Gaokao começa na China com 12,9 milhões de candidatos: Inteligência artificial influencia novos cursos e temas de redação
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- 12,9 milhões de estudantes se inscreveram no Gaokao 2024, principal exame de acesso ao ensino superior na China.
- Pais e professores se reuniram nas cidades chinesas para apoiar os candidatos, tradição recorrente durante o período da prova.
- O Ministério da Educação divulgou o Catálogo de Cursos 2026, adicionando graduações inéditas como inteligência incorporada, interfaces cérebro‑computador e tecnologia marítima inteligente.
- Universidades como Sichuan e Harbin lançaram, respectivamente, cursos de fabricação de semicondutores e de Inteligência Incorporada, ampliando opções nas áreas de alta tecnologia e bem‑estar social.
Teve início neste domingo (7), o Exame Nacional de Admissão ao Ensino Superior da China (Gaokao) de 2026, que será realizado ao longo de dois dias. Neste ano, 12,9 milhões de estudantes se inscreveram para participar da prova. Considerado o principal mecanismo de seleção para o ingresso no ensino superior do país, o Gaokao é amplamente visto como uma das mais importantes oportunidades para que os jovens chineses tenham acesso à universidade e ampliem suas perspectivas de desenvolvimento pessoal e profissional, atraindo atenção de toda a sociedade.
Antes do início dos exames, o Ministério da Educação da China orientou as autoridades locais a reforçarem medidas de apoio relacionadas à mobilidade urbana, segurança alimentar, controle de ruídos e assistência psicológica, com o objetivo de garantir um ambiente adequado aos candidatos. Em diversas cidades chinesas, pais e professores se reuniram nos arredores dos locais de prova para incentivar os estudantes, uma cena que se repete anualmente e já se tornou uma característica marcante do período do Gaokao.
Um dos aspectos que mais chamam atenção neste ano é a ampliação das opções de cursos universitários. Recentemente, o Ministério da Educação divulgou a nova edição do Catálogo de Cursos de Graduação das Instituições de Ensino Superior (2026), incorporando graduações inéditas em áreas como inteligência incorporada (embodied intelligence), ciência e tecnologia de interfaces cérebro-computador, economia de baixa altitude e gestão, além de tecnologia marítima inteligente e sistemas não tripulados.
As novas graduações buscam atender à crescente demanda por profissionais qualificados em setores estratégicos emergentes, incluindo inteligência artificial, robótica e semicondutores. A Universidade de Sichuan, por exemplo, lançou o primeiro curso de graduação do país voltado especificamente para processos e equipamentos de fabricação de semicondutores. Já o Instituto de Tecnologia de Harbin criou o curso de Inteligência Incorporada, destinado à formação de profissionais multidisciplinares para as áreas de robótica e inteligência artificial.
Ao mesmo tempo, novos cursos relacionados ao bem-estar social também vêm ganhando espaço, como terapia por meio das artes, design inteligente de paisagens e estudos de Taijiquan (Tai Chi Chuan). De acordo com o 15º Plano Quinquenal da China, o país pretende ampliar ainda mais a oferta de educação superior de qualidade, especialmente nas áreas de ciência, engenharia, agricultura e medicina, fortalecendo a articulação entre o sistema educacional, a inovação tecnológica e as necessidades do desenvolvimento industrial.
Outro tema que tradicionalmente desperta grande interesse da opinião pública são as redações da prova de língua chinesa. Além de avaliar a capacidade de expressão escrita dos estudantes, os temas propostos são frequentemente interpretados como um reflexo das prioridades educacionais e das preocupações sociais do país. Após a divulgação dos temas deste ano, os debates rapidamente ganharam espaço na mídia e nas redes sociais. Nas provas nacionais e em exames regionais de cidades como Beijing, Shanghai e Tianjin, conceitos como “mudança”, “tecnologia” e “inovação” apareceram como elementos centrais.
Na prova nacional I, os candidatos foram convidados a refletir sobre uma palavra cujo significado, em sua compreensão, tenha passado por transformações ao longo do tempo. Em Shanghai, a proposta discutiu a ideia de que “ao transformar o mundo, a tecnologia também transforma nossa imaginação”. Já em Beijing, uma das tarefas de escrita breve solicitou a criação de um slogan para uma atividade temática intitulada “Inteligência Artificial e uma Velhice Feliz”.
Segundo análises publicadas por diversos veículos chineses, os temas de redação deste ano refletem as reflexões da sociedade chinesa diante do rápido avanço da inteligência artificial. De um lado, as inovações tecnológicas vêm transformando profundamente modos de vida, escolhas profissionais e estruturas sociais; de outro, cresce o debate sobre como preservar a capacidade de pensamento independente, a criatividade e a compreensão do próprio valor humano em um contexto de mudanças aceleradas.
Embora abordem perspectivas distintas, os diferentes temas convergem para uma mesma reflexão. A prova nacional II enfatiza a importância de preservar valores fundamentais diante dos desafios e transformações do mundo contemporâneo. Já as propostas de Beijing destacam a relevância do planejamento, da prática e da reflexão aprofundada. Apesar das diferenças de abordagem, os temas giram em torno das relações entre progresso tecnológico, transformação social e crescimento individual. Para a nova geração que em breve ingressará na universidade e no mercado de trabalho, trata-se não apenas de uma prova de redação, mas também de uma oportunidade para refletir sobre o futuro.
Para o público brasileiro, a importância do Gaokao apresenta algumas semelhanças com o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), já que ambos constituem importantes portas de entrada para o ensino superior e mobilizam milhões de jovens todos os anos. Ao mesmo tempo, tanto na China quanto no Brasil, as redações não avaliam apenas a capacidade de escrita dos candidatos, mas também sua habilidade de refletir sobre questões relevantes para a sociedade e para o seu tempo.
Nos últimos anos, os temas de redação do ENEM têm se mantido fortemente conectados à realidade social brasileira, abordando assuntos como envelhecimento populacional, valorização da herança africana, reconhecimento do trabalho de cuidado realizado pelas mulheres e saúde mental, incentivando os jovens a refletirem sobre desafios concretos da sociedade e possíveis caminhos para enfrentá-los. Da mesma forma, as redações do Gaokao deste ano evidenciam preocupações relacionadas às transformações tecnológicas, à inovação e ao desenvolvimento humano, estimulando os estudantes a pensar sobre as relações entre inteligência artificial, sociedade e futuro. Sob diferentes perspectivas, os exames dos dois países demonstram a preocupação dos sistemas educacionais em formar jovens com senso de responsabilidade social, espírito inovador e capacidade de participação cidadã.
Dos novos cursos universitários aos temas de redação, os exames deste ano mostram como o sistema educacional chinês busca responder aos desafios trazidos pela revolução tecnológica e pelas transformações industriais, preparando uma nova geração de talentos para impulsionar a inovação e o desenvolvimento do país.
Para muitas famílias chinesas, o Gaokao representa mais do que um simples exame. Trata-se de um importante mecanismo de promoção da igualdade de oportunidades e da mobilidade social. Especialmente para estudantes oriundos de áreas rurais ou de famílias de renda mais baixa, o ingresso em uma boa universidade por meio do próprio esforço pode significar acesso a mais oportunidades de desenvolvimento e melhores perspectivas de vida. Por isso, o Gaokao é amplamente visto como um dos mecanismos mais importantes de seleção baseada no mérito na sociedade chinesa e carrega as expectativas de milhões de jovens e suas famílias em relação ao futuro.
