Deixa comigo

As grandes potências são como aquele vizinho que nunca participou da reunião do condomínio, nunca ajudou a trocar uma lâmpada da garagem, mas de repente aparece para explicar como você deve organizar a sua casa.
Os Estados Unidos resolveram classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.
Ninguém vai protestar em defesa dos homenageados. PCC e Comando Vermelho são o equivalente criminal daquela infiltração que começou pequena no banheiro e acabou derrubando a parede da sala. Faz tempo que deixaram de ser um problema localizado. São uma desgraça nacional com departamento de expansão.
Só que o problema não é o médico descobrir a doença. É ele aparecer já com a maca, a ambulância e o testamento.
Quando os americanos chamam alguém de terrorista, não estão apenas emitindo uma opinião. Não é como dizer que um filme é ruim ou que o café está frio. É mais parecido com aquele cunhado que chega ao churrasco, examina a churrasqueira em silêncio por alguns segundos e diz:
— Sai daí.
Ninguém sabe com exatidão quando o churrasco deixou de ser seu.
A palavra terrorista vem acompanhada de uma mala cheia de providências. Sanções, restrições, pressões diplomáticas e outras ferramentas cujo funcionamento exato ninguém entende muito bem, mas que sempre parecem terminar com alguém em Washington explicando o que é melhor para outra pessoa.
Tudo isso recebe o nome de cooperação internacional.
Cooperação é uma palavra simpática. Lembra mutirão, gente carregando sofá junta, vizinhos empurrando carro enguiçado.
Mas existe uma diferença entre ajudar alguém a empurrar o Fusca e assumir o volante sem pedir licença.
O Brasil, admitamos, tem experiência suficiente com PCC e Comando Vermelho para saber que eles são um grande problema. Não é um assunto que precise de tradução simultânea. Os criminosos falam português fluentemente.
Ainda assim, existe uma certa fascinação nacional por soluções importadas. Basta que venham com sotaque estrangeiro e aparência de John Wayne.
Se amanhã um especialista de Nebraska desembarcasse em Brasília afirmando que o segredo para combater o crime organizado é substituir todas as viaturas por patinetes elétricos, haveria imediatamente um seminário, uma comissão parlamentar e pelo menos três comentaristas da Jovem Pan defendendo a ideia.
A questão não é proteger criminosos. É preservar uma noção antiga, e meio fora de moda, segundo a qual cada país deveria ter o direito de administrar os seus próprios problemas, por piores que eles sejam.
Porque a história mostra uma diferença interessante. Estados democráticos costumam combater seus próprios malfeitores. Impérios têm o hábito de combater os malfeitores dos outros.
E, como qualquer condômino sabe, nada é mais difícil de interromper do que a ajuda de um vizinho que ninguém pediu.
