Futebol, geografia e poder: uma breve análise geopolítica das Copas do Mundo (1930-2026) – parte 2
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- Em abril, o autor publicou no Fórum a análise “Futebol, geografia e poder”, que relaciona as Copas do Mundo de 1930‑2026 ao soft power e destaca a FIFA como ator nas relações internacionais.
- O texto menciona os títulos da Itália na década de 1930, as conquistas do Brasil e da Argentina nos anos 1970 e a seleção alemã de 1938, que integrou cinco jogadores austríacos e ostentou a suástica no uniforme.
- O 3.º lugar do Brasil em 1938 foi usado na propaganda varguista, que chegou a propor a realização da Copa de 1942, cancelada pela Segunda Guerra Mundial.
- As campanhas de Portugal (3.º em 1966) e da Hungria (vice‑campeã em 1954) são apresentadas como projetos de Estado para reforçar narrativas nacionais, com Puskás também detentor de patente militar.
No mês de abril, escrevi um artigo aqui na Fórum intitulado “Futebol, geografia e poder: uma breve análise geopolítica das Copas do Mundo (1930-2026)”, no qual apontei como o esporte é um eficiente mecanismo de soft power, sendo a FIFA um dos principais atores no atual contexto das relações internacionais.
Diferentemente do texto anterior, nessa “parte 2” não vou me concentrar especificamente nas diferentes edições da Copa, mas em determinadas temáticas da geopolítica que dialogam com os mundiais de futebol.
Muito se fala sobre como governos ditatoriais se apropriam de títulos em Copas como instrumento de propaganda ideológica, de coesão nacional e de legitimação política. Estes foram os casos dos dois títulos da Itália na década de 1930 e os de Brasil e Argentina nos anos 1970. Como geralmente só nos lembramos dos campeões, outros casos acabam sendo esquecidos.
A seleção alemã disputou a Copa de 1938 com cinco jogadores da recém-anexada Áustria e com a suástica no peito de seu uniforme. Nesse torneio, o Brasil ficou na 3ª colocação, feito incorporado pela propaganda varguista, que chegou a lançar a candidatura do país para sediar a Copa de 1942 (como sabemos, não ocorreu devido à Segunda Guerra).
Já a melhor campanha de Portugal em Copas, o também 3º lugar em 1966, ocorreu no período do regime salazarista. Como aponta o professor Adriano de Freixo, a imagem multirracial da seleção, com os jogadores oriundos das colônias, era usada para reforçar a ideia da grande nação portuguesa que se estendia por três continentes e que se caracterizava pela civilização luso-tropical.
Segundo o jornalista Mauro Beting, a seleção húngara vice-campeã em 1954 não era somente um projeto esportivo, que desencadeou uma revolução técnica, tática e física: ela foi um projeto do Estado húngaro e um elemento de afirmação nacional. Puskás, o craque do time, também possuía patente militar.
Por sua vez, Eduardo Galeano se referia ao futebol, esporte carregado de metáforas militares, como “sublimação ritual da guerra”, vide o uso constante de expressões como tática, estratégia, capitão, ataque e defesa. No entanto, como lembra o anteriormente citado Adriano de Freixo, nessas intersecções entre o futebol e a guerra, um episódio tem enorme singularidade: em 1969, um jogo das eliminatórias da Copa do Mundo entre Honduras e El Salvador serviu de estopim para deflagrar um conflito armado entre os dois países, dando início àquela que ficaria conhecida como a Guerra do Futebol.
No plano simbólico, a partida entre Suíça e Sérvia na Copa de 2018 foi marcada por comemorações de gols em que os jogadores cruzaram as mãos e entrelaçaram os polegares. O sinal é uma referência à águia que integra a bandeira da Albânia, país que reconhece e apoia a existência do estado de Kosovo, que trava uma disputa geopolítica com os sérvios.
Por outro lado, para o jornalista estadunidense Franklin Foer, o futebol é um dos grandes vencedores da globalização. Seguindo essa linha analítica, o geopolítico francês Pascal Boniface enfatiza que o esporte mais popular do planeta é a última etapa da mundialização. Inexiste, atualmente, fenômeno mais global. Seu “império” não conhece fronteiras. Não por acaso, estamos presenciando a “Copa da Diáspora”, uma vez que 289 jogadores estão disputando o torneio por países em que não nasceram, o que representa quase um quarto (23%) dos 1.248 atletas.
Se no texto anterior destaquei o título francês em 1998, com uma seleção que contava com filhos de imigrantes africanos, atualmente temos o movimento contrário. “Durante muito tempo, vimos jogadores africanos ou filhos de africanos fortalecendo seleções europeias. Agora, vemos muitos nascidos na Europa voltando a representar os países de origem de suas famílias. É quase um retorno simbólico da diáspora”, disse o professor Alexandre Coelho em matéria do UOL. Além disso, apenas 8 das 48 seleções da Copa possuem um time em que todos os jogadores são naturais do próprio território do país.
Já a FIFA como ator geopolítico reflete o equilíbrio internacional de forças. Em Copas realizadas em países do chamado Sul Global, a entidade impõe suas regras. Nos Estados Unidos, a lógica é invertida. Todas as violações de direitos humanos do império são aceitas por Infantino e companhia.
Mas nem sempre foi assim. Hoje os Estados Unidos proíbem a seleção iraniana de pernoitar em seu território. Em 1966, a Inglaterra ameaçou negar os vistos para a delegação norte-coreana, pois não reconhecia o governo de Pyongyang. Em resposta, a FIFA ameaçou transferir o torneio para outro país se a entrada de qualquer equipe classificada fosse bloqueada.
Em síntese, este artigo e o anterior demonstram que a Copa do Mundo transcende o evento esportivo; é um palco privilegiado no qual se projetam disputas simbólicas, tensões históricas e assimetrias de poder entre nações. As dinâmicas geopolíticas – da propaganda ditatorial à guerra declarada, da diáspora à imposição de arbitrariedades imperiais – revelam que o futebol, longe de ser um mero entretenimento, é um fenômeno total, em que o “jogo” se estende muito além das quatro linhas.
