Connected Ball, a tecnologia que salvou Portugal e irritou os croatas
112 minutos de jogo, Portugal ganhava por 2-1 e tinha assegurada uma dramática passagem aos oitavos de final do Mundial 2026. Porém, um desequilíbrio deitou tudo a perder – a Seleção voltou a exibir um velho tendão de Aquiles, a defesa de cruzamentos. Gvardiol desviou para dentro, mas foi assinalado um fora-de-jogo anterior a Igor Matanovic.
Os croatas asseguraram que o avançado do Friburgo não tinha tocado na bola e, por isso, o golo devia contar. Mas a tecnologia entrou em ação. O gráfico apresentado ao juiz Espen Eskas, alertado pelo VAR, mostrou que o croata tinha efetivamente tocado (de forma ligeira) na bola.
Petar Sucic, médio croata, foi a voz mais ríspida da frustração croata após o jogo: «O árbitro disse que não viu, mas a bola tem um sensor. É difícil, mas espero que alguém nos explique [a decisão]. Não vi o Matanovic tocar na bola. A sorte calhou ao outro lado esta noite», afirmou.
A justificação chegou por via do X da FIFA, horas depois. «De acordo com os dados fornecidos pela tecnologia Connected Ball, integrada na Trionda, a bola oficial do torneio do Mundial, ficou comprovado que houve contacto por parte do jogador n.º 20 da Croácia, Igor Matanović, na jogada que antecedeu o golo contra Portugal, o que permitiu ao árbitro determinar corretamente o fora de jogo e anular o golo», começam por dizer.
«Os sensores IMU integrados na bola Trionda são capazes de detetar qualquer contacto, mesmo que ligeiro, que é apresentado aos espectadores na transmissão sob a forma de um ‘eletrocardiograma’, proporcionando aos árbitros um nível de dados sem precedentes para tomarem decisões rápidas e precisas», esclarece a FIFA.
Mas o que é o sistema Connected Ball?
Trata-se de um microchip instalado dentro das bolas do Mundial que regista dados em tempo real e com elevada precisão sobre várias métricas, incluindo o movimento da bola, a velocidade, a trajetória e os toques dos jogadores. O sensor de movimento IMU de 500 Hz fornece dados 500 vezes por segundo (!).
Estreou-se em competições da FIFA no Mundial 2022, onde foi determinante para conceder ‘aquele’ golo a Bruno Fernandes contra o Uruguai, em que Cristiano Ronaldo reclamou ter tocado na bola de cabeça. Foi utilizado no Euro 2024, mas atingiu o seu expoente máximo neste quente Portugal-Croácia, o jogo mais visto do Mundial até agora.
Curiosamente, o futebol não é o primeiro desporto em que esta tecnologia é utilizada. No críquete, o ‘Snickometer’ surge em destaque em quase todos os jogos para verificar se um batedor desviou a bola para trás dos postes e foi introduzido na transmissão de jogos de críquete já no longínquo ano de 1999.
O sistema Connected Ball já tinha sido utilizado neste Mundial na goleada da Suécia por 5-1, mas com menos protagonismo mediático. O quarto golo, marcado por Mattias Svanberg, foi inicialmente anulado por fora de jogo. Após uma revisão do VAR o golo foi validado, tendo sido considerado que Alexander Isak tocou na bola no seu percurso até Svanberg que, assim, estava em posição legal.
Do we now have ‘snicko’ in football?
Sweden beat Tunisia 5-1, but their fourth goal, scored by Mattias Svanberg, was initially ruled out for offside
Following a VAR review, the goal was given with Alexander Isak adjudged to have touched the ball on its way through to Svanberg.… pic.twitter.com/dElVkjr5BV
— The Athletic | Football (@TheAthleticFC)
June 15, 2026
E o desvio acidental de Renato Veiga, não podia ter invalidado o golo?
Bom, não havendo dúvidas sobre o toque de Matanovic, muitos espetadores daquele encontro ter-se-ão questionado com um momento posterior – o toque de Renato Veiga na bola com a nuca que isolou, na prática, Pasalic. Uma abordagem, diga-se de passagem, pouco recomendável. Segundo o antigo árbitro internacional espanhol Eduardo Iturralde González, em serviço para o Carrusel Deportivo, esse toque não foi determinante.
«É um ressalto, não é um alívio com intenção. Para que esse toque do jogador português tivesse habilitado o jogador croata, tinha de ser um mau alívio. O que é um mau alívio? Se eu vir a bola, tentar controlar e a bola saia para trás. Isso é um mau alívio. Se eu me agacho e a bola bate nas costas e sobra para um adversário, isso não o habilita», explica.
