Carta a Harry Styles – 20/07/2026 – No Corre
Querido Harry,
Assim como você, adoro conhecer cidades correndo. Soube que foste semana passada ao Ibirapuera e, parece, ao Villa-Lobos, parques bacanas para correr, muito arborizados, como qualquer parque deveria ser. Mas talvez tenhas estranhado os totens de publicidade, algo que não lembro de ter visto no Hyde, no Holland ou no Hampstead, parques veneráveis da capital de seu país.
Te explico: a administração dos parques aqui foi passada à iniciativa privada, que alega que a receita de publicidade é fundamental para custear o negócio. O que poucos sabem é que, antes mesmo de o processo de concessão começar, providenciou-se a cassação do poder de voto dos conselheiros dos parques —ou seja, da sociedade civil.
Isso foi decidido na Câmara Municipal, reversão de uma lei aprovada havia quase duas décadas. Agora, toda vez que a Urbia, administradora do Ibira, por exemplo, decide fazer um “mall” ou um restaurante numa área de contemplação, os conselheiros são os últimos, ou quase isso, a saber.
Os banheiros melhoraram muito, mas os preços de quase tudo que é vendido lá subiu legal, o que afastou notadamente o pessoal que vinha de bairros mais distantes em seu dia de folga, o domingo. A avenida Paulista, que agora fecha aos carros nesse dia, acabou por virar o novo Ibira para a rapaziada.
Acho que já terás ido embora para o México, mas, se fores à Paulista domingo que vem, tire uma foto com o porquinho.
Fiquei feliz em saber também que não fazes questão de usar carro para ir aos parques —acho isso um contrassenso, apesar da insegurança que muitos, e muitas, sentem nas ruas. A corrida, você que já fez uma maratona sabe, nos oferece enorme autonomia: podemos correr por horas e horas, basta achar uma cadência menos exigente.
(E, claro, desse jeito contribuímos para minorar nossa pegada ambiental; mas pense duas vezes se fores de bike ao Ibira: entre tantas, a minha foi furtada numa manhã de sexta —o cadeado ficou ali, caído, no paraciclo defronte ao bar Madureira, não deu para aproveitar nem como suvenir.)
Como você tem ainda dois shows em Essepê, talvez dê para fazer mais alguns cascalhos. Aproveite que as árvores estão começando a florir, mas saiba que nem todos os lindos ipês das ruas são nativos. Dá uma olhada no que o abnegado paisagista e botânico Ricardo Cardim fala disso, no Insta dele.
Para curtir de verdade nossa mata atlântica, um dos biomas do país com a maior diversidade ambiental do mundo, recomendo conheceres a Cantareira. Tem o parque homônimo, que a Urbia também pegou, mas agora quer devolver, por insuficiência financeira. Ironicamente, no primeiro ano de concessão, o preço da entrada subiu 163%. Cacifar hoje 60 paus de inteira para entrar, na boa, só se a gente recebesse em libra.
Com o que a Folha paga pra mim fica puxado, mas, se quiser a gente faz um corre até o Jaraguá, que ainda é de graça, tem uma comunidade guarani na base, uma trilha no meio da mata com direito a pequena cachoeira e macacos aculturados.
A vista da cidade interminável lá de cima é linda, apesar da poluição. Eu já fui melhor em identificar os bairros paulistanos, sempre localizava pelo menos o prédio dos Correios no Jaguaré, mas da última vez não rolou. Como diria você, não é mais como já foi.
Anyway, vale a pena. Tmj, mano.
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