Copa de um novo mundo e de velhos dilemas – 18/07/2026 – Alexandra Moraes – Ombudsman
A Copa de 2026 aterrissou num mundo bem diferente daqueles das edições anteriores, e a cobertura jornalística também parece ter tocado solo desconhecido. A polêmica sobre a pausa (publicitária) para hidratação, quem diria, acabou parecendo ingênua diante do que veio depois.
Com equipe reforçada em relação ao dia a dia da cobertura esportiva, a Folha conseguiu dar conta da enormidade do evento e registrou pontos extras, caso da entrevista com Carlo Ancelotti.
Um leitor aproveitou para pedir que o esforço extra se mantenha a fim de reverter a atrofia da cobertura esportiva dos últimos anos. “O excelente caderno da Copa poderia incentivar a Folha a retornar com a seção de esportes cobrindo os campeonatos nacional e estaduais. Provou que é possível”, diz Luiz Henrique Novaes, de Santos (SP). A Secretaria de Redação diz que “o jornal mantém em aberto a perspectiva de ampliar a cobertura esportiva”.
O terreno novo da Copa, porém, apareceu cheio de instabilidades. A intervenção aberta de Donald Trump na arbitragem foi um dos pontos mais visíveis dessa mudança. No mundo anterior, talvez o desmando se desse por baixo dos panos. No mundo da performance, até a desfaçatez depende de “engajamento”.
Outro desafio foi a mudança profunda no equilíbrio de forças na transmissão do evento, que levou ao YouTube um contingente recorde de espectadores, através do canal da LiveMode, a CazéTV. A Folha documentou a “erosão do monopólio das grandes emissoras” e a disputa com a Globo, embora ainda tenha dedicado bastante espaço às peripécias de Galvão Bueno no SBT.
O abalo mais violento coube mesmo ao mundo das apostas, que já vinha varrendo os campeonatos nacionais. E esses novos formatos de transmissão turbinaram a discussão, que andava anestesiada no nível doméstico.
A convocação e a panturrilha de Neymar o mantiveram nos holofotes da “Copa dos protagonistas”, sem chance para um protagonismo maior de Vinicius Júnior. Este, por sua vez, esteve no centro de um episódio que tinha tudo para ser mais barulhento, mas acabou perdido na espuma da eliminação e entregue à ala conspiratória da internet.
Nas redes, passaram a rodar teorias em torno da abstinência de Vini Jr. diante do pênalti no jogo contra a Noruega. Aqui, interessa menos a especulação e mais o dano que as bets provocam já de saída. A desconfiança se segue ao conflito de interesses, instalado pelo fato de o jogador em campo ser garoto-propaganda de uma plataforma e de seu desempenho também ser objeto de aposta.
Cerca de 20 minutos antes do início do jogo, a CazéTV anunciava que a BetNacional, patrocinadora de Vini Jr., havia aumentado o prêmio para quem colocasse dinheiro na ideia de que o jogador marcaria gol no tempo regulamentar. A “odd” ia de 2,3 para 3,3 vezes o valor apostado.
O canal narrava: “É a Copa do Mundo aqui na tela da Cazé TV e a BetNacional também tá na área. Se liga nas odds para esse jogo. (…) Lembrando, hein? É proibido para menores de 18 anos [nesse momento, aparecem três crianças na transmissão]. Jogue com responsabilidade. E lembre-se, né, o resultado esperado pode ou não acontecer”. Como se sabe, Vini Jr. não marcou nada, o que alimentou a desconfiança.
A Folha não ligou tanto para as especulações nesse caso, mas mostrou que “as bets que anunciaram na CazéTV obtiveram um aumento de mais de 115% no número de downloads de seus aplicativos durante o torneio”, segundo dados da empresa SimilarWeb. Segundo O Globo, “as transações financeiras em bets cresceram até 180% na hora anterior aos jogos da seleção brasileira na Copa do Mundo, na comparação com o período em que a bola estava rolando”, com dados da fintech Pay4Fun.
Autoridades e personalidades foram para cima da CazéTV, e, quatro dias após a eliminação da seleção brasileira, o governo federal anunciou que iria “restringir publicidade de bets e obrigar exibição de alerta de perda de dinheiro”. Mas o fato é que já havia uma engrenagem maior e normalizada na cobertura esportiva. A Folha também mostrou que o próprio governo Lula redigiu a “emenda que abriu caminho para propaganda de bet” no futebol.
Alguns leitores escreveram a respeito das propagandas de casas de apostas nos textos da Folha sobre a discussão das bets. “Não é ilegal (talvez não seja nem imoral), mas não seria antiético?”, questiona um deles.
O jornal não restringe anunciantes, desde que não pertençam a segmento de mercado vedado em lei ou pelas normas do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), conforme já declarado em discussão de um ano atrás sobre venda de anúncio para site de prostituição.
No meio da Copa, aliás, o mesmo grupo voltou à sobrecapa da Folha, desta vez anunciando patrocínio ao Corinthians com nome da ala de conteúdo pornográfico “uberizado” do site. A Redação e o departamento comercial precisam manter distância recíproca. Do ponto de vista editorial, porém, o jornal deu pouca atenção à discussão que se seguiu, sobre a escolha feita pelo clube e a exposição infantil a ela.
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