Educadora mudou a vida de crianças vítimas de violência – 17/05/2026 – Cotidiano

Educadora mudou a vida de crianças vítimas de violência – 17/05/2026 – Cotidiano


“Crianças não brotam na rua”, dizia Marcia Ventura Dias. “Estão ali porque foram abandonadas pela sociedade, pelo poder público e pela nossa indiferença.”

A mobilização da educadora em torno da infância e da adolescência foi lembrada pelos que se despediram dela no funeral em 6 de maio, em São Paulo. Marcia havia morrido no dia anterior, aos 79 anos. A fundadora da organização social Santa Fé enfrentava um linfoma, que estava em remissão, e não resistiu às complicações do tratamento.

Nascida em 1947, teve infância modesta no bairro do Ipiranga, sob os cuidados de Ilza, mãe solo que se empenhava em dar boa educação para ela e suas quatro irmãs.

Marcia começou a estudar filosofia na USP quando já estava ligada à militância contra a ditadura. No final de 1968, a repressão ganhou força com o AI-5 e a levou a abandonar o curso. Viajou para o Chile, onde vivenciou a campanha de Salvador Allende pela presidência do país.

Em 1971, de volta a São Paulo, abriu a escola Pingo d’Água em parceria com a psicopedagoga Neiara Teixeira Portolese. Voltada ao atendimento de crianças com deficiência, a iniciativa se aperfeiçoou graças à colaboração de educadores, como Ana Maria Garrett de Vasconcelos.

Mas o projeto da vida de Marcia estava por vir. Em 1993, foi convidada a organizar um Natal para as meninas e os meninos que viviam na praça da Sé. A ação resultou no programa Escola Ambulante, a origem da Santa Fé.

As lições de autores como o psicanalista inglês Donald Winnicott influenciaram a metodologia adotada pela organização, mas foram principalmente a sensibilidade e a experiência de Marcia e sua equipe que moldaram as feições da Santa Fé, instituição que se firmou no acolhimento de crianças vítimas de abuso.

Ao longo do tempo, o estilo aguerrido dela conquistou apoios, que viabilizaram uma sede na Vila Mariana. Em 2022, o trabalho foi apontado pela Coalizão Brasileira pelo Fim da Violência contra Crianças e Adolescentes como uma das dez práticas inovadoras nesse setor no país.

Ela gostava do reconhecimento, mas o que mais a emocionava era contar e ouvir as histórias das crianças. Lembrava, por exemplo, a garota de 12 anos recebida pela entidade depois de ter sido violentada. Hoje, é uma engenheira.

Marcia deixa três filhos, Marco e Melissa (do casamento com Walter Vettore) e Maria (da união com Edson Fregni), além de netos, nora e genros. Deixa ainda as gerações que fizeram e fazem a Santa Fé.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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