Dólar fecha em alta com guerra no Oriente Médio e temor de sanções dos EUA; Bolsa fica estável
MATHEUS DOS SANTOS
FOLHAPRESS
O dólar fechou em alta de 0,90%, a R$ 5,133, nesta terça-feira (4), pressionado por negociações entre Estados Unidos e Irã no Oriente Médio e pelo temor de novas sanções americanas contra autoridades brasileiras.
A expectativa pela decisão de política monetária do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central, marcada para esta quarta-feira (5), também permaneceu no radar dos investidores.
A Bolsa, por outro lado, recuou 0,05%, aos 177.894 pontos, após registrar alta durante grande parte do pregão.
O movimento foi oposto ao do exterior. Lá fora, Bolsas avançaram, impulsionadas por balanços do setor de inteligência artificial e pelo recuo do petróleo. Por volta das 17h, o petróleo Brent, referência global da commodity, recuava 5,3% no contrato para outubro, cotado a US$ 79,44 por barril.
Nos Estados Unidos, os índices S&P 500 e Dow Jones subiram 1,81% e 1,71%, respectivamente, e encerraram o pregão em novas máximas históricas (7.758 e 54.272 pontos). Durante a sessão, as Bolsas também atingiram recordes intradiários.
A Nasdaq acompanhou o movimento e alcançou 26.679,91 pontos ao longo das negociações, também em novo patamar recorde.
Na Europa, o índice STOXX 600 fechou aos 656,86 pontos, superando a máxima anterior registrada em julho.
A animação entre investidores repercutiu as negociações entre EUA e Irã. Na segunda-feira (3), o presidente norte-americano, Donald Trump, disse que as negociações entre Washington e Teerã “estão ocorrendo”. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, afirmou algo parecido nesta terça.
“Estamos em negociações com os iranianos e acredito que há chances de chegarmos hoje ou amanhã a um acordo para abrir o estreito e avançar rumo a uma posição mais normalizada neste conflito”, disse Bessent, em entrevista à CNBC.
As declarações contrariam a versão de Teerã, que, na segunda-feira, negou haver negociações em andamento com Washington.
“O movimento foi impulsionado principalmente pelo fluxo de notícias que indicou uma redução das tensões no Oriente Médio. Com isso, a gente acaba vendo uma volta do apetite por risco, o que sustentou esse rali das Bolsas globais”, afirma Bruno Yamashita, coordenador de alocação e inteligência da Avenue.
No Brasil, o movimento foi contrário. Leonel Oliveira Matos, analista de inteligência de mercados da StoneX, destaca que a queda do petróleo pressionou o real.
“Como o Brasil é um exportador líquido de petróleo, essa queda acaba reduzindo a receita comercial do país. Em outras palavras, significa uma entrada menor de dólares via exportações, o que pressiona a taxa de câmbio ao reduzir a oferta da moeda norte-americana no mercado doméstico.”
Investidores também repercutiram reportagem da Exame publicada nesta terça-feira (4), que revelou que o governo brasileiro espera o anúncio, nos próximos dias, de novas sanções diplomáticas dos Estados Unidos contra o Brasil.
Segundo a publicação, a medida seria uma resposta da Secretaria de Estado americana à decisão do governo brasileiro de negar vistos ao secretário-assistente Riley M. Barnes e ao subsecretário-assistente Samuel Samson no fim de julho.
O governo brasileiro avalia que os EUA poderão negar ou revogar vistos de autoridades brasileiras.
Também há o temor de que o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes volte a ser alvo de sanções com base na Lei Magnitsky.
“Se isso se confirmar, pode ser um fator negativo para o Brasil e acabar estimulando uma saída de capital estrangeiro do país”, afirma Daniel Teles, sócio da Valor Investimentos.
Na agenda doméstica, o destaque também ficou para a reunião do Copom, que definirá a taxa básica de juros brasileira, a Selic. O encontro do colegiado começou nesta terça e termina na quarta-feira.
Atualmente a Selic está em 14,25% ao ano. Analistas consultados pela Bloomberg projetam uma redução para 14% nesta quarta-feira.
Mais cedo, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) informou que a produção industrial caiu 1,8% em junho ante maio, mais que a retração de 0,8% projetada por economistas ouvidos pela Reuters.
O resultado é o mais recente sugerindo desaceleração da atividade econômica no Brasil.
“É um resultado negativo, que reflete a política monetária contracionista do Copom. Esse dado mais fraco acaba corroborando a expectativa de um corte de 0,25 ponto percentual”, diz Teles.
O dado reforça uma tendência observada em outros indicadores da atividade e da inflação. No final de julho, o IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15) de julho mostrou uma desaceleração na alta de preços do Brasil. A inflação medida pelo IPCA-15 desacelerou a 0,06%, ante mediana de 0,22% dos economistas consultados pela Bloomberg.
Caso o corte na Selic se confirme, cairá a atratividade da estratégia “carry trade” -em que investidores captam recursos em economias com taxas baixas, como a americana ou a japonesa, para aplicá-los em mercados com juros mais alto, caso do Brasil, se beneficiando dessa diferença.
“Juros menores reduzem a atratividade relativa dos ativos brasileiros para o investidor estrangeiro, o que também contribui para o enfraquecimento do real”, diz Leonel Oliveira Mattos, da StoneX.
