Doçaria e guloseimas nas Terras do Demo – Observador

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Olá, sejam todos muito bem-vindos. Esta é a História das Histórias. Eu, João Paulo Secadoras, estou aqui apenas para apresentar o Alberto Correia, historiador, já nosso amigo, que tem estas crónicas e estas memórias, que vai nos sempre lembrando as coisas importantes e que convém guardar na nossa zona, que é a região Centro, todo aquele distrito de Viseu. Hoje vamos falar de doçaria e guloseimas nas Terras do Demo, para fazer um retrato, portanto, ao jeito de Aquilino, como é uma grande especialidade do Alberto, que é um grande fã de Aquilino Ribeiro. Vamos a isso. Alberto, bem-vindo.
Não era igual para todos a vida nas Terras do Demo. E é curiosa a distinção que Aquilino faz nesse longo poemeto que é o “Livro da Marianinha”, para explicar tal diferença, indo buscar o exemplo da mesa e da doçaria. “Marianinha, um dia há de raiar, e cedo, em que a mesa não seja extrema: uns atufados a comer creme, e outros a ver e a chuchar no dedo.” Desse arco de tempo, que é o da vida do escritor, 1885-1963, quase se podia afirmar que a via dolorosa dessa gente que habitava as Terras do Demo pouco se alterara. O caixeiro-viajante substituíra os malhadinhas, a camioneta deixara para trás machos e burricos, as estradas de macadame romperam sobre os velhos caminhos, o frigorífico mal começa a substituir a salgadeira. Alterações que não evitaram essa desatada sangria de gente que, a salto primeiro, depois com passaporte assinado, debanda por caminhos de imigração para a Europa. Viviam ainda os avós dessa gente que antes, por idênticas razões, tinham rumado ao Brasil ou à Argentina. Em sentido figurado, quase se podia dizer que a vida nas Terras do Demo não fora doce para ninguém, ou o terá sido apenas para um reduzido número de privilegiados cujo pão quotidiano lhes vinha à mesa sem que tivessem de enxugar a fronte de suor. Doçaria e guloseimas não conformam o pão quotidiano nas Terras do Demo. Constituem-se antes como o pão da exceção, que pode vir ou não à mesa dos homens em concretos dias do anual calendário. A doçaria, que convocará sempre a básica presença do açúcar ou do mel. A guloseima, de significado mais amplo, pode significar a presença do manjar doce, mas também um alimento da exceção que escapa à dieta do quotidiano, como é o caso dos fálgueros, esse bolo não doce de farinha, ovos e queijo fresco, que até nasceu em domínio conventual. Distinguimos dois campos na doçaria: a doçaria de tradição conventual e a doçaria de tradição popular, ainda que alguma vez se cruzem na raiz. A doçaria conventual teve a sua origem e desenvolvimento nos cenóbios femininos, monásticos ou conventuais, ainda que não possa desligar-se dos núcleos privilegiados da nobreza, de cujas filhas vinha aos mosteiros ou conventos uma grande parte da população residente, carreando seus hábitos e seu saber fazer, que não se rompia nesse outro quadro de vida que lhes coubera, nem sempre por voluntária escolha. As diversas casas religiosas que se alicerçaram nas Terras do Demo constituíram-se, assim, como privilegiado espaço onde vingou um receituário, decerto transmitido pelas casas-mãe que lhe ficavam a montante, como será o caso do Mosteiro de Nossa Senhora da Assunção da Tabosa, obediente à Regra de Cister, o Convento de Nossa Senhora da Purificação de Moimenta da Beira, prematuramente encerrado em 1812, o pequeno Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição da Ribeira, em Sernancelhe, ao qual se associa como casa religiosa, ainda que não professa, o Recolhimento de Santa Teresa de Jesus, em Freixinho, no Conselho de Sernancelhe. Das práticas gastronómicas que hoje permanecem, tão-só se conhecem como ali tendo raiz os fálgueros, apenas uma guloseima de um mosteiro pobre em rendas, o Mosteiro da Tabosa, e as cavacas ditas de Freixinho, referidas, a meu ver, como o doce seco servido à comunidade no convencionado jantar, na entrada festiva de uma recolhida à data de 1837, a cuja ementa se associavam umas nomeadas tortas da Ribeira, provavelmente por terem ali, no pequeno e vizinho Mosteiro da Ribeira, a sua origem. O antológico texto de Aquilino que segue remete para estas autorizadas raízes do universo conventual. As freiras tinham dedo inspirado para todo o género de receitas em que primasse o açúcar ou o mel. Estava tirada à prova com as cavacas, as nomeadas cavacas de Freixinho, que batiam nos bródios dos gerais e nos galdeamos eclesiásticos, os manjares do céu e os papos de anjo, tidos como o suprassumo da pastelaria. Da antologia aquiliniana, respigam-se pequenos e exemplares textos colhidos em circunstâncias que enunciam ambientes de distinção, de natureza burguesa ou fidalga, onde esta herança permaneceu.
Foi mais uma crônica de fazer crescer água na boca e amanhã há mais. Alberto, muito obrigado por esta sua lembrança tão doce da doçaria e, sobretudo, guiados pelos textos de Aquilino. E amanhã vamos falar da doçaria, mas da tradição popular. Para isso contamos consigo. Amanhã. Bem-haja, Alberto. Até amanhã.
Até amanhã.
