Editorial: educar pelo diálogo
Dois casos recentes de agressões brutais contra crianças indefesas indicam mais uma emergência para um país violentado: é preciso educar pelo diálogo. Os absurdos refletem uma escalada registrada em 190 mil denúncias pelo Disque 100, supondo terem sido a maioria ligações de adultos.
Sabe-se a dificuldade de acesso aos celulares por parte das vítimas, além da falta de informação para saber como expressar a dor quando se é imaturo. Como a maioria é pequena demais para pedir ajuda, a violência deve ser bem maior, elevando-se ao infinito a quantidade de surras a título de “conserto”.
Trata-se de mais um contexto no qual se ignora o crime, pois a Lei Menino Bernardo ou Lei da Palmada está em vigor desde 2014, mas ninguém vai preso. A proibição de castigos físicos e tratamentos cruéis contra crianças e adolescentes é solenemente descumprida, como se polícia e judiciário ficassem inertes.
A impunidade incentiva o crime. É urgente romper esse ciclo. É preciso abandonar o delírio de “bater para corrigir”. O efeito da crença na estupidez como método veio agora com uma menina agredida e um menino morto só porque não disse “bom dia”.
No Paraná, as imagens do pai desferindo um chute no rosto da filha chocaram o país. O sujeito afirma ter “perdido a cabeça”, o que não explica nem justifica. A investigação comprova relatos de castigos humilhantes, tortura e violência recorrente contra os dois filhos.
A naturalidade com que o agressor minimiza o crime revela o quanto está disseminada nos lares mais uma “banalidade do mal”. No Rio Grande do Sul, o caso de Oliver expõe uma tragédia mais profunda. O menino morreu após agressões motivadas por algo banal: não deu “bom dia”.
A família, marcada por histórico de violência, aplicava castigos físicos sob o pretexto de “disciplina rígida”, aprendida entre rezas, cultos e louvores. A defesa apresentada pelo pai – autodeclarado missionário – não é fé, e sim abuso. A fé não autoriza tortura nem legitima dor. tampouco substitui o cuidado.
