Greve. “Faltam quase 14.000 enfermeiros no SNS” – Observador

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Hoje é Dia Internacional do Enfermeiro e os enfermeiros agendaram uma greve e decidiram sair à rua em Lisboa. Terminaram à porta do Ministério da Saúde para fazer ouvir algumas reivindicações sobre os problemas que se arrastam nos últimos anos. Entre eles estão a escassez de profissionais, o fim dos contratos precários, exigem isto, e referente à progressão na carreira, o pagamento também dos retroativos entre 2018 e 2021. O sindicato fala ainda de um horário de 35 horas semanais para todos os enfermeiros e, por fim, sublinham que rejeitam o pacote laboral que o governo pretende implementar. Para nos ajudar a perceber melhor as reivindicações deste setor, falamos com alguém que conhece muito bem a realidade no terreno. Dora Franco é enfermeira há 24 anos, especialista em saúde mental. Atualmente é presidente do Conselho Diretivo da Secção Regional do Sul da Ordem dos Enfermeiros. Dora Franco, muito obrigado pela sua disponibilidade.
Obrigada.
Antes de irmos a algumas reivindicações concretas do setor, gostava de começar por falar de algo que a Dora é especialista, a saúde mental. Dados de 2024 dizem-nos que cerca de 42% dos enfermeiros apresentam níveis elevados de burnout e quase 90% reportam sintomas de ansiedade e insônia. Dora, é um setor desgastado psicologicamente. Estamos a retirar saúde a quem cuida da saúde dos outros?
Boa tarde, muito obrigada pelo convite. Sim, de facto, a questão da saúde mental é um problema e deveria também ser encarada como uma prioridade, quer por parte das políticas de saúde e laborais, quer também do ponto de vista da comunidade. Na verdade, se nós tivermos profissionais de saúde e sobretudo enfermeiros, com estes níveis de percepções negativas da sua saúde mental, com estes níveis de insônia, de ansiedade, é óbvio que nós vamos ter consequências em termos de cuidados que são ministrados aos nossos utentes e à nossa comunidade. E dessa forma também acredito, que nós só conseguimos melhorar as políticas de retenção, se nós investirmos de forma séria naquela que é a promoção da saúde mental e também o reconhecimento do desgaste e da penosidade associada à prestação de cuidados e à prática dos cuidados.
Uma das principais reivindicações passa também pela falta de profissionais e, consequentemente, pela necessidade de contratar mais. Na prática, mais profissionais resolvia grande parte do problema nos hospitais?
O problema daquilo que está a acontecer atualmente no nosso sistema de saúde, nomeadamente no Serviço Nacional de Saúde, é um problema que é multifatorial. Nós continuamos a ter um sistema muito reativo, muito centrado nos cuidados hospitalares, um bocadinho politizado e, portanto, também acredito que o aumento do número dos enfermeiros fosse efetivamente uma das respostas, mas depois há outras respostas que devem ser tomadas e adotadas concomitantemente, como por exemplo, a prática avançada e a valorização de determinadas competências. O que acontece atualmente é que nós temos uma falta de quase 14 mil enfermeiros em Portugal. A taxa em termos de pedidos de imigração reduziu ligeiramente, mas continuamos ainda a ter uma grande percentagem de enfermeiros que emigram e que, na verdade, procuram e encontram em países da União Europeia, mas também nos Estados Unidos e no Canadá, mais condições. Condições do ponto de vista laboral, de segurança financeiras, de progressão, mas também mais condições em termos de utilização e de exercício da prática dos cuidados.
Já que falamos noutros países, tinha aqui uma pergunta também no sentido se Portugal continua demasiado preso a um modelo muito centrado na figura do médico. E digo isto porque noutros países europeus, como a Dora está a frisar, os enfermeiros têm mais autonomia clínica, inclusive. Não é apenas uma questão salarial, certo?
Sim. Não é só uma questão de valorização salarial, é uma questão de condição e de estabilidade do ponto de vista laboral. E neste momento, os enfermeiros sentem, por isso também há estas manifestações no Dia do Enfermeiro, que deveria ser um dia de celebração, mas é também um grito de alerta naquilo que são as condições de precariedade, naquilo que deveria ser uma integração de cuidados efetiva, centrada nas necessidades da nossa população e que muitas vezes barra neste corporativismo, nesta burocracia e nesta politização associada a algumas decisões políticas e de algumas classes profissionais. Quando, na verdade, íamos estar todos centrados naquilo que é o bem maior e que está também explorado na lei de bases de saúde, que é o acesso equitativo, a universalidade, a dignidade daqueles que nós cuidamos. Mas acredito mesmo que isso poderá ser um caminho se nós investirmos naquelas que são as intervenções dos enfermeiros, que são muito mais do que resultados, têm efetivamente impacto real na vida das pessoas e da comunidade.
Sim, no sentido da valorização da carreira, nós ouvimos muitas vezes que os enfermeiros são a espinha dorsal do SNS, mas também há quem se queixe que continuam a ser o parente pobre dos hospitais e acredito que também faça com que muitos enfermeiros continuam a sair para o estrangeiro. A Dora sente isto no contacto com o terreno?
Sim, nós em termos da região, a Secção Regional do Sul tem quase 35 mil enfermeiros, portanto é a maior secção em termos nacionais. E o que nós verificamos, e até há bem pouco tempo tínhamos aproximadamente 300 camas encerradas por falta de enfermeiros, e nas visitas de acompanhamento e exercício profissional, verificamos que deveriam estar encerradas muito mais. Por quê? Porque nós temos serviços a funcionarem com rácios muitoInadequados e muito pouco seguros. E se nós tivermos enfermeiros a cuidarem do dobro dos doentes que deveriam de cuidar, há uma relação direta também com o aumento da taxa de mortalidade, infecções, efeitos adversos, complicações. E, portanto, aquilo que nós sentimos é que há um cansaço por parte da classe profissional. Há uma certa desmotivação, mas é um caminho que eu acredito que possa ser feito, mas que não é só feito de forma unilateral. Ou seja, tem que existir um esforço também da tutela política, em termos de políticas, que possam efetivamente ser protetoras dos profissionais de saúde, nomeadamente dos enfermeiros, e de valorização efetiva, que é isso que acontece fora do nosso país. E os enfermeiros que referem muito isso, que emigraram e lá sentem-se no exterior mais protegidos a vários níveis, até do ponto de vista da segurança e do ponto de vista laboral também, e do apoio até das políticas de habitação.
Sim, do ponto de vista da segurança, também tinha aqui informação de que os dados relativamente a agressões sofridas por enfermeiros nos hospitais têm aumentado. É isso, Dora?
Sim, têm aumentado. Em 2025, a violência contra os profissionais de saúde, onde se destaca uma maior percentagem para os enfermeiros, foi de aproximadamente 3500 episódios. É um número absolutamente inadmissível, tendo em consideração que muitos destes episódios também não são relatados. Destes episódios de violência, a grande percentagem é uma violência psicológica, mas é efetivamente uma violência que depois provoca danos. Danos não só em termos de absentismo, mas danos que se vão perpetuar em termos de tempo, de relacionamento e de saúde mental. Também temos aqui números elevados decorrentes de burnout. E nós, enquanto secção, também tivemos conhecimento de algumas situações e falámos, conversámos com os colegas que foram vítimas de violência e que relatam isto mesmo, esta marca invisível que se perpetua no passar do tempo e que tem muito a ver também com feridas invisíveis que destroem a confiança no sistema, que nos deveria proteger também a nós, enquanto profissionais de saúde, e a confiança no outro.
Certamente. Relativamente a outras reivindicações desta greve, algumas já falámos, o pagamento de retroativos, progressão na carreira, fim da precariedade e horário das 35 horas. Queria me focar aqui um pouco na questão do horário. Ainda há pouco, numa reportagem, ouvi uma enfermeira dizer que todos os dias quando entra no trabalho, não sabe a que horas vai sair. Tem ideia, por média, de quantas horas extra os enfermeiros andam a trabalhar à semana, por exemplo?
Há situações mais críticas e há ULS que são mais críticas em relação a outras, mas não conheço nenhuma onde não haja recurso a horas extraordinárias e a turnos suplementares. E como há também aqui esta necessidade de continuidade em termos de cuidados, muitas vezes há esta imposição de continuidade dos turnos. Portanto, temos enfermeiros a trabalharem muitas vezes 16 horas por dia, 12 horas, e a maior parte dos sítios temos horários que não são de 35, muitas vezes são do dobro das horas que são recomendáveis. E isto depois tem custos, como falava há pouco. Há o aumento consequente dos cuidados omissos, ou seja, aqueles cuidados que deveriam ser prioritários e que são delegados para segundo plano. Há um aumento das taxas de infecção, de complicações, até da mortalidade. Portanto, se nós não tivermos dotações seguras, vamos ter consequências muito concretas em termos de prestação de cuidados e com impacto real em termos de efeito na pessoa dos nossos destinatários, na pessoa de quem nós cuidamos.
Claro que já falámos que isto é uma questão que depende de multifatores, melhorar o setor, mas o que considera resolver mais rapidamente, mais urgente?
Eu acho que nós deveríamos ter aqui uma aposta clara nas condições laborais, quer do ponto de vista da progressão, quer do ponto de vista financeiro, mas também na questão da segurança. Termos uma política de zero tolerância para o assédio, investirmos na saúde mental como uma prioridade. Nós já sabemos que há aqui danos que são muito claros e efeitos muito claros desta perceção negativa da saúde mental. O reconhecimento também da penosidade da profissão de enfermagem, com a consequente valorização do trabalho. Depois também temos aqui esta questão muito importante de políticas que fomentem lideranças que possam empoderar as práticas e utilização das competências no seu expoente máximo. Na verdade, nós não podemos estar presos a estes modelos de cuidados que já percebemos que não nos levam a lado nenhum. Nós somos uma população mais envelhecida, com mais doenças crônicas. A doença crônica quase que duplicou nos últimos 10 anos e é sobretudo sentida nos mais pobres. Portanto, nós temos que ter políticas também de proteção dos mais vulneráveis. Se nós não apostarmos nestes modelos também de gestão da doença crônica, da gestão das grávidas, por exemplo, que não têm médico de família, se nós não apostarmos em novos modelos que possam permitir respostas mais eficazes e mais personalizadas das nossas pessoas e das nossas comunidades, nós vamos ter um problema, que não é só exclusivo da profissão e da atração de profissionais de saúde, é sobretudo um problema da nossa população. Nós temos que mudar as nossas políticas e verdadeiramente integrarmos as nossas políticas e apostarmos de forma muito clara e corajosa também naqueles que são os cuidados de saúde na comunidade, na promoção da saúde, na prevenção da doença, e em novos modelos onde os enfermeiros devem assumir, e já assumem em alguns sítios, a liderança dos processos terapêuticos.
Dora Franco, muito obrigado por se ter juntado à Rádio Observador. É presidente do Conselho Diretivo da Secção Regional do Sul da Ordem dos Enfermeiros. Muito obrigado pelas suas explicações.
Muito obrigada eu.
