito, sem registrar mortes.

A justificativa apresentada pelo Centcom foi a de que a ofensiva visava impor “custos elevados” ao Irã por atacar embarcações comerciais tripuladas por civis em uma das principais rotas marítimas do mundo. Os ataques americanos ocorreram após a agência britânica de segurança marítima UKMTO informar que três navios foram atingidos por projéteis no Estreito de Ormuz em um intervalo de 24 horas, entre segunda (6) e terça-feira. Entre as embarcações alvejadas estavam o superpetroleiro saudita Wedyan e o navio de gás natural liquefeito catariano Al Rekayyat. Não houve registro de vítimas nos ataques aos navios.

O Irã negou responsabilidade pelos ataques às embarcações, classificando as acusações como “perplexas”. A sequência, contudo, seguiu o padrão já observado em fases anteriores do conflito: incidente marítimo, acusação americana, resposta militar de Washington e retaliação de Teerã. O Centcom enquadrou os bombardeios como reação a uma “violação flagrante do cessar-fogo”, linguagem que antecipava a escalada que viria nas horas seguintes.

Rompimento do cessar-fogo e sanções

A nova rodada de ataques coloca em colapso o acordo provisório de cessar-fogo firmado no mês anterior, após a guerra iniciada no fim de fevereiro. O Centcom classificou a retaliação iraniana como uma “violação perigosa da trégua”. Teerã, por sua vez, chamou os bombardeios americanos de “ato flagrante de agressão” e afirmou que foi Washington quem primeiro rompeu o entendimento. O chanceler iraniano, Abbas Araqchi, alertou que as negociações para um acordo definitivo “não começarão” enquanto os EUA mantiverem ameaças de retomar os bombardeios.

Paralelamente ao confronto militar, os EUA revogaram a licença que permitia ao Irã exportar petróleo até agosto, concedida em junho como parte do acordo de cessar-fogo. O Departamento do Tesouro estabeleceu o prazo de 17 de julho para o encerramento das transações já em curso. O Ministério das Relações Exteriores do Irã condenou a decisão em termos duros, afirmando que ela viola o Memorando de Islamabad e demonstra “má-fé, inconsistência e falta de confiabilidade” do governo dos Estados Unidos. Teerã acrescentou que adotará “todas as medidas necessárias” para proteger seus interesses nacionais.

A revogação da licença petrolífera não é um ato neutro de política econômica: é uma pressão simultânea ao confronto militar, que retira do Irã uma concessão econômica central do acordo de trégua enquanto as bombas ainda caem. As negociações indiretas mediadas pelo Catar para um acordo definitivo já haviam terminado na semana anterior sem progresso. Apesar da escalada, um funcionário do governo americano disse à Reuters que representantes dos dois países seguem atuando “de boa-fé” para tentar chegar a um acordo de paz definitivo, declaração que contrasta com a intensidade dos eventos em curso.

Reações e impactos imediatos

A escalada provocou reações imediatas de aliados regionais dos EUA. Segundo o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Catar, Majed Al Ansari, o governo catariano afirmou que uma das embarcações atingidas era o petroleiro Al Rekayyat e responsabilizou o Irã pelo ataque, classificando-o como “inaceitável” e exigindo que Teerã “cesse imediatamente todas as práticas que comprometem a segurança regional”. O Ministério das Relações Exteriores da Arábia Saudita, por sua vez, confirmou que o petroleiro saudita Wedyan também foi atingido e afirmou que os ataques representam “uma ameaça à segurança da navegação internacional e ao abastecimento mundial de energia”. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baqai, classificou as acusações catarianas como “questionáveis e contrárias ao princípio da boa vizinhança”.

No plano econômico, os mercados reagiram com rapidez. O barril de petróleo Brent chegou a US$ 76, alta de mais de 3%, revertendo a queda que havia ocorrido após o acordo de trégua do mês anterior. A combinação entre a revogação da licença de exportação iraniana e os ataques militares foi suficiente para reacender a aversão ao risco nos mercados globais de energia. Bob McNally, presidente da consultoria Rapidan Energy Group, avaliou que “os ataques indicam que o cessar-fogo não é tão sólido e duradouro quanto o mercado de petróleo passou a acreditar”.

Na cúpula da Otan realizada em Ancara, na Turquia, o secretário-geral da aliança, Mark Rutte, declarou que as ações americanas foram “absolutamente necessárias” e acusou o Irã de violar o acordo de cessar-fogo. A declaração de Rutte, feita enquanto o presidente Donald Trump também participava da cúpula, sinaliza alinhamento da aliança atlântica com a postura de Washington, reduzindo o espaço para mediação europeia ou multilateral no curto prazo.

O Estreito de Ormuz como ponto central da disputa

Por trás da sequência de ataques e retaliatórias está uma disputa de fundo sobre quem controla o Estreito de Ormuz, passagem marítima por onde transita parcela significativa do petróleo exportado pelo Golfo Pérsico. O vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Kazem Gharibabadi, foi direto ao ponto: “a segurança do Golfo Pérsico não deve depender do Centcom”, afirmou, acrescentando que “o Estreito de Ormuz continua sob controle do Irã”. A declaração resume a posição de Teerã nas negociações: o estreito é soberania iraniana, não uma rota internacional a ser policiada por Washington.

O Irã planeja instalar um sistema permanente de cobrança de taxas de trânsito no estreito, iniciativa à qual os EUA se opõem firmemente. A questão esteve no centro das negociações indiretas mediadas pelo Catar e permanece sem solução. A agência britânica de segurança marítima UKMTO elevou o nível de ameaça em Ormuz para “severo” após os ataques aos navios, recomendando “extrema vigilância” às embarcações que transitam pela área. A elevação do alerta britânico tem efeito prático imediato: seguradoras e operadores de frotas tendem a reajustar rotas e prêmios de risco, encarecendo o transporte de energia global.

“A segurança do Golfo Pérsico não deve depender do Centcom. O Estreito de Ormuz continua sob controle do Irã.”

O futuro do estreito é, portanto, o nó que nenhuma das partes conseguiu desatar desde o início do conflito, em fevereiro. Enquanto Washington insiste em garantir a livre navegação sob supervisão militar americana e seus aliados, Teerã trata o controle da passagem como um instrumento de soberania e de pressão econômica. Com o cessar-fogo em colapso, as negociações paralisadas e os mercados em alerta, a disputa pelo Estreito de Ormuz deixou de ser um ponto de pauta diplomática para voltar a ser um campo de batalha.




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