Em meio a tensões com EUA, Xi Jinping promete apoio a Lula e defende soberania brasileira
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- Xi Jinping telefonou a Lula na noite de 26 de julho, declarando apoio chinês à soberania e independência do Brasil.
- A chamada ocorreu poucos dias após os EUA entrarem em vigor, em 22 de julho, com tarifas de 25 % sobre cerca de 3 mil produtos brasileiros.
- Os líderes firmaram cooperação em IA, minerais críticos, fertilizantes e aceleraram as negociações do acordo Mercosul‑China.
- O contato se deu em meio a atritos com Washington, que incluiu a negação de vistos a dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA em 24 de julho.
O presidente da China, Xi Jinping, afirmou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que apoia o Brasil na defesa de sua soberania e independência e se opõe à interferência externa no país, durante conversa telefônica de mais de uma hora realizada na noite de domingo (26). O telefonema ocorreu dias após a entrada em vigor de novas tarifas dos Estados Unidos de 25% sobre cerca de 3.000 produtos brasileiros e na sequência de uma série de atritos entre Brasília e Washington. Além do posicionamento político, os dois líderes firmaram compromissos de cooperação em inteligência artificial, minerais críticos e fertilizantes, e concordaram em acelerar as negociações para um acordo comercial entre o Mercosul e a China.
Apoio chinês à soberania brasileira e o contexto das tensões
Xi Jinping não escolheu palavras neutras. Ao afirmar que a China apoia o Brasil “na defesa de sua soberania e independência” e que Pequim “se opõe à interferência externa” no país, o presidente chinês fez uma declaração com endereço claro, ainda que não nomeado. O telefonema, que partiu do lado brasileiro e durou mais de uma hora, aconteceu num momento de acúmulo de pressões sobre o governo Lula vindas do governo de Donald Trump, nos EUA, e de seus aliados regionais.
Na quarta-feira (22), entraram em vigor novas tarifas de 25% impostas pelos EUA sobre cerca de 3.000 produtos brasileiros, resultado de uma investigação conduzida pela Seção 301 do USTR, o escritório do representante comercial norte-americano. Dois dias depois, na sexta-feira (24), o Itamaraty negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA que planejavam questionar a integridade do sistema eleitoral brasileiro antes do primeiro turno de outubro. No sábado (25), o presidente argentino Javier Milei atacou Lula e o ministro do STF Alexandre de Moraes durante convenção do PL em São Paulo.
Foi nesse cenário que Xi telefonou. A agência estatal chinesa Xinhua registrou que o líder chinês avaliou que o Brasil vive um momento de “importante agenda política interna”, sem nomear a referência diretamente. Xi também afirmou que Pequim “atribui grande importância ao status internacional e à influência do Brasil” e que os avanços na articulação das estratégias de desenvolvimento dos dois países “injetaram estabilidade valiosa numa conjuntura internacional turbulenta”. A fala ecoa o posicionamento já adotado pela chancelaria chinesa após o anúncio das tarifas norte-americanas, quando o porta-voz Lin Jian declarou que “guerras tarifárias não têm vencedores e não servem aos interesses de ninguém.”
Acordo Mercosul-China e cooperação estratégica
A agenda bilateral do telefonema foi densa. Segundo nota do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, Lula e Xi reiteraram o compromisso de ampliar a parceria em inteligência artificial, satélites, beneficiamento de minerais críticos e comércio de fertilizantes. Lula ressaltou que seu governo mantém o compromisso com a diversificação de mercados e parceiros comerciais, e manifestou interesse em atrair mais investimentos chineses para o Brasil. O presidente também destacou a visão de Xi de uma cooperação internacional em IA “aberta e inclusiva” e parabenizou a China pela realização da Conferência Mundial de Inteligência Artificial de 2026.
O ponto de maior peso comercial foi o acordo Mercosul-China. Os dois líderes concordaram sobre a necessidade de acelerar as negociações para um acordo “que contemple as necessárias flexibilidades”, segundo o Planalto.
Governança global e conflitos
A conversa foi além da agenda bilateral. Xi e Lula lamentaram a proliferação de conflitos armados e seus efeitos sobre a segurança alimentar e energética global. Sobre o Oriente Médio, os dois presidentes expressaram “profunda preocupação” com a continuidade da situação humanitária em Gaza e concordaram que as restrições à livre navegação nos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb “têm efeitos nefastos sobre a economia mundial”. Quanto à Ucrânia, os líderes avaliaram que o Grupo de Amigos da Paz pode desempenhar um papel relevante na retomada das negociações para o fim do conflito.
Lula e Xi criticaram a incapacidade do Conselho de Segurança das Nações Unidas de responder adequadamente às crises em curso e observaram que o próximo ou a próxima secretária-geral da ONU enfrentará um cenário internacional “particularmente desafiador”.
A convergência entre Brasil e China sobre a reforma das instituições multilaterais não é nova, mas ganha peso político renovado num momento em que Washington impõe tarifas unilaterais, questiona processos eleitorais de aliados e alimenta tensões em múltiplas frentes.
