Frei Gilson é denunciado ao MPSP por falas contra gays e mulheres
00:00
A+
A-
- Frei Gilson foi denunciado ao Ministério Público de São Paulo (MPSP) por afirmar que homossexualidade é “desordem”, “contrariedade à lei natural” e “depravação grave”, segundo reportagem do Metrópoles.
- A denúncia também traz comentários do religioso que desqualificam mulheres e reforçam estereótipos de papéis de gênero.
- O MPSP analisará o caso pelos seus canais digitais e pelo Gecradi, equipe responsável por combater intolerância e discriminação.
- Denúncias semelhantes são registradas no Disque 100, serviço da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos voltado à população LGBTQIA+.
Frei Gilson da Silva Pupo Azevedo foi denunciado ao Ministério Público de São Paulo por supostas falas discriminatórias contra pessoas LGBT+ e mulheres. A representação foi apresentada por Brendo Silva, ex-noviço, jornalista e escritor, e aponta declarações feitas pelo sacerdote em homilias, entrevistas e redes sociais. O caso ocorre em São Paulo e agora depende de análise do MPSP para eventual abertura de apuração.
A informação foi divulgada inicialmente pelo site Metrópoles. Até a publicação desta reportagem, não havia divulgação pública localizada do MPSP sobre eventual instauração de procedimento. Por isso, a denúncia deve ser tratada como representação em análise, e não como ação penal, investigação formal concluída ou condenação.
Frei Gilson é acusado de associar homossexualidade a “depravação grave”
Segundo o teor da denúncia relatado pelo portal, a representação afirma que Frei Gilson teria usado, em conteúdos religiosos, termos como “homossexualismo” e associado a homossexualidade a expressões como “desordem”, “contrariedade à lei natural” e “depravação grave”. Para Brendo Silva, as falas ultrapassariam o campo da manifestação religiosa e reforçariam estigmas contra pessoas LGBT+.
“Liberdade religiosa não é liberdade para odiar.”
A frase aparece em trecho atribuído à denúncia. Brendo sustenta que discursos religiosos de grande alcance não podem naturalizar a ideia de inferioridade, doença ou desvio em relação à orientação sexual de pessoas LGBT+.
A representação também afirma que o impacto das falas deve ser analisado no contexto brasileiro de violência contra minorias sexuais e de gênero. O Disque 100, canal nacional de denúncias de violações de direitos humanos, recebe registros relacionados à população LGBTQIA+ e é operado pela Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos.
Denúncia contra Frei Gilson também cita falas sobre mulheres
A denúncia contra Frei Gilson também menciona declarações sobre mulheres. Em abril, vídeos de uma pregação do sacerdote voltaram a gerar reação política nas redes sociais. A Fórum mostrou que a senadora Soraya Thronicke reagiu com dureza às declarações do religioso, chamou o frei de “falso profeta” e classificou a fala como ataque às mulheres.
O histórico de controvérsias em torno do religioso não é recente. Em março de 2025, a Fórum publicou vídeo em que Frei Gilson defende a submissão das mulheres aos homens, em discurso que provocou forte reação nas redes sociais.
A nova denúncia amplia a pressão sobre Frei Gilson porque reúne, em uma mesma representação, falas atribuídas ao religioso sobre sexualidade, mulheres e papéis de gênero.
O que o MPSP pode analisar no caso Frei Gilson
O MPSP mantém canais digitais para recebimento de denúncias e notícias de fato por meio do Atendimento ao Cidadão e à Cidadã. A análise inicial pode verificar se há elementos mínimos para apuração, se os vídeos e declarações citados existem, qual foi o contexto das falas e se há indícios de prática discriminatória.
O Ministério Público paulista também possui o Gecradi, grupo que atua na identificação, prevenção e repressão de delitos de intolerância, preconceito e discriminação contra pessoas ou grupos.
A eventual tramitação da representação não significa culpa do religioso. Em casos desse tipo, o órgão pode pedir complementação de informações, encaminhar o material ao setor competente, instaurar procedimento ou arquivar a notícia caso entenda que não há base para apuração.
STF enquadrou homofobia e transfobia na Lei do Racismo
O principal marco jurídico nacional para casos de LGBTfobia é a decisão do Supremo Tribunal Federal que, em 2019, enquadrou a homofobia e a transfobia como crimes de racismo até que o Congresso aprove legislação específica. A decisão foi tomada no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão 26 e do Mandado de Injunção 4733, conforme informou o STF.
A Fórum acompanhou a decisão do STF que criminalizou a homofobia e a transfobia no Brasil. O entendimento segue como referência para debates sobre discursos discriminatórios contra pessoas LGBTQIA+.
Em São Paulo, a Lei Estadual 10.948/2001 pune manifestações atentatórias ou discriminatórias praticadas contra cidadãos homossexuais, bissexuais ou transgêneros. No município de São Paulo, a Lei 17.301/2020 veda discriminação em razão de orientação sexual ou identidade de gênero.
Alcance digital de Frei Gilson aumenta repercussão da denúncia
Frei Gilson é um dos religiosos brasileiros de maior alcance nas redes sociais. Seu canal oficial no YouTube reúne pregações, músicas e transmissões de oração. Ele também lidera o ministério Som do Monte, citado no portal oficial dos Carmelitas Mensageiros do Espírito Santo.
Esse alcance é um dos pontos centrais da repercussão. A denúncia não mira apenas falas privadas, mas declarações atribuídas a um sacerdote com audiência massiva, capaz de influenciar debates religiosos, políticos e culturais.
Frei Gilson ganhou projeção nacional com transmissões ao vivo de orações na madrugada, especialmente o rosário, e passou a ocupar espaço crescente no debate público. Nos últimos anos, suas falas sobre comportamento, família, sexualidade e política passaram a provocar reações fora do campo religioso.
Quem é Brendo Silva
Brendo Silva é jornalista, escritor e ex-integrante de ambientes religiosos. Segundo a denúncia, ele afirma ter convivido por mais de uma década em espaços eclesiásticos, incluindo seminários, e diz ter presenciado contradições entre discursos públicos de exclusão e a presença de pessoas LGBT+ dentro da própria estrutura da Igreja.
Na representação, Brendo sustenta que a liberdade religiosa deve ser protegida, mas não poderia servir como escudo para falas que, na avaliação dele, reforçam preconceito contra gays, mulheres e outros grupos vulnerabilizados.
O que diz Frei Gilson
Até o fechamento desta reportagem, não havia manifestação pública localizada de Frei Gilson sobre a denúncia ao MPSP. O site Metrópoles informou que procurou a defesa do religioso, mas não obteve retorno até a publicação original.
O espaço segue aberto para manifestação de Frei Gilson ou de sua defesa.
Violência contra mulheres e pessoas LGBT+ pesa no debate
A denúncia também se insere em um cenário de alta violência contra mulheres no Brasil. A Fórum mostrou os dados por trás do feminicídio no país, com base em levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública que registrou 1.568 mulheres assassinadas em 2025.
São Paulo também enfrenta escalada nos indicadores. A Fórum mostrou que as vítimas de feminicídio aumentaram 96% em quatro anos no estado, que é justamente o local onde a representação contra Frei Gilson foi apresentada.
Para Brendo Silva, esse contexto reforça a necessidade de responsabilização de discursos públicos que possam alimentar exclusão, inferiorização ou hostilidade contra grupos historicamente atingidos por violência.
A análise do MPSP deverá definir se a representação contra Frei Gilson tem elementos para avançar. Até lá, o caso permanece como denúncia apresentada ao Ministério Público e sem decisão pública conhecida.
