Festa de anos das crianças ou teste de resistência? – Observador

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Bem-vindos ao “Porque Sim Não É Resposta” com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos da saga das festas de aniversário das crianças. Temos uma mãe que escreveu ao Eduardo para dizer que as crianças saem destas festas claramente desreguladas, com excesso de estimulação. Olá, Eduardo. Isso são consequências que afetam comportamentos ou são passageiras?
Olá, Judite. São festas, não é, Judite? Portanto, é suposto que as festas tenham essa dimensão estimulante e se passe muitas coisas numa festa. Portanto, é natural que elas, na melhor das hipóteses, venham rigorosamente estoiradas.
Com altos níveis de açúcar, como é normal.
Sim. Comeram, sim. Não dizem é quantas gomas e outras coisas do gênero. Portanto, algumas vêm excitadas, claro, mas eu não vejo mal nenhum nisso, não vale a pena estarmos a preocupar com isso. É uma reação a um momento de grande intensidade, grande euforia, às vezes. E depois precisam desacelerar um bocadinho desde que termina a festa. O que às vezes me preocupa mais nas festas, Judite, é eu sentir que há pais e mães que demoram uma hora para persuadir os filhos a abandonarem a festa, porque eu fico sempre sem jeito. Eu percebo que eles adoram estar na festa, mas a determinada altura eu sinto que há pais que ficam quase assustados. Posso contrariar o meu filho à frente de outros pais ou não, mas de resto, são festas, e as festas servem para isto mesmo, para momentos de êxtase, de brincadeira. Em boa verdade, utilizando esse termo de desregulação. E eu gosto, porque eu às vezes tenho a ideia que as crianças andam até reguladas em excesso e, feitas as contas, não acho que isso lhes estrague tantos anos como à primeira vista pode parecer.
A filha desta ouvinte recusa ir a algumas festas de aniversário quando os aniversariantes não são simpáticos para ela.
Gosta-se a rabear.
Esta capacidade de saber escolher é interessante aos seis anos.
Eles são tão claros, Judite. Eles são tão menos infantis do que nós, os pais, imaginamos. Eles fazem escolhas desde muito cedo e, de alguma forma, têm critérios que foram trabalhados por nós, sem dar por isso. Mas têm critérios quando escolhem ser amigos deste ou colegas daquele, que são estatutos diferentes. E nessas circunstâncias, nós, os pais, ficamos sempre sem jeito: “Mas é uma festa, não queres ir?” E às vezes são claríssimos: “Não, porque essa pessoa não é tão acolhedora, tão simpática como eu gostaria que fosse”. Portanto, colocam-na imediatamente no patamar de colega e despromovem. Ainda acham que nós não fiquemos com a equívoco se aquela pessoa não é bem amiga dela. E nós temos sempre a ideia que quando nós cumprimentamos alguém na rua, os nossos filhos perguntam: “É teu amigo?” Portanto, somos amigos de todos. Mas nós fazemos igual, ou seja, temos sempre este pressuposto que quando o nosso filho, uma filha nossa, mesmo com seis anos, tem 15, 18 ou 20 colegas, que todos sejam amigos. E, na verdade, não é de todo assim.
Mas estas festas de anos tornaram-se um ritual social. O parque temático, as prendas, as prendas para os convidados. Estas festas são tanto para as crianças como são uma competição para os adultos.
Judite, às vezes são e não deviam. Porque eu acho que uma festa precisa ter meia dúzia de coisas pensadas, naturalmente, nas crianças, e às vezes são formas dos pais socializarem durante a festa. Sempre acho isso o mais simpático, gosto muito que os pais socializem, como imagina, mas nem sempre as festas são pensadas em nome dos pais e não têm que ser. E de facto, há festas que são verdadeiras competições do gênero: “Vamos ver quem é capaz de fazer a festa mais-“
Derrumbante.
“Mais requintada”, mas às vezes são insufláveis, é isto, é aquilo. E aí eu não sei se têm tanto como objetivo satisfazer as crianças que lá estãoOu às vezes satisfazer o amor próprio dos pais, que com isso fica um pouquinho mais alimentado e que talvez não precisasse dessas manifestações para eles se sentirem melhor.
Esta mãe saiu de um grupo do WhatsApp de pais e depois foi confrontada por outros pais que lhe disseram que estava a prejudicar a filha ao perder tantas festas de aniversário. Isto é assim tão grave? Ganhou esta dimensão?
Os grupos do WhatsApp é muito grave. Ó Judite França, eu já fiz parte de um grupo do WhatsApp de mães e devo lhe dizer que chegava ao fim do dia e tinha 150 mensagens e pensava: “O que está a acontecer no mundo?” E não, estávamos a discutir se a t-shirt devia ser azul ou branca, se deviam levar um casaquinho ou não. E, portanto, eu adoro as mães, mas eu percebo que às vezes os grupos do WhatsApp de mães são grupos poderosos e às vezes um pouquinho implacáveis. Mas eu percebo também isso, porque às vezes há festas de crianças, particularmente de crianças do sexo feminino, em que com cinco anos já há cabeleireiros, massagem, pó de arroz e outras coisas que tais. E, portanto, acho que às vezes se está a partir do pressuposto que aquelas crianças não têm cinco anos. E há ali um empurrãozinho de algumas mães pra que elas pareçam já muito mais crescidas, quase adolescentes feitas. E, portanto, eu percebo que algumas mães, nesse contexto, se sintam incomodadas. Eu acho que os pais são soberanos no seu bom senso. E quando uma mãe ou um pai decidem não fazer parte de um determinado grupo, é porque têm a noção de que há uma relação custo-benefício e os ganhos que aquele grupo pudesse trazer a uma filha, talvez não sejam acompanhados por um conjunto de iniciativas nas quais os pais não se reveem. Portanto, eu acho que isso é só sensato, mais nada que isso. Mas acho que sim, os grupos de WhatsApp de mães são difíceis.
Difíceis. E pra quem tem festas de aniversário este fim de semana, boa sorte também. E forte.
Muito boa sorte. Eu tenho duas.
Ah, pronto. Então boa sorte. Um grande abraço.
Muito obrigado.
Até segunda-feira. Obrigada.
Bom fim de semana, Judite.
