Débora Monteiro e a depressão pós-parto. “Era tudo cinzento” – Observador

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Teve duas bebés em tempo de pandemia e começou a trabalhar um mês depois do parto. O cansaço e o sentimento de incompreensão foram crescendo, até perceber que havia um problema, não conseguia resolver sozinha e tinha de procurar ajuda. Numa entrevista gravada no Palácio do Visconde, em Lisboa, a atriz e apresentadora de televisão Débora Monteiro fala sobre depressão pós-parto no Labirinto: Conversas sobre Saúde Mental. Quem é que reparou primeiro nos sinais de que alguma coisa não estava bem consigo? Foi a Débora ou foi alguém à sua volta?
Foi alguém à minha volta.
E disseram-lhe?
Sim. Foi o Miguel, o meu namorado. Ele é que reparou que eu não estava bem. Claro que eu na altura não gostei do que ele disse. Pensei: ” ainda estás a ser sensível. Acabei de ter duas crianças, estou a trabalhar.” E sentia que não estava a ser valorizada pelo que eu estava a fazer.
Mas ele reparou em quê? Que estava cansada?
No meu cansaço profundo, na minha irritabilidade. E depois parece que tudo o que está à minha volta está mal, eu é que estou bem e que as pessoas não percebem. Acho que foi toda essa minha irritabilidade e eu querer que as pessoas percebessem o que estava a acontecer, quando não significa que o que eu estava a ver fosse o certo.
Mas sentia, reconhecia que estava pelo menos cansada? Esse estado de exaustão de uma mãe de bebés, percebia que o tinha ou nem isso? Ou achava que estava a conseguir lidar com tudo?
Eu achava que estava a conseguir lidar. Por isso é que eu não estava a perceber porque é que não estavam a valorizar o facto de eu estar a conseguir lidar com tudo.
Sim. Isso aconteceu muito tempo depois de elas nascerem?
Isso aconteceu entre meio ano, um ano de elas terem nascido. Também porque comecei logo a trabalhar passado um mês de elas terem nascido, bastante. Tempos difíceis, que foi a quarentena. Era uma logística muito grande, o chegar a casa, ter que me limpar antes de estar com as minhas filhas, o medo de levar alguma doença para elas, não dormir, privação de sono e eu querer ser muito boa no que estava a fazer. E depois o corpo começou a sentir.
Quando tomou a decisão de voltar ao trabalho, porque achou que era preciso e porque achou que o devia fazer, não houve ninguém que lhe disse: “Tens a certeza?”
A minha mãe disse: “Não vais fazer isso.” Nem foi o tens a certeza, foi: “Ok, fizeram-te o convite, mas tens que dizer que não, porque são tempos difíceis e tu acabaste de ser mãe, tens que estar com as tuas filhas.” E eu estava ali numa dúvida, aceito, não aceito, porque sou artista e porque os artistas param de trabalhar e ficam sem ganhar dinheiro. Eu sabia que já estava parada desde os meus cinco meses de gravidez. E toda a gente estava parada a nível de trabalho. Portanto, eu pensei: “Se calhar vou aproveitar e vou eu trabalhar e tenho algum income a entrar aqui em casa.”
Quando o seu namorado lhe diz: “Eu acho que alguma coisa não está bem contigo.” Primeiro fica chateada, claro, mas ficou uma sementinha de dúvida, ficou a pensar nisso?
Eu não fiquei a pensar nisso. Eu não estava era a perceber como é que não viam o esforço que eu estava a fazer e como não me estavam a valorizar. Eu só pensava isso. Eu fui para a rua, fui para o terreno e ninguém me está a valorizar. Porque a mim custou muito deixar as meninas e eu não percebia como é que não valorizavam o facto de eu ter deixado as meninas, deixado entre aspas, ou seja, não viver o pós-parto com elas. E eu não percebia o porquê de ninguém ver o esforço que eu estava a fazer. E viam, só que eu achava que ninguém estava a ver.
Então e quando é que percebe: “Ok, se calhar ele tem aqui razão.”
Eu percebo isso quando estou constantemente a chorar compulsivamente, quando venho do trabalho, paro o carro à porta de casa e fico a chorar para não ir para casa com esse peso para as meninas.
Isso acontecia muito?
Muito. Quando à volta do meu trabalho eu achava que as pessoas não estavam ao meu ritmo, não estavam a acompanhar-me, aquilo tudo me deixava frustrada. Eu dizia as coisas de uma forma má, quando não gostava, não havia filtros. Não era para magoar, mas eu não fazia filtros, não pensava: “Se calhar vou ter cuidado a falar com esta pessoa quando não estou gostava de alguma coisa.”
Porque estava impaciente?
Estava impaciente, sim. Parecia que estava com as minhas hormonas à flor da pele e que não havia limite. E que se eu estou a perder tempo para fazer isto, se estou a perder tempo de qualidade com as minhas filhas, temos de estar todos ao mesmo ritmo.
E sentia mais esses sinais ou via mais esses sinais quando estava a trabalhar ou mais quando estava com elas?
Eu sentia esses sinais mais quando estava a trabalhar, mas quando estava com elas, eu estava num ponto de exaustão que a minha sensação era de estar sempre a dormir com elas, que eram bebezinhas, portanto, eu chegava ao sofá, se elas estavam ali, eu ficava com elas nas alcofas e ficava a dormir com elas. Durante a noite, eu queria mesmo levantar-me, queria fazer tudo, mas sentia que estava Em modo robô. Há coisas que não me lembro, que ficaram bloqueadas.
Que não conseguiu guardar de memória.
Que não consegui guardar, porque o cansaço era tal que era mesmo o piloto automático e nem sabia como é que estava a fazer as coisas.
Quando olha para trás agora, acha que o fato de elas terem sido bebés muito desejadas, que obrigaram a um processo difícil, que é o processo de fertilidade, que tudo isso contribuiu para sentir ainda mais pressão de fazer tudo bem, de estar em todo lado e de conseguir todas as coisas?
Eu acho que o fato de terem sido muito desejadas, eu a seguir senti foi a culpa de desejar tanto. Isto depois durante o processo de terapia. Desejei tanto, o que eu senti foi uma culpa de quis e agora eu não estou com elas. E depois o questionar se estou a ser boa mãe ou não, por causa disso. Mas eu pensava: “Estou a trabalhar porque preciso de levar a comida para casa.” E estive ali numa luta constante a tentar perceber se estava a fazer o certo para as minhas filhas.
Começa a perceber que há um problema, de fato, quando tem essas crises de choro, quando não consegue. E isso evolui logo para essa culpa por não estar com elas? Já sentia nessa altura essa culpa?
Já sentia essa culpa. Mas quando eu comecei a chorar, o ir-me mesmo abaixo, não havia cor, era tudo cinzento. Parece que não há prazer em fazer nada. Vou trabalhar e estou em piloto automático, sou um boneco. E as pessoas: “A tua gargalhada é tão genuína” e não sei o quê, e eu já nem me queria rir. Tudo isso eu senti que isto não é normal. Eu estou-me a forçar para ser algo que as pessoas estão à espera que eu seja, e não o que eu devo ser. E foi aí que eu comecei mesmo a sentir que estava a descambar.
O seu namorado já tinha percebido, a sua mãe tinha avisado antes. Também percebeu a dada altura?
A minha mãe percebeu, mas não falou diretamente comigo, falou com uma das minhas irmãs e essa minha irmã ligou-me. “Não, tudo bem, não sei o quê.” “Sim, está tudo bem, está tudo orientado, estou a conseguir organizar tudo.” “Mas não estás muito cansada? Vê lá.” E percebi que ela estava a tentar aos pouquinhos abordar o assunto. E depois quando ela disse: “Olha, a mãe está preocupada contigo, acha que tu deves estar aí com uma depressão pós-parto. Ela não quis falar contigo com medo da tua reação. Portanto, eu quero saber como é que te sentes. Estou preocupada, queremos saber.” Não levei a mal, mas foi o não perceber o que as pessoas estão a ver em mim para sentirem que eu não estou bem quando eu estou a fazer um esforço tão grande.
O que dizia a si própria? Era só isso? Não começou a ver uma vozinha em si que dizia: “Se calhar, será?”
Sim, aí depois comecei: “Se calhar, têm razão.” Nem sabia se era bem depressão ou se era um cansaço profundo e se calhar eu tenho mesmo que abrandar e saber dizer não. Havia essa dúvida. Será que é mesmo uma depressão pós-parto? Será que eu só estou exausta? E às vezes é parvo, é isto. Se calhar eu não preciso fazer terapia, se calhar só mesmo preciso de dormir e ter tempo para mim. E então havia essa dúvida se precisava mesmo de ajuda ou não.
E dizia isso a si própria, mas outras pessoas à sua volta não lhe diziam isso? Porque às vezes há um bocadinho esta, quando uma mãe se queixa, há muitas pessoas que dizem: “Isso é normal, estás só cansada, isso passa, é uma fase.”
Eu não tive muita oportunidade de falar com muita gente porque elas são de quarentena, bebés de quarentena. Portanto, quando ia trabalhar, éramos pouquinhos. Estávamos todos um bocadinho isolados. Tive uma pessoa que nunca foi mãe e que estava a trabalhar comigo, mas que já passou por uma fase menos boa de depressão e começou a reparar em alguns sinais. E tentava-me abordar aos poucos. “Achas que era melhor arranjares terapia? Nem que seja só para desabafar. É tudo tão recente, começaste logo a trabalhar. Estamos a passar por esta fase, és mãe.” Pronto, para desabafar. E eu percebi que estava de alguma forma a tentar dizer-me alguma coisa.
E resistiu também com ela, com essa pessoa?
Não resisti. Eu com essa pessoa desabafava muito, falava muito. Não que eu dissesse que preciso de terapia, mas sentia que podia desabafar. Ou por saber também que esteve numa fase menos boa e que se calhar ia-me compreender melhor.
E quando é que faz o clique? Quando é que há aquele momento de: “Ok, eu vou precisar aqui de ajuda.”
Eu acho que o meu corpo, o meu organismo todo já estava a sentir, mas houve uma altura que eu fiz anos num sábado e trabalhava ao domingo. E eu fiquei num buraco. O Miguel queria fazer alguma coisa com as meninas e eu nem queria estar com elas. Agora vou respirar um bocadinho antes que eu chore.
Como é que é isso para uma mãe? Ter ali as coisas mais preciosas da sua vida, racionalmente as coisas que mais lhe dão energia também, e haver quase um sentimento animal de rejeição. “Eu não posso estar com estas crianças, eu não quero estar com estas crianças.”
Porque eu não queria que elas sentissem o que eu estava a sentir. Eu achava que elas entrar comigo iam sentir a minha energia pesada. E eu não queria, e fazia sempre esse processo quando chegava a casa. Se eu queria chorar, chorava no carro. Bora, agora tipo: “Bebé, chuvinhas, não sei o quê.”
Só a afundava mais.
Só afundava mais. E nesse aniversário que eu fugi, não quis estar com o Miguel, ele tentou arranjar amigas, eu disse que não queria estar com ninguém. Foi mesmo um dia negro e depois no dia a seguir tive que ir trabalhar.
E pôr um sorriso.
E pôr um sorriso e fazer a festa.
E a gargalhada.
E a gargalhada. Mas antes essa minha amiga perguntou como é que eu estava, como é que tinha corrido o meu dia, e aí eu disse: “Olha, não estou bem, preciso de ajuda.” E ela disse: “Está tudo bem.” Eu a chorar. “Está tudo bem, há solução, vamos arranjar uma solução, mas está tudo bem.”
Por que acha que resistiu tanto? Porque tinha metido na cabeça que ia conseguir fazer aquilo ou porque tinha algum estigma associado à ideia de eventualmente ter uma depressão ou ter um esgotamento?
Eu não tinha o estigma de ter alguma depressão. O que eu sentia era que eu achava mesmo que estava muito cansada e que só tinha que descansar. Achava mesmo que era algo também hormonal. Fiz tratamentos, já tinha as hormonas de muitos tratamentos, depois bebês, mais hormonas. Eu sentia que era algo que o meu corpo tem que fazer uma limpeza. Era isso que eu sentia. E que eu não dei tempo para ele fazer essa limpeza, porque fui logo trabalhar, fui logo fazer um monte de coisas, que mesmo que eu não tivesse feito, todos nós passamos por esse processo, mesmo estando em casa, também teria que o fazer, mas sinto que me sobrecarreguei. Era o que eu sentia, que me tinha sobrecarregado e que só precisava de: “Ok, quando acabar de fazer este projeto da novela, quando acabar de fazer o programa, ou houver uma pausa.” Porque fortunately o programa era para a quarentena, depois prolongou-se durante seis anos.
E a quarentena, graças a Deus, não.
Não. Então eu achava que quando isto abrandar, tudo bem, isto passa. E não passa.
Então diz à sua amiga: “Eu preciso de ajuda.” O que acontece a seguir?
A seguir vou procurar terapia.
Como é que foi esse processo? Pediu opiniões?
Eu pedi opiniões, sim. Não é fácil arranjar terapeuta certo. Acho que fui saltando.
Testou com muitas pessoas diferentes?
Com algumas. Sinto que é tão pessoal, que tem mesmo que haver ali uma sinergia, não sei bem explicar.
Uma química.
Sim.
E quando foi ao primeiro, não deu certo.
Estive durante um tempo, mas não deu certo. Depois tentei outra forma, que era a hipnose. Algumas coisas até fluíram e fizeram todo sentido, mas depois senti que não era por ali. E até conseguir encontrar uma psicóloga.
E fez sempre terapia, não fez medicação.
Não fiz medicação, só alguma para dormir.
E custou-lhe tomar medicação para dormir?
Não me custou, porque eu não dormia, portanto, eu precisava mesmo de dormir. Mas eu tenho alguma coisa em mim que até mesmo com bombas, eu consigo estar sempre a despertar. Não sei também porque eu tinha as meninas e sabia que havia horários. Sentia que estava completamente drogada às vezes a fazer medicação para conseguir descansar.
Mas pelo menos ajudou a equilibrar os sonos?
Ajudou-me a equilibrar os sonos e a conseguir descansar no pouco tempo que eu tinha para dormir.
Sei que com o primeiro terapeuta não resultou, mas gostava de ir a essa primeira consulta, porque pede ajuda a uma amiga, acaba por encontrar esta pessoa. Como é que foi aquela primeira consulta? Sabia o que dizer? Ou foi difícil chegar, sentar e começar a falar? É uma das grandes dificuldades das pessoas quando têm de fazer terapia, pensam: “Eu não tenho nada para dizer, eu vou dizer o quê?” Passou por isso?
Eu não passei por isso. Eu acho que tenho essa facilidade de me abrir com as pessoas, até demais às vezes. Mas o que eu senti foi que estou a falar o que eu sinto. E sempre com a defesa de: “Fui mãe agora, tenho dois bebês, é normal estar cansada.” Mas abordei todo o tema de estar cansada, de estar a trabalhar, isto e aquilo. Falei de tudo, disse que estava mais irritada, que estava impaciente, mas consegui abrir o leque. Não estive propriamente ali fechada, porque eu sinto que sempre tive essa facilidade. E é o que eu estava a dizer há pouco, eu não sinto estigma por causa disso da depressão. Se for para me tratar, eu tenho é mesmo que falar. Eu nunca tive esse receio de ser julgada.
E o que ouviu? Que tinha uma depressão, que estava só cansada, o que lhe disse o terapeuta nesse dia? Se é que lhe disse alguma coisa sobre isso.
Nesse dia, como foi a primeira consulta, foi quase como um avaliar. Quer dizer que poderia ser, eventualmente, uma depressão pós-parto. E o excesso de cansaço também pode não ter ajudado. Mas eu aceitei, porque quando eu fui para ali já sabia para o que ia. Não estava à espera que ele dissesse: “Vai-te embora.”
Está ótima.
Está ótima. Eu sabia que não estava, portanto, eu já sabia para o que ia. Não foi pesado. Foi pesado porque estamos tão vulneráveis. E chorei, começas a chorar, evitas tudo. Mas depois saí de lá a pensar: “Será que é por aqui?”
Teve essa dúvida: isto vai fazer alguma diferença?
Sim. Vai ser sempre assim? Vou estar sempre a chorar?
Quando encontrou o terapeuta certo e a diferença que isso faz quando há uma química, sente que começou o processo do início ou já retomou onde estava, já tinha feito algum avanço no seu processo?
Sinto que nós começamos do início, mas que eu já estava ali um bocadinho A preparar-me ou com algumas coisas já mais lisinhas para quando comecei a fazer a terapia.
Quanto tempo é que tinha passado, entretanto?
De um terapeuta para o outro?
Sim, entre aquele momento em que desaba e diz: “Eu preciso de ajuda, eu não estou bem depois do seu aniversário,” até encontrar esta pessoa, quanto tempo é que passou?
Isto foi cerca de dois, três meses.
O que é que faz alguém sentir que encontrou a pessoa certa? Porque é muito difícil encontrar o terapeuta certo. O que pode ser para si, não é para mim.
Sim.
Qual é o momento em que percebe: “Ok, é isto. É com esta pessoa que eu tenho de estar a fazer terapia.”
Eu acho que é com a forma como essa pessoa comunica, como eu a oiço. Tem que ser alguém que consiga ir ao meu encontro ou ao encontro das outras pessoas, que consiga perceber como me pode guiar, de certa forma. E eu senti quase como uma leveza, não sei bem explicar. Não é meu amigo, mas posso falar. Foi mais nesse sentido. Não senti ali um julgar, não sei explicar. Qualquer energia que fica instalada.
Entra-se mal e sai-se bem?
Ai, depende.
Há dias em que sai mal?
Há dias que eu penso: “Se calhar ficava ali mais duas horinhas. E agora vou dar uma volta, fazer uma viagem de carro para ver se me esqueço.” Ou chego ao carro e ainda choro mais. Eu sei porque é que eu não deixei tudo lá. E há outras alturas que saio mais leve e que pensas: “Se calhar já estou a ficar bem.”
Teve momentos desses, de pensar: “Eu já estou a ficar bem”?
Sim.
E depois voltou atrás?
Isto são as oscilações que se têm numa depressão, pelo menos comigo. Há dias que eu acordo e estou ótima, estou leve, divertida, feliz. E não, é o momento, porque a seguir voltas outra vez para o buraco.
Como é que foi em casa? Porque tinha havido aquele embate de: “Como é que tu não vês o que eu estou a fazer?” E de repente, há um: “Ok, eu preciso de ajuda e eu vou pedir ajuda e eu vou procurar isto.” Houve apoio, houve compreensão? E se eu intuo que houve, que diferença é que isso fez no processo?
Ele ficou todo feliz quando eu comecei a procurar terapia. Estava cheio de orgulho de eu ter feito. Ainda bem que eu fiz por mim. Não era só por tudo o resto à volta, era por mim, essencialmente. Mas depois claro que as coisas melhoram bastante. A forma de comunicarmos, a minha forma de estar presente, tudo isso melhorou muito, como é óbvio.
Mas houve alguma mudança na rotina? Porque a Débora é um bocadinho empurrada para este estado por todas as circunstâncias. Algumas foram-se alterando, nomeadamente as quarentenas e esta nuvem negra da pandemia sobre as nossas cabeças, mas a Débora continua a trabalhar e continua a ter duas filhas pequenas. Que mudanças é que foi vendo na sua vida ou fazendo em si para, ao lidar com a mesma circunstância ou com uma circunstância semelhante, conseguir estar melhor?
As mudanças que eu fui fazendo, isto depois foram vários-
Passinhos.
Vários passinhos, mas uma coisa que me ajudou bastante foi começar a fazer pilates de máquinas. Porque nos outros exercícios, a minha cabeça não para. Estou sempre a pensar: “Tenho que fazer isto e não sei o quê, a seguir passo para outra máquina, vou fazer não sei o quê.” E o pilates de máquinas eu tinha que estar tão focada para não me desequilibrar, por manter a minha estabilidade, que eu só estava focada naquilo. Não estava a pensar: “A seguir vou sair daqui, tenho que ir comprar as coisas para as meninas.” Não. Sentia que desligava e era algo que eu achava que não conseguia fazer, que era desligar.
Era, no fundo, uma atividade mindfulness, como a meditação ou pintar mandalas, ou o que fosse. Funcionava para si para esvaziar a cabeça.
Eu não consigo fazer a meditação. Eu tento fazer a meditação e já estou assim. É muito ruído.
E foi um acaso?
Foi ao acaso. Foi: “Olha, vou experimentar porque eu gosto de treinar, deixa ver se eu gosto disto. Estou um bocadinho presa para me soltar.” E de repente senti que: “Ok, tenho que fazer isto pelo menos duas vezes por semana, porque isto está-me a ajudar. É um momento para mim, estou a cuidar de mim.” Porque depois também do pós-parto, passamos por aquela fase: “Olha o espelho, eu não gosto de nada, tenho isto e aquilo outro.” E eu também começar a gostar outra vez de mim.
Isso também pesou naquilo que estava a viver. Quando uma mulher sai de um parto e está no pós-parto, há muito tempo em que ela não se sente ela. No meio de todo esse processo, isso também tinha um peso para si?
Eu acho que só me descobri outra vez enquanto mulher, quase aos três anos delas. Eu andei completamente perdida. Não me queria arranjar, arranjar-me para os programas. Se pudesse andar sofá de treino todos os dias, para mim era o ideal. Não me queria pentear, não queria. Estava cansada, não me apetecia. E depois eu vivo da imagem. O que é que acontece? Eu comecei a receber, quando fui trabalhar, acharam o máximo eu mostrar-me como estava, porque engordei, fui aos 100 quilos. Quando elas nasceram, perdi uns 20, mas estava mais cheinha. “Uau, mulher real.” Mas passou em três meses, quatro Comecei a ser muito criticada por não cuidar de mim e porque estava gorda e se eu ia aceitar ficar gorda assim, que já não era a mulher bonita ou a mulher sensual que as pessoas conheciam.
E era criticada em redes sociais.
Redes sociais.
No trabalho, que também vive de imagem, também havia algum desconforto?
Não houve um desconforto, houve coisas muito graves no trabalho. E de mulheres, que é o que me deixa muito triste.
Mas que comentários desagradáveis?
Sim, já estou cheia. “Mulher, eu olho pra ti e estás fraca.” Isto aqui são coisas que quando estamos num pós-parto, mexe bastante. Ou dizer: “Tens mesmo que emagrecer, põe-te direita, não cruzes a perna, olha-me essa coxa.” E uma pessoa sabe que está ali toda a gente a observar-nos e de repente já estou assim e sou atriz, uma atriz bloqueada, porque não me consigo mexer. Estou a apresentar um programa, com alguém a dizer-me ao ouvido que eu não estou bem, às vezes. Isso não é bom.
E custava-lhe admitir que isso a magoava? Também fazia um bocadinho aquela coisa de: “Eu sou mais forte do que isto e eu consigo fazer isto. Eu estou bem como estou e hei de chegar à minha forma e está tudo bem.”
Não era uma questão de admitir que me magoava. Eu sabia que estava numa fase sem filtros, sensível, e que eu tinha medo era de magoar as pessoas com as palavras que eu poderia dizer. Eu sentia que estava assim, nesse ponto. Mas o que eu pensava sempre é: estou num processo, eu não sou obrigada a emagrecer como outras pessoas. Os corpos são todos diferentes e hei de chegar, ou não, ao meu corpo ideal. Mas, na verdade, às vezes questiono-me. Eu nem tive o direito de olhar para o espelho, de dizer: “Se calhar, até gosto de me ver assim mais cheinha, por que eu tenho que ser mais magrinha? Quem é que disse que isso é que é a perfeição?”
Nem lhe deram essa oportunidade.
Nem me deram essa oportunidade. Eu posso gostar de me ver de maneira diferente. Eu não gosto de me ver muito magra, mas era algo que tinha que ser eu a escolher, não me tinha que ser imposto por ninguém. E o que eu sentia era que estava a ser imposto.
Que tinha de ser uma prioridade para si quando as suas prioridades eram outras.
Eram outras. Eu não estava bem na minha cabecinha, estava preocupada com o resto. E quando eu disse uma vez que o primeiro era o que eu tinha que tratar era o lado interior e depois vinha o resto. Porque quando nós estamos bem, claro que depois quando eu começo a treinar, tudo isto acaba por ajudar. Eu começo a gostar do que estou a ver no espelho, começo também a fazer a terapia, tudo isto depois começa a ajudar, é uma junção de coisas, mas sou eu que tenho que decidir, não são as pessoas que têm que me julgar e criticar para me fazer avançar.
Quando se começaram a juntar essas peças todas, a terapia começou a ajudar, o exercício físico também, o pilates ainda por mais tinha esta dupla função de ajudar a esvaziar a cabeça. Quanto tempo depois é que começou a sentir que as peças estavam, de facto, a alinhar e que estava a começar a pôr a cabeça fora d’água, que já não estava tão debaixo e tão soterrado daquilo que tinha sentido durante tanto tempo?
Eu acho que começo a sentir um alívio, sei lá, passado quase dois anos. Antes eu ia sentindo, mas voltava, andava aqui assim a tentar aprender a lidar com as emoções, mas acho que passado dois anos ou assim, começo a sentir-me mais aliviada, começo-me a sentir eu, a voltar a ter a minha graça, sem ser imposta. E parece que depois as pessoas já nem me incomodam, porque antes incomodavam. Isto é horrível dizer, mas às vezes é tipo: “Estas pessoas estão aqui, não sei o quê.” Depois é: “Passa bem.” Começa a ficar mais leve, é um estado descansado, não sei se faz sentido.
Deixou de ser cinzento, tudo.
Começa a ver, começa a aparecer cor. Sim.
E houve aqueles momentos em que pensou: “Se calhar, eu já estou melhor.” Depois voltou atrás. Já teve algum momento em que sentiu: “Ok, eu se calhar já saí desta. Eu já estou bem. Eu já não preciso de ajuda.”
Eu acho que ainda preciso de ajuda. Não, também já falar a sério. Eu acho que isto é um processo longo. Eu não estou a falar propriamente agora da depressão pós-parto, mas é depois tudo o resto, todas as emoções. Eu acho que até nos sentirmos completas. Até eu me sentir completa, eu acho que isto foi mesmo um processo. Claro que agora estou noutra fase e se calhar agora vem, sei lá, o estresse da vida, não sei o quê, mas sinto que preciso sempre daquele apoiozinho.
Nunca tinha feito terapia antes disto?
Não. E quando era mais miúda, fui daquelas que dizia: “Isso é pra quem não está bem.”
Tinha essa ideia.
Sim.
É o médico dos malucos.
É.
E mesmo assim, quando decidiu que tinha de fazer, foi e fez. Não pensou como quando era mais miúda.
Não, pensei o que as pessoas pensam quase todas. “Isto é garote.” Porque é, a verdade é que toda a gente devia ter direito de ser acompanhada quando necessita e não é algo que seja assim tão acessível a todos.
Na altura fazia uma vez por semana?
Uma vez por semana.
E continua a fazer ao mesmo ritmo?
Não costumo fazer ao mesmo ritmo. Depende. Depende, às vezes, do trabalho, de fases em que eu estou.
Mas diria que Aquele momento de depressão e a terapia que fez por causa dessa depressão, abriu a porta a uma nova relação entre si e a sua saúde mental?
Sim.
E o seu conforto mental, daí que a terapia possa ser uma espécie de pilates, mas mental.
Sem dúvida. É mesmo para olhar para as pessoas que estão ao meu lado agora, observo de outra maneira, tipo: “Anda cá, não estás bem.” Porque vejo que andamos todos tão sensíveis e cada um com os seus problemas e é mais fácil julgar e apontar o dedo ou não compreender. Ou mesmo eu, que eu tinha aquela irritabilidade, mas eu consigo ser aquela pessoa bastante exigente para trabalhar, mas já vou de outra forma e falo com as pessoas de outra forma. O tentar me acalmar ou tentar respirar fundo. Também estou a falar assim, parece que sou uma pessoa muito má. Não sou muito má, mas sou tão bruta a falar, que às vezes as pessoas ficam magoadas e eu respeito isso e têm o direito de ficar magoadas, como é óbvio, eu que não tenho o direito de as magoar. Mas eu tentar procurar as palavras certas, isto agora é um trabalho que eu também faço, porque sei que as outras pessoas também podem ter algum problema na vida delas, podem não estar no dia bom e vão interpretar da maneira delas o que eu vou dizer, mesmo que eu não esteja a dizer de uma forma que eu acho que seja negativa para a outra pessoa, pode ser. Então, tenho esta sensibilidade que fui aprendendo também com a terapia.
O que aprendeu sobre si, neste processo, que não sabia? Que tinha uma vulnerabilidade e uma fragilidade que nunca tinha percebido que tinha?
Não, eu sempre soube que tinha. Sempre quis mostrar que sou mais forte do que o que sou. Eu sempre soube. Sou de choro fácil, sou de gargalhada fácil. Por isso é que eu digo que às vezes ando aqui assim um bocadinho perdida, porque eu sinto que eu gosto tanto de viver as coisas, gosto tanto de me sentir viva, que às vezes sinto que estou muito ao pé das outras pessoas. Eu vou a um evento e às vezes sinto que não posso ser eu, porque falo alto, porque gargalhada alta, estar a mostrar a imagem. E às vezes estou-me sempre a tentar controlar isto. Às vezes não é fixe, porque toda a gente está-se a tentar controlar e podíamos ser todos mais felizes se nos deixássemos ser como somos realmente.
E mudou coisas em si para evitar cair no mesmo buraco por onde passou?
É, digo não.
Aprendeu a dizer não?
Sim. Antes era um ninho. Dizia tipo: “Não, pronto, está bem.” Não conseguia. O medo de magoar. Sempre tive isso, o medo de magoar a outra pessoa. Agora não, estou eu em primeiro lugar e digo não. E quando é não, nem tenho que justificar. Não é não. Antes justificava, também. Agora é não. “Mas…” Não, eu disse não.
E vive atenta aos sinais que no início não viu, para garantir que identifica quando não estiver bem e se voltar a não estar bem, ou é daquelas coisas com as quais não vive obcecada? As coisas são o que são, se eles vierem, aqui estaremos.
Eu não vivo obcecada, mas estou muito atenta. Sempre. Porque sinto: “Ok, vem aí uma nuvenzinha.” E tenho a sorte de poder verbalizar com o meu namorado e ele percebe. Diz: “Então, se calhar, se queres mais consultas, o que achas que é melhor fazer?” E depois também falo com a psicóloga e depois tipo: “Está bem, não está bem.” Tipo assim: “Débora, bora lá.” Agora já há uma ligação em que posso estar à vontade para me ir reajustando.
E acha que esse processo mudou a sua relação com as suas filhas?
Sim, claro, sem dúvida.
Porque ficou mais disponível?
Fiquei mais disponível.
Emocionalmente, digo.
Sim, emocionalmente, sim. Eu acho que era uma capazinha que eu tinha, para mostrar que estava: “Estou aqui, consigo lidar.” Mas eu não estava. Eu senti que não estava presente. Mas sinto que sim. Eu acho que a terapia é incrível para tudo e para as minhas filhas, então é maravilhoso, porque estou mais disponível para elas. Digo não para estar com elas. Quando estou com elas, estou com elas. E reparo muitas vezes, nós falámos sobre isso ainda ontem, nós gostamos de ter tempo de qualidade os quatro. Os quatro. Sem ter nada ao nosso redor para nos fazer ruído ou para nos estragar o nosso momento. Seja o que for, uma sopinha, seja o que for. Somos os quatro, então não queremos nada que nos vá impedir. Um e-mail do trabalho, tenho que responder agora. Não tenho que responder agora. Antes não havia e-mails, a gente vivia. E agora somos obrigados a um WhatsApp. Não.
Regrou-se a esse nível?
Sim.
E é rígida com essas regras?
Sou.
Por proteção?
Por proteção e porque sinto que me faz mal eu ter que estar a trabalhar 24 horas. Que é o que acontece, as pessoas trabalham 24 horas, têm que responder na hora. Não têm que responder na hora. Eu tenho que ter o meu horário. Trabalhar, como quem diz, mesmo para amigos ou familiares, há tempo para tudo. Se eu não te responder agora, responder daqui a duas horas ou três, está tudo bem. Agora, é o nosso tempo, o meu tempo, porque senão vivemos sempre em função do que os outros querem. A mim faz-me mal. Eu aprendi que isto faz mesmo mal, ter que estar sempre mais disponível para os outros do que para mim.
Há pouco falávamos sobre as várias circunstâncias que a empurraram para aquele buraco. O trabalho, duas bebés de uma só vez. Período de pandemia, todas essas dificuldades, mas nós também vivemos numa era da exaltação da maternidade perfeita e de como as mulheres devem ser primeiro mães e depois tudo o resto. Sentiu essa pressão? Porque a Débora tem esta imagem, que corresponde à sua realidade, de pessoa forte e que tem pouca paciência para aturar esse tipo de coisas. Mas uma coisa é aquilo que nós somos e outra é aquilo que nós sentimos cá dentro e os receios que temos quando temos os bebês ao nosso cuidado. Acha que isso também contribuiu, essa ideia de que as mulheres têm de ser mães perfeitas e têm de ser supermulheres, independentemente das condicionantes, isso pôs mais pressão? Ou conseguiu, acha que com sucesso, pelo menos fugir a essa tentação da perfeição?
Eu senti essa pressão. Até porque através das redes sociais eu recebia montes de mensagens: “Não faças isso, olha as tuas filhas. Estás a deixar as tuas filhas em casa.”
Quando voltou a trabalhar?
Recebi.
Anônimos, pessoas desconhecidas.
Sim, que me enviavam.
E respondia?
Não respondia, mas às vezes dava-me vontade de responder. Era o responder e apagar. Tenho que me controlar.
Porque acha que não vinham de um lugar de preocupação, vinham só de um lugar de crítica?
Sim, vinha só de um lugar de crítica ou eventualmente preocupação. Eu acredito que algumas pessoas estavam preocupadas, até porque muita gente que me segue é de uma geração um bocadinho mais velha e eu acredito que até algumas estavam mesmo preocupadas. Mas eu sentia que podiam me apontar o dedo ou que houvesse essa necessidade de a mãe ter que ficar com as crianças, o pai é que sai para trabalhar. Pensava nisso muitas vezes, mas eu achava que estava a fazer o correto, porque era uma altura que tinha de ser.
Porque o comboio não passa duas vezes.
Não passa duas vezes, também.
E arrepende-se?
Eu não me arrependo de o ter feito. Arrependo-me de ter perdido tempo com elas, de qualidade com elas. Porque eu sinto que o Miguel viveu mais a paternidade, a fase inicial, do que eu.
E já se perdoou por isso?
Vou me perdoando, não sei bem explicar, porque eu sinto que o fato de eu agora estar mesmo presente e tentar ter mesmo esse tempo com elas, que estou a tentar compensar, de certa forma, o tempo que eu não estive. E ao mesmo tempo, não é propriamente só o perdoar. Tinha de ser feito na altura. Eu não ia ficar a passar fome, mas tinha de ser feito. O Miguel era da área da restauração. Ele teve os restaurantes todos parados, ele tinha pessoas dependentes dele, portanto, o dinheiro tinha que vir de algum lugar, que não foi o meu, ou seja, ele teve que se gerir com as coisas que ele tinha e eu tinha que cair para nós. Portanto, foi muita coisa que estava a acontecer. Não havia: “Se calhar, não vou.” Não, tinha de ser naquela altura. E nós ainda nem sabíamos o que ainda vinha de mais tempo de quarentena.
Então não é um fardo que carrega.
Não é um fardo que eu carrego, não. Mas consigo ver, às vezes olho e: “Acho que elas gostam mais dele.” Estiveram mais no colinho dele quando eram bebês. Às vezes penso nisso, mas é uma ligação que eles têm e eu também respeito isso e adoro. Mas sim, tenho a sorte de ter ali um paizão e elas adoram e nem quero competir. É tipo: “Ok, ótimo.”
Obrigada.
Obrigada eu.
