Com mais de 1 milhão de mortos, genocídio Armênio completa 111 anos em meio a tentativa de apagamento por parte da Turquia
O dia 24 de abril é marcado como o Dia da Memória do Genocídio Armênio, quando completam-se 111 anos do início de um processo de eliminação sistemática da população armênia pelo Império Otomano. Estima-se que 1,5 milhão de armênios tenham sido mortos no período. A Turquia, até hoje, nega a expressão “genocídio” para o episódio.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Mariana Boujikian, doutoranda em Relações Internacionais no Programa San Tiago Dantas e autora do livro “Memórias de um genocídio”, explica que o movimento ultranacionalista defendia a criação de “Uma Turquia para os turcos” e, em 1915, perseguiu e matou lideranças armênias em Constantinopla. “O povo armênio vivia dentro das fronteiras onde hoje são Síria, Palestina, Iraque. Eles viviam como minoria étnica e religiosa, mas viviam bem adaptados à vida social e viviam em relativa prosperidade. A partir da entrada de jovens turcos ultranacionalistas no poder, os armênios começam a ser perseguidos”, explica.
Em 24 de abril, as principais lideranças armênias foram presas e mortas. “A partir daí, esse grupo ultranacionalista passou a promover deportações em massa, expulsar os armênios que viviam no Império Otomano de suas cidades e vilas, e obrigá-los a marchar no deserto da Síria. Eles marchavam sem água, sem comida, sem nenhuma compatibilidade com a vida e muitos armênios morrem nessas marchas. E também tiveram massacres especialmente de homens em idade militar para minar qualquer resistência do povo armênio”, explica Boujikian, que tem relação afetiva como o tema, já que sua bisavó foi sobrevivente do genocídio.
A Turquia nega que houve genocídio e que o deslocamento teria sido um plano de evacuação porque o país estava em guerra [Primeira Guerra Mundial]. Afirmam que os armênios teriam morrido em decorrência da guerra e negam o extermínio.
A pesquisadora afirma que, historicamente, a direita se apropria do episódio pela narrativa de se tratar de um povo cristão perseguido e morto no Oriente Médio, mas que essa narrativa é eivada de discriminação e, em certa medida, até mesmo de desconhecimento. “Tem esse imaginário do muçulmano bárbaro que a direita se apropria por preconceito e usa isso pelo fato de ser um povo cristão que foi perseguido. Mas o cristianismo não era o principal fator. O principal fator era étnico, nacionalista. O slogan desse grupo que estava no poder era ‘A Turquia para os turcos’, muito parecido com o que a gente ouve da extrema direita em vários lugares do mundo hoje em dia”, compara.
Por outro lado, Boujikian defende que existe uma certa ignorância histórica por parte da esquerda. “Sinto que [a esquerda] desconhece, até porque é muito pouco falado e a Turquia tenta apagar o ocorrido”, avalia.
Mariana Boujikian consegue observar um paralelo entre o ocorrido no início do século 20 e situações mais recentes, como o que vem acontecendo em Gaza contra o povo palestino. “O genocídio armênio foi noticiado e ignorado pela comunidade internacional. Muitos armênios morriam de inanição porque marchavam dias no deserto sem comida e sem água, em condições adversas. O que acontece em Gaza? Não entra comida. Não entra provisões mínimas para essa população que vem sofrendo um bloqueio criminoso por parte de Israel”, define.
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