Com foco na economia, “outsiders” de esquerda avançam no Partido Democrata
A dois meses das eleições de meio de mandato, a ala à esquerda do Partido Democrata acumula vitórias nas primárias. Com foco no custo de vida e nas promessas de bem estar social, progressistas buscam canalizar a insatisfação dos americanos com a inflação elevada.
Mas o verdadeiro teste virá em novembro. Ainda resta dúvida se esses candidatos vão conseguir se viabilizar nas eleições, que vão definir o controle do Congresso.
Nos últimos dias, o movimento conquistou mais uma vitória com o senador Ed Markey, de 80 anos, nas primárias de Massachusetts. Markey está no Congresso há quase 50 anos, e derrotou o deputado Seth Moulton, de 47 anos.
No Michigan, Abdul El-Sayed levou a melhor sobre o establishment do Partido Democrata, e espera se tornar o primeiro muçulmano no Senado dos Estados Unidos.
El-Sayed fez campanha com o slogan “Dinheiro no seu bolso, Medicare para todos” – em referência ao programa de seguros de saúde do governo americano – e defende a taxação de grandes fortunas, mas nega que seja socialista.
Na Flórida, a deputada Angie Nixon será candidata ao Senado. Ela integra o movimento Socialistas Democráticos da América (DSA), uma organização política independente.
Também há casos de “outsiders” progressistas vitoriosos nas primárias.
Bob Brooks, um bombeiro aposentado e líder sindical, é candidato à Câmara por um distrito da Pensilvânia considerado decisivo. Brian Poindexter, um operário metalúrgico, busca ser eleito deputado por Ohio; Sam Forstag, um paraquedista de combate a incêndios, levou a melhor na disputa pela indicação em Montana.
Para o especialista em História dos EUA e professor Lucas de Souza Martins, da Universidade Temple, o atual cenário econômico favorece a ascensão de novos líderes democratas alinhados a pautas de inclusão e bem-estar social.
A guerra contra o Irã elevou os preços dos combustíveis e pressiona a inflação nos Estados Unidos, contribuindo para a piora na imagem de Donald Trump às vésperas da eleição. A aprovação do presidente se mantém em 33% — o pior índice da sua carreira política — segundo pesquisa Reuters/Ipsos.
É nesse cenário que as promessas ligadas ao bem-estar social ganham um novo fôlego nos Estados Unidos. O socialista Zohran Mamdani, um dos precursores dessa renovação do Partido Democrata, chegou à Prefeitura de Nova York no ano passado, com promessas de congelar aluguéis e taxar os mais ricos.
“Figuras como Mamdani respondem a uma pressão popular muito presente entre os mais jovens pelo bem estar social que até então não aparecia tanto no contexto americano”, afirma Martins, destacando que o “sonho americano” deixou de ser uma garantia para as novas gerações.
“Quando o Mamdani fala sobre congelamento de aluguéis, ele fala sobre uma necessidade que tem esse jovem que está saindo da faculdade, indo para o mercado de trabalho, que tem dificuldade para encontrar um emprego na sua área, para manter uma moradia mesmo que alugada. Existe uma pressão social em questões econômicas que estimula a eleição desses democratas”, conclui.
Economia em foco
Com a economia em foco, os democratas parecem tentar se distanciar de pautas identitárias, apelidadas de “woke” ou “woke 1”, que marcaram o partido há alguns anos.
Representante desse movimento, a deputada de Nova York Alexandria Ocasio-Cortez disse em entrevista recente que “O Woke 1 era louco”, antes de começar a rir. E AOC, como é conhecida, não foi a única. James Talarico, candidato ao Senado pelo Texas, chegou a dizer que “Deus é não-binário” quando era mais jovem. Agora, se distancia de algumas dessas declarações, que classifica como “constrangedoras”.
“Com as questões econômicas tomando o primeiro plano, com as pessoas tendo dificuldades materiais, esses temas de identidade que estiveram na moda vão ficando para trás”, afirma o professor de Ciência Política do Berea College Carlos Gustavo Poggio. “Houve uma mudança de ênfase dessa esquerda em particular, e isso parece se traduzir num desempenho melhor”, acrescenta.
Até o momento, no entanto, esse melhor desempenho foi verificado nas primárias do Partido Democrata. A dúvida é se esses candidatos mais progressistas vão conseguir convencer o eleitorado em novembro, especialmente nas disputas mais competitivas.
“No Michigan, por exemplo, se em vez de El-Sayed, tivesse sido selecionada a candidata apoiada pela elite do partido e considerada mais moderada, a chance de os democratas levarem (essa vaga no Senado) era muito grande. Agora, é 50-50. Então, as pesquisas mostram uma dificuldade maior para esses candidatos em eleições gerais em lugares competitivos”, destaca Poggio.
“Essas eleições de meio de mandato, elas vão deixar claras muitas coisas, inclusive, e talvez a mais importante delas, qual que é a viabilidade desse tipo de candidato em eleições gerais”, acrescenta.
