Christiane Jatahy leva Ibsen ao tribunal de Avignon em debate sobre verdade ao lado de Wagner Moura
A premiada diretora brasileira Christiane Jatahy estreou no Festival de Avignon de 2026 a peça Um Julgamento – depois de O Inimigo do Povo, criada com Wagner Moura e Lucas Paraizo. Inspirada no clássico de Henrik Ibsen, a peça transforma o palco em tribunal popular e entrega ao público o papel de júri, debatendo democracia, verdade e responsabilidade coletiva num Brasil ficcional que ecoa urgências globais.
Márcia Bechara, enviada especial da RFI a Avignon
A peça Um Julgamento – depois de O Inimigo do Povo, que após a temporada brasileira e em alguns teatros europeus estreou na cena principal do Festival de Avignon, no sul da França, marca a primeira colaboração entre Christiane Jatahy, Wagner Moura e Lucas Paraizo. Coproduzido pelo Festival Avignon, pelo Holland Festival e o Edinburgh International Festival, o espetáculo discute democracia, verdade, fake news, ecologia e responsabilidade coletiva, em três línguas, a partir de uma comunidade brasileira ficcional.
A proposta nasceu de uma pergunta simples: o que teria acontecido depois do fim da peça de Ibsen? Segundo Jatahy, a resposta não estava em adaptar o texto original, mas em avançar sobre ele. “Wagner [Moura] sempre foi muito apaixonado por esse texto. A gente pensou muitas possibilidades, e, para mim, não fazia sentido montar o texto como ele é, apesar de que é bastante visionário. Me interessava perguntar sobre o que seria essa questão hoje.”
Cancelamento X verdade
A diretora propôs imaginar um futuro possível para o protagonista. “E se Thomas Stockmann tivesse a possibilidade de, diante de um público neutro, não da sua própria comunidade, portanto num público de teatro, defender as suas ideias e, eventualmente, reverter o seu cancelamento que sofreu?” A partir dessa hipótese, nasceu uma dramaturgia nova, que dialoga com Ibsen sem se limitar ao texto original. “De fato, é um novo texto. A gente tem poucas coisas que são realmente do texto original, mas muitas referências. É realmente uma possível continuação.”
O espetáculo, apresentado no Gymnase du Lycée Aubanel, em Avignon, transforma o palco em tribunal popular. O público é chamado a julgar Stockmann – agora interpretado por Wagner Moura – e decidir se ele continua sendo “inimigo do povo”. A estrutura responde ao interesse de Jatahy pelo presente. “Meu trabalho é sempre sobre como é que a gente lida com a questão do momento presente, do lugar que a gente está. A questão das línguas é um desafio e ao mesmo tempo muito interessante, porque abre outras perspectivas.” Em Amsterdã, Moura improvisou em inglês; em Avignon, sua filha Petra (interpretada por Julia Bernat) traduz para o francês.
A peça articula temas centrais da obra de Ibsen – verdade, maioria, democracia – com urgências contemporâneas. Jatahy explica:
“A discussão política não é externa às relações íntimas. Ela está muito conectada às nossas proximidades, às nossas famílias.”
Ela lembra um Brasil não muito longe de 2026: “Quando houve a eleição do Bolsonaro, quantas famílias romperam… impossível continuar dialogando.” Para ela, a democracia exige a reativação desse diálogo. “A democracia existe onde o diálogo é permitido.”
Reconstruir a escuta
A diretora identifica o risco atual da polarização. “O extremismo e a impossibilidade de dialogar impedem que a gente avance em questões democráticas.” A diretora relaciona o contexto à crise da verdade. “Quando a gente, no início da peça, diz que a verdade acabou, que tudo se transformaria em versões, é exatamente sobre isso. As pessoas acreditam nas suas narrativas e isso vira um fato. Sem nenhuma possibilidade de dissenso. Isso vai minando a democracia.”
Jatahy lembra, no entanto, que consensos democráticos já produziram tragédias. “A gente sabe quanto, em outros momentos históricos, quando Hitler ascendeu ao poder, foi através de um consenso democrático.” A peça sublinha a urgência de reconstruir a escuta. “Como é que a gente volta a escutar o outro, com todas as diferenças que algumas vezes são insuportáveis, mas que podem reconstruir uma ideia coletiva? É preciso proteger as minorias. A maioria das pessoas estão nas categorias que se intitulam minorias.”
O teatro, para ela, ainda é capaz de produzir essa escuta. “Se eu não acreditasse, eu nem faria mais teatro”, aponta. A ficção, diz, abre espaço para esta sensibilidade. “O teatro acessa lugares em que às vezes a gente não está tão aberto.” A peça radicaliza essa ideia ao entregar ao público o papel de júri.
Jatahy vê nisso uma retomada da Ágora grega (praça pública central das cidades da Grécia Antiga, onde se realizavam debates políticos). “A ideia é trazer para o espaço da Pólis (cidade-Estado constitutiva da Antiguidade grega) uma discussão que se coletiviza e não imprime uma resposta, mas coloca questões.” Para ela, teatro e democracia nascem do mesmo gesto. “É o lugar em que todos nós estamos juntos discutindo uma questão em comum.”
A peça mantém sua identidade brasileira, mesmo em Avignon. “A gente localizou no Brasil. O personagem tem nome norueguês, mas é brasileiro. Inventamos o Vale do Rio Vermelho.” E cita Guimarães Rosa:
“Quanto mais a gente fala de nós mesmos, mais a gente está falando para o mundo.”
Um Julgamento – depois de O Inimigo do Povo tem apresentações no Gymnase du Lycée Aubanel, em Avignon, nos dias 11, 12, 14, 15, 16, 17, 19, 20, 21 e 22 de julho, sempre às 18h, com sessões adicionais às 22h nos dias 15 e 20. A criação de Christiane Jatahy, Wagner Moura e Lucas Paraizo tem duração de 2h15, é apresentada em português, inglês e francês. A venda de ingressos ocorre pelo site oficial do Festival de Avignon, com atualização diária de disponibilidade.
