Inflação de itens típicos da classe média pode influenciar eleições, dizem especialistas
FELIPE GUTIERREZ
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A inflação no Brasil está dentro do teto da meta, de 4,5% ao ano, mas alguns produtos que pesam no orçamento das famílias podem ter papel relevante nas eleições deste ano.
São itens consumidos tipicamente pela classe média, como plano de saúde, passagens aéreas, gasolina, ensino fundamental, empregado doméstico e até perfume.
Eles estão entre os dez itens do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) que mais contribuíram para a inflação dos últimos 12 meses quando considerados tanto a alta de preços quanto o peso de cada produto na cesta de consumo das famílias.
Juntos, os dez produtos respondem por mais de 2,1 pontos percentuais dos 4,4% de inflação acumulada em 12 meses. O IPCA referente a agosto de 2026 será divulgado nesta sexta-feira (11).
Apesar de a importância da economia nos resultados eleitorais ter diminuído nos últimos anos, em parte por causa do fortalecimento das convicções políticas, esse ainda é um campo de estudo relevante, diz Lucio Rennó, professor da Universidade de Brasília.
Indicadores como salário, emprego e preços afetam o comportamento eleitoral no Brasil e no exterior, afirma.
O que mais se relaciona com a aprovação de um governo é o salário, diz Janaína Feijó, economista do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia) da FGV. Mas a renda nominal das famílias pode perder poder de compra com o custo das dívidas e a alta de preços.
Frederico Batista Pereira, professor da Universidade da Carolina do Norte em Charlotte, nos EUA, afirma que existe correlação entre a variação do IPCA e a aprovação presidencial, mas que isso talvez não seja suficiente para produzir um efeito político mensurável ou determinante.
A popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), diz, está relativamente baixa em comparação com a de outros presidentes, mesmo considerando apenas esse fator.
Cada item do IPCA tem duas características que precisam ser analisadas em conjunto: a variação de preços e o peso relativo na cesta de consumo.
Essa cesta é definida a partir da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), realizada por amostragem pelo IBGE para identificar os hábitos de consumo da população. A pesquisa determina a importância relativa dos produtos no cálculo do IPCA.
Alguns itens tiveram altas significativas, como o bacalhau (15,19%) e o console de videogame (13,18%), mas têm peso muito baixo na cesta de consumo das famílias. Por isso, a variação de preços desses produtos tem pouco efeito sobre a inflação medida pelo índice.
O que pesa no bolso é a combinação das duas coisas: a importância do produto no orçamento e o quanto ele subiu. A energia elétrica residencial, por exemplo, teve alta de 8,85%, inferior à do bacalhau ou do videogame, mas tem peso muito maior no orçamento das famílias e lidera o ranking.
A passagem aérea, por outro lado, tem peso menor, mas disparou quase 42%, uma alta suficiente para compensar sua importância relativamente baixa na cesta.
Os dez itens que mais contribuíram para a inflação quando ponderados pelo peso na cesta são energia elétrica residencial, passagem aérea, gasolina, plano de saúde, aluguel residencial, empregado doméstico, refeição fora de casa, ensino fundamental, lanche fora de casa e perfume.
A maioria deles faz parte da vida da classe média, afirma Rennó.
A perda da capacidade de consumo e do padrão de vida pode ser um fator central de insatisfação social e política entre essa parcela da população, segundo ele.
Diferentemente do consumo das classes de menor renda, mais concentrado em itens básicos, a cesta da classe média tem maior participação de serviços e despesas do cotidiano.
“Esses itens ajudam a entender o mau humor da classe média com o PT. Plano de saúde é chave nisso, porque eles não querem ir para o SUS (Sistema Único de Saúde), mas todo mundo sabe que a demora pode ser de meses”, afirma.
Ele diz que esse grupo já tem a percepção de arcar com o ônus financeiro de políticas distributivas voltadas às camadas mais vulneráveis, sem receber contrapartidas equivalentes em serviços públicos ou estabilidade econômica.
Segundo Rennó, fenômeno semelhante é observado em outros países, onde a perda do poder de compra da classe média tem impulsionado reações políticas e descontentamento social.
“A perda de status equivale a uma perda de identidade”, diz. O receio de ser visto por terceiros como alguém em situação pior do que a projetada pode gerar insatisfação, que tende a se voltar contra o Executivo, segundo ele.
Para Feijó, as redes sociais ampliam essa sensação de perda de status ao criar uma expectativa de padrão de consumo que não era tão intensa no passado.
Batista Pereira afirma que faz sentido olhar os dados por faixa de renda. O segmento entre dois e cinco salários mínimos, que concentra boa parte do eleitorado disputado hoje no Sudeste, região estratégica para a candidatura de Lula, seria o mais sensível a esse tipo de pressão.
Benjamin Rosenthal, professor da FGV (Fundação Getulio Vargas), afirma que não considera tão grande, isoladamente, a importância desses aumentos.
Segundo ele, também há mudanças na composição dos gastos das famílias, como a expansão das bets, que passaram a ocupar espaço no orçamento mesmo em um cenário de preços relativamente controlados.
Ou seja, não seria apenas a inflação de itens importantes no orçamento que importa, mas a combinação entre falta de dinheiro para consumi-los e o surgimento de novos gastos.
Isso tornaria especialmente aguda a frustração de não poder mais pagar por determinados itens, afirma. Ele ressalta, porém, que a inflação sequer aparece entre as três principais preocupações do eleitorado em levantamentos de opinião pública, atrás de temas como segurança pública e saúde.
