Greve na UNESP: estudantes ocupam campi no interior e denunciam Tarcísio
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- A paralisação dos servidores técnico‑administrativos da USP começou em 14 de abril, exigindo equiparação salarial e contestando gratificações exclusivas a docentes.
- Em 7 de maio, estudantes ocuparam a reitoria da USP, ampliando a mobilização que se estendeu à UNESP e à UNICAMP.
- Na UNESP, alunos denunciam precarização da estrutura universitária, problemas nas moradias estudantis e terceirização dos restaurantes.
- O movimento, coordenado por Abel Alves (Ocupe! e DCE‑UNESP), atua no Fórum das Seis, que reúne representantes de estudantes, docentes e servidores para discutir pautas salariais e políticas universitárias.
A onda de mobilizações nas universidades públicas paulistas ganhou força nas últimas semanas e colocou estudantes, funcionários e reitorias em rota de tensão. Enquanto os holofotes se concentram na greve da Universidade de São Paulo (USP), o movimento também avança no interior do estado, especialmente na Universidade Estadual Paulista (UNESP), onde estudantes denunciam precarização da estrutura universitária, problemas em moradias estudantis e terceirização dos restaurantes universitários.
O estopim do movimento foi a paralisação dos servidores técnico-administrativos da USP começou em 14 de abril, motivada principalmente pela reivindicação de equiparação salarial e críticas à concessão de gratificações exclusivas para docentes. Depois os estudantes aderiram ao movimento e passaram a cobrar melhorias nas políticas de permanência estudantil, como a definição de um salário mínimo de bolsa de permanência, ampliação da moradia universitária e melhoria dos restaurantes universitários.
Leia também: Em greve, estudantes da USP ocupam reitoria e cobram novas negociações
No dia 7 de maio, estudantes ocuparam o prédio da reitoria da USP. A mobilização ganhou ainda mais repercussão após denúncias de agressões policiais durante manifestações realizadas em São Paulo no último sábado (10).
As mobilizações envolvem as três universidades estaduais paulistas: USP, UNESP e Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). As instituições possuem um espaço conjunto de articulação conhecido como Fórum das Seis, que reúne entidades representativas de estudantes, docentes e servidores técnico-administrativos para discutir pautas salariais e políticas universitárias.
A Revista Fórum conversou com Abel Alves, coordenador estadual do movimento Ocupe! e diretor regional do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UNESP, responsável pelos campi de Assis, Marília, Ourinhos e Tupã. Ele explica que a expansão do movimento ocorreu após os atos realizados na capital paulista.
“A UNESP tem campi em greve já há algumas semanas, como o Instituto de Artes de São Paulo. Mas a estadualização da greve da UNESP se expandiu na última semana após o ato (dia 7 de maio) em São Paulo”, afirma Alves.
Mobilização se espalha pelo interior paulista
Salas de aula piquetadas durante a greve na UNESP Assis Foto: Luciano Junior
Na UNESP, estudantes passaram a organizar atos em apoio aos alunos da USP e ampliaram as discussões sobre as condições da universidade.
“Nossas principais reivindicações se voltam às categorias dos trabalhadores e dos estudantes. No eixo dos trabalhadores é feita uma defesa de melhoria na qualidade dos salários e a construção de um orçamento que consiga realizar maior contratação de técnicos administrativos”, afirma.
Abel explica que, entre os estudantes, o foco está nas políticas de permanência.
“A defesa se volta para permanências mais fortes, chegando ao valor de um salário mínimo e garantindo restaurantes universitários de qualidade e autogestionados, moradias estudantis com espaços de qualidade, segurança e independência”, diz.
Moradias estudantis são alvo de críticas
Entre as principais reclamações dos estudantes está a situação das moradias universitárias. Segundo o dirigente estudantil, os problemas envolvem tanto a falta de manutenção quanto medidas administrativas consideradas restritivas.
“Hoje as moradias estudantis sofrem por dois eixos. Um deles é a falta de estrutura e investimento, que acarreta espaços de má qualidade, insalubridade e risco à saúde do conjunto dos estudantes”, afirma.
“O segundo problema surge quando, disfarçado de reformas, as reitorias acabam por retirar a autonomia e independência das moradias e de seus estudantes, impondo horários para o uso de sua própria residência.”
As reivindicações relacionadas à permanência estudantil também aparecem entre os estudantes da USP, que pedem aumento no valor das bolsas e ampliação das vagas em moradia universitária.
A Fórum também questionou a UNESP sobre a situação da moradia estudantil. Em resposta, a universidade encaminhou um PDF informando que, dos 34 campi da instituição, 13 possuem moradias estudantis e que 1.240 alunos são contemplados pela política de permanência.
No caso específico do campus de Assis, a universidade afirma que 80% da obra da moradia estudantil, iniciada em 2025, já foi concluída. Segundo a instituição, os estudantes que residiam no local passaram a receber um auxílio mensal de R$ 800 para custear despesas com moradia durante o período das obras.
O salário mínimo no estado de São Paulo é de R$ 1.804,00. A plataforma colaborativa Custo de Vida informa que o aluguel de uma kitnet na cidade de Assis pode partir dos R$ 700 até os R$ 1200.
Restaurantes universitários enfrentam denúncias
Os restaurantes universitários também se tornaram um dos principais focos de críticas durante a greve.
“Hoje, nos restaurantes universitários, o enfrentamento se volta justamente no combate à terceirização dos RUs. A iniciativa privada dentro desses espaços só visa seu lucro”, declara Alves.
Ele afirma que a precarização afeta tanto trabalhadores quanto estudantes.
“Como consequência, os trabalhadores enfrentam precarização nas suas condições de trabalho, enquanto os estudantes sofrem com uma comida de má qualidade e que muitas vezes passa por graves crises, como larvas, parafusos e lâminas encontrados na comida.”
No campus da UNESP em Assis, segundo o estudante, a capacidade do restaurante universitário não atende toda a demanda.
“São mais de dois mil estudantes e nosso restaurante universitário não serve sequer 800 pessoas.”
Quando questionada sobre a situação da alimentação estudantil, a universidade respondeu às críticas enviando outro PDF com dados sobre a evolução dos investimentos em alimentação ao longo dos últimos anos.
Atualmente, a instituição fornece alimentação para 9.867 estudantes. A universidade, no entanto, possui cerca de 53 mil alunos matriculados em todo o estado, considerando graduação e pós-graduação.
Além disso, a instituição conta com 26 campi que oferecem almoço e 20 que disponibilizam jantar. Ao todo, a UNESP possui 34 campi espalhados pelo estado de São Paulo.
A entidade também afirma que os campi que não possuem estrutura para restaurantes universitários entregam aos estudantes cestas básicas como alternativa de assistência estudantil.
Debate sobre financiamento da educação
As mobilizações estudantis pressionam o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos). Entidades estudantis e sindicatos acusam a gestão estadual de aprofundar o sucateamento da educação pública superior em São Paulo.
As críticas aumentaram após propostas de alteração no financiamento da educação paulista. Em 2024, uma Proposta de Emenda à Constituição apresentada pelo governo estadual reduziu de 30% para 25% o percentual mínimo da receita destinado à educação, medida que gerou reação de estudantes e sindicatos.
“A questão do financiamento da Unesp é transversal a todas as universidades públicas paulistas. O melhor fórum para esse debate é o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp), que envolve também a USP e a Unicamp – para além da Unesp.”, diz a Unesp
Em nota, ao ser questionada sobre a onda de greves estudantis nos campi espalhados pelo estado, a universidade afirmou que:
“A Unesp respeita a livre manifestação do movimento estudantil e eventuais paralisações do corpo discente. Do mesmo modo, nosso corpo de servidores técnico-administrativos é merecedor de todo o respeito e atenção por parte da universidade.”
Os estudantes entrevistados afirmam que a luta por moradia e alimentação dignas e de qualidade não irá cessar. Eles também incentivam que todos os alunos do estado se mobilizem para pressionar o que definem como o principal inimigo da educação pública e dos trabalhadores paulistas: o governo de Tarcísio de Freitas.
