Centro de Cultura e Educação Popular desenvolve projetos em diferentes territórios do DF

Centro de Cultura e Educação Popular desenvolve projetos em diferentes territórios do DF


Aos 78 anos, dona Jacira dos Santos tem planos para os estudos. Depois de passar boa parte da vida trabalhando e cuidando das sete filhas, ela começou, neste ano, a estudar no Centro de Cultura e Educação Popular de Ceilândia (Cepafre), no Distrito Federal. Ela não aprendeu a ler quando criança porque precisava cuidar da família. Agora, já consegue andar sozinha por Brasília e diz que quer continuar estudando até chegar à faculdade.

A história dela se repete entre parte dos estudantes que chegam ao Cepafre. São pessoas que tiveram a trajetória escolar interrompida ou sequer conseguiram frequentar uma unidade de ensino. Nas salas de alfabetização, essas histórias também fazem parte das aulas. A professora Patrícia Lourdes, que atua no centro, afirma que conhecer o caminho percorrido pelos estudantes ajuda a entender por que eles chegaram à idade adulta sem saber ler e escrever.

“Eles contam toda a história de vida deles. Trazem essas histórias porque é isso que move a pessoa a estudar depois. Muitas vezes, existe uma história muito negativa, de um direito que foi negado pelos pais, pela pobreza ou pelo sistema”, explicou a professora.

Entre os relatos estão mulheres impedidas de estudar pelos próprios companheiros e pessoas que cresceram na zona rural sem acesso a uma escola. “Uns moravam na roça e não podiam caminhar até onde tinha aula. Outro tinha o pai que dizia que a menina só queria namorar e que não ia deixar estudar. Outra casou com um homem machista que também não deixava estudar. São histórias diferentes, mas todas mostram como esse direito foi sendo negado”, contou.

O perfil dos estudantes também passa pela desigualdade de gênero. Segundo Pedro Lacerda, presidente do Cepafre, a maior parte das pessoas não alfabetizadas atendidas pelo centro é formada por mulheres, principalmente acima dos 50 anos. “Para as mulheres é mais difícil, porque, além da jornada de trabalho, o cuidado da casa e dos filhos acaba recaindo sobre elas”, explicou.

Onde a escola não chega

Criado em 1989, o Cepafre atua com alfabetização de jovens, adultos e idosos, formação de educadores populares e atividades de cultura e inclusão digital. O centro mantém turmas em diferentes regiões administrativas do Distrito Federal, como Ceilândia, Sol Nascente, o Terreiro do Vô Congo Mãe Zenith d’Oxum e o acampamento Nova Jerusalém. Em vez de esperar o estudante chegar, os educadores procuram levar as aulas para perto de onde essas pessoas vivem.

Para Pedro Lacerda, a existência do Cepafre está relacionada à dificuldade de acesso à educação pública para quem ficou fora da escola. “Nós estamos aqui porque o poder público falhou na tarefa de proporcionar educação pública. Essas pessoas que ficaram de fora da escola não são alcançadas. Por isso existe o Cepafre. A gente acaba chegando onde a política pública não chega”, avaliou.

Lacerda afirma que esse trabalho não deveria ocupar o lugar das políticas públicas. “O nosso papel não é substituir o governo. O nosso papel é gerar demanda, inclusive para fortalecer a educação pública. A gente vai aos lugares mais difíceis de chegar, faz o trabalho, mas precisa haver continuidade. Nós somos geradores de demanda, não estamos aqui para substituir a educação pública”, afirmou.

A organização também mantém formação continuada para os alfabetizadores. Em 2026, uma das iniciativas em andamento é o Projeto LER – Letramento, Educação Popular e Rede Social, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e o Ministério da Educação. O projeto prevê 12 turmas entre agosto e dezembro e reúne educadores ligados às comunidades e jovens universitários com conhecimento em redes sociais e tecnologias. A proposta trabalha os letramentos linguístico, social e digital.

A alfabetização é uma das frentes, mas o Cepafre também desenvolve outras atividades. No projeto ComFreire, o centro mantém um cursinho popular ligado à Rede CePop, voltado ao acesso de jovens e adultos ao ensino superior. O PodCei, iniciado em abril e realizado na sede, reúne movimentos populares, pesquisadores, parlamentares e lideranças para discutir temas como saúde, educação, moradia, mobilidade, cultura e direitos sociais. Já o AgPopSUS trabalha a educação popular em saúde e a atuação de agentes populares no Sistema Único de Saúde (SUS).

Presença nos territórios

A atuação nos territórios também está relacionada à oferta de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Para quem trabalha, cuida dos filhos ou mora distante das escolas que oferecem a modalidade, o deslocamento pode inviabilizar a frequência. Por isso, as turmas do Cepafre são organizadas próximas às comunidades.

A professora Patrícia Lourdes também aponta que o objetivo das aulas não termina no aprendizado da leitura e da escrita. “As pessoas saem com uma visão mais crítica do mundo e mais autônomas. Mas a gente não quer só isso. Queremos que elas saiam daqui participativas nos movimentos sociais, que lutem pela própria cidade. A grande questão é que possam pensar melhor a sociedade, tomar decisões e tomar posição diante dos problemas sociais”, afirmou.

O Cine Popular completa esse conjunto de atividades com o audiovisual. O projeto aparece entre as iniciativas mantidas pelo centro, ao lado das ações de alfabetização, formação política e educação popular. O Cepafre também mantém publicações, materiais sobre EJA, produções acadêmicas e audiovisuais e um Centro de Memória Viva dedicado à preservação da história das lutas e experiências desenvolvidas em Ceilândia. Mais informações podem ser conferidas neste link.

Turma de alfabetização do Cepafre no Terreiro do Vô Congo
Turma de alfabetização do Cepafre no Terreiro do Vô Congo | Crédito: Cepafre

Sede própria

A busca por um espaço próprio acompanhou o Cepafre durante boa parte de sua história. A organização passou por locais cedidos até conseguir, em dezembro de 2025, um imóvel em Ceilândia por meio de um contrato de cessão de uso gratuito. A sede permite concentrar atividades que antes precisavam ser distribuídas por diferentes espaços.

Maria Madalena Torres, diretora de projetos e primeira presidente do Cepafre, explica que a conquista veio depois de muitas reuniões e tentativas. “Nós vamos fazer 37 anos e recebemos esse espaço com 36 anos. Não foi por falta de luta. Finalmente conseguimos”, afirmou.

O imóvel, porém, foi recebido sem a estrutura necessária para o funcionamento das atividades. “Quando nós entramos aqui, só era o vão. Quando chegamos, começamos a pedir para o povo nos ajudar. A gente foi conseguindo as coisas aos poucos, com doações e apoio de quem acreditou no nosso trabalho”, contou Madalena.

A falta de estrutura não é novidade para quem acompanhou os primeiros anos do centro. Antes de ter um espaço fixo, os materiais utilizados nas aulas eram guardados nas casas dos educadores. A rotina incluía levar os recursos de uma atividade para outra e guardar em casa aquilo que seria utilizado nas aulas seguintes.

“Os cartazes das palavras geradoras eram guardados embaixo do colchão e, embaixo da cama, ficavam as caixas com giz, apagador e os canudos de refrigerante que a gente usava para trabalhar matemática. Os mapas, tudo era embaixo da cama”, lembrou Madalena.

Relação com Paulo Freire

A história do Cepafre está ligada à educação popular inspirada em Paulo Freire. O educador pernambucano ficou conhecido mundialmente pelo trabalho de alfabetização de adultos e por uma concepção de ensino que considerava a realidade dos estudantes no processo de aprendizagem. Em 2012, foi declarado patrono da educação brasileira por meio da Lei nº 12.612.

O aniversário de Paulo Freire será celebrado em 19 de setembro, poucos dias depois do Dia Mundial da Alfabetização, comemorado nesta terça-feira (8). A data foi instituída pela Unesco em 1966 e passou a ser celebrada anualmente a partir de 1967. Em 2026, a programação marca os 60 anos do Dia Mundial da Alfabetização.

No Cepafre, a referência ao educador também aparece no próprio nome da organização e em projetos como o cursinho popular. A relação com Freire vem desde os primeiros anos, quando o grupo enfrentou resistência justamente por adotar sua proposta de educação.

Paulo Freire esteve em Ceilândia em 30 de agosto de 1996, para a instalação do 1º Fórum Regional de Alfabetização de Jovens e Adultos. Na ocasião, deixou as mãos moldadas em uma placa de cimento
Paulo Freire esteve em Ceilândia em 30 de agosto de 1996, para a instalação do 1º Fórum Regional de Alfabetização de Jovens e Adultos. Na ocasião, deixou as mãos moldadas em uma placa de cimento | Crédito: Kennedy Cruz/Brasil de Fato DF

Madalena conta que, nos primeiros anos, a referência a Paulo Freire chegou a ser motivo para que o grupo tivesse o uso de um espaço negado. A solução foi usar uma sala de uma igreja mesmo sem autorização formal.

“Os padres não quiseram ceder espaço porque era educação de Paulo Freire. Eles diziam que ele era comunista e, portanto, não iriam liberar espaço para a gente. Acontece que eu tinha acabado de sair do convento e tinha as chaves do salão da igreja. Eu só tirei uma cópia e a alfabetização aconteceu lá dentro”, contou.

Quase quatro décadas depois, o centro tem um endereço próprio, mas a discussão sobre o papel do poder público continua presente. A nova sede passou a abrigar as atividades de alfabetização e também os projetos que ampliam a atuação do Cepafre para outras áreas. Em agosto, por exemplo, o espaço recebeu a aula inaugural do Projeto LER, com a participação de alfabetizandos, alfabetizadores, educadores, estudantes e representantes do Ministério da Educação.

Madalena defende que a educação popular não pode ser usada para compensar a ausência permanente do Estado. “A educação popular não deveria substituir aquilo que é responsabilidade do poder público. O poder público precisa fazer cumprir o papel dele, que é ir onde as pessoas estão e depois organizar a continuidade das pessoas que foram alfabetizadas. Porque, se você alfabetiza e não faz mais nada, as pessoas esquecem a prática”, afirmou.

‘Eu quero chegar na faculdade’

No caso de Jacira dos Santos, aprender a ler mudou uma tarefa simples: andar pela cidade. Antes, ela precisava de ajuda para se localizar porque não conseguia ler endereços. Hoje, diz que consegue ir sozinha aos lugares.

“A educação é importante. A leitura é a coisa melhor, a coisa que eu mais acho linda: a pessoa pegar um livro e saber ler. Eu não sabia, não sabia nada e não andava em Brasília sozinha porque não sabia endereço de lugar nenhum. Hoje eu já vou a qualquer lugar que você mandar eu ir”, disse.

A mudança também fez com que ela passasse a procurar outras pessoas para estudar. “Eu acho tão interessante que eu chamo todo mundo. Já trouxe dois amigos e estou atrás de mais pessoas para a gente largar o celular, largar a televisão e aprender. Vamos trazer a cultura para o nosso Brasil. O Brasil sem nós não é nada. Tem que aprender a fazer as coisas, ler”, afirmou Jacira.

Ela não pretende parar na alfabetização. Aos 78 anos, quer continuar estudando. O desejo também encontra no próprio Cepafre um caminho possível, já que a organização mantém um cursinho popular voltado ao acesso ao ensino superior. “Quero continuar. Enquanto eu tiver vida, eu vou estudar. Eu quero chegar na faculdade”, afirmou.


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