Brasil e China: a ponte que falta construir

Brasil e China: a ponte que falta construir


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  • Em 13/01/2026, o Conselho Empresarial Brasil‑China divulgou que o comércio bilateral atingiu US$ 171 bi em 2025, alta de 8,2 % e mantendo a China como principal parceiro do Brasil por 16º ano consecutivo.
  • Em 12/02/2026, a CAPES assinou em Pequim o primeiro acordo institucional com a Universidade Beihang, ampliando a cooperação acadêmica em áreas estratégicas como IA e aeronáutica.
  • Em 07/05/2026, o Conselho revelou que o Brasil recebeu, em 2025, US$ 6,1 bi em investimentos chineses – 52 projetos, crescimento de 45 % – tornando‑se o maior destino global de FDI chinês.
  • Em junho de 2026, o Nature Index posicionou a China como líder mundial em publicações de ciências naturais, superando os Estados Unidos.

Em 13 de janeiro de 2026, o Conselho Empresarial Brasil-China, com base em dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, anunciou um recorde histórico: o comércio bilateral entre Brasil e China atingiu US$ 171 bilhões em 2025, crescimento de 8,2% sobre o ano anterior. As exportações brasileiras alcançaram US$ 100 bilhões, enquanto o superávit de US$ 29,1 bilhões respondeu por 43% de todo o saldo comercial brasileiro. Pela décima sexta vez consecutiva, a China confirmou sua posição de maior parceiro comercial do Brasil.

Os números impressionam, mas escondem uma realidade menos visível. A parceria sino-brasileira tornou-se uma potência econômica antes de se transformar numa potência intelectual. As cadeias produtivas estão profundamente conectadas; as universidades, ainda não. Empresas negociam diariamente, investidores ampliam aportes bilionários e governos firmam acordos sucessivos. Em contraste, pesquisadores brasileiros e chineses continuam trabalhando muito mais próximos de seus próprios sistemas acadêmicos do que uns dos outros.

Essa distância começa a produzir um paradoxo. Inteligência artificial, computação quântica, biotecnologia, segurança cibernética, Big Techs, novos modelos financeiros e linguagens audiovisuais tornaram-se ativos estratégicos. Quem produzir conhecimento em conjunto ocupará posição privilegiada na economia internacional. Quem permanecer apenas comprando e vendendo produtos correrá o risco de depender das descobertas feitas por outros.

O elo mais frágil

Os sinais de mudança existem, embora ainda sejam modestos diante da dimensão da parceria econômica.

Em 12 de fevereiro de 2026, em Pequim, CAPES assinou seu primeiro acordo institucional com uma universidade chinesa: a Universidade Beihang, uma das principais referências do país em engenharia, inteligência artificial, aeronáutica e tecnologias estratégicas. O programa recebeu investimento inicial de R$ 3,9 milhões, prevê apoio a 24 projetos de pesquisa, mobilidade para aproximadamente 160 mestrandos e doutorandos e participação de 24 docentes brasileiros. Mais significativo do que os números é o objetivo declarado: integrar ciência, indústria e educação em projetos desenvolvidos conjuntamente pelos dois países.

A iniciativa representa um avanço importante, mas também evidencia o tamanho do atraso acumulado. Quando o primeiro acordo dessa natureza foi firmado, a China já ocupava havia muitos anos a posição de principal parceiro comercial do Brasil e consolidava presença crescente em setores como energia, infraestrutura, mineração, telecomunicações e mobilidade elétrica. A cooperação universitária avançou em ritmo muito inferior ao das relações empresariais.

Esse descompasso ficou ainda mais evidente em 7 de maio de 2026, quando o Conselho Empresarial Brasil-China divulgou seu levantamento anual sobre investimentos chineses. O Brasil tornou-se o país que mais recebeu investimentos chineses no mundo durante 2025, com US$ 6,1 bilhões distribuídos em 52 projetos, alta de 45% em relação ao ano anterior. A maior parte desses recursos concentrou-se em energia, mineração, indústria e infraestrutura.

Pouco desse movimento, entretanto, foi acompanhado pela criação de laboratórios binacionais, redes permanentes de pesquisa ou centros conjuntos de inovação. Essa é uma das maiores oportunidades ainda não exploradas da relação Brasil-China. O capital já atravessa oceanos com rapidez. O conhecimento continua viajando lentamente. Nas próximas décadas, essa diferença poderá valer muito mais do que qualquer superávit comercial.

Inteligência compartilhada

A cooperação acadêmica entre Brasil e China deixou de ser um tema restrito às universidades. Tornou-se uma questão de competitividade nacional. Em junho de 2026, o Nature Index, um dos principais indicadores internacionais de produção científica de alta qualidade, colocou a China novamente na liderança mundial em publicações nas áreas de ciências naturais, à frente dos Estados Unidos. O resultado não surgiu por acaso. Em 2024, os investimentos chineses em pesquisa e desenvolvimento ultrapassaram 3,6 trilhões de yuans, aproximadamente US$ 500 bilhões, consolidando um dos maiores sistemas científicos do planeta. O país abriga hoje mais de 2,4 milhões de pesquisadores, além de universidades como Tsinghua, Peking, Zhejiang e Beihang, que figuram entre as mais influentes do mundo em engenharia, computação e inteligência artificial.

O Brasil não dispõe da mesma escala financeira, mas reúne competências reconhecidas internacionalmente em agricultura tropical, bioenergia, saúde pública, biodiversidade, aviação, governo digital e sistemas financeiros. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) demonstram que o país possui capacidade científica suficiente para participar de projetos internacionais de grande complexidade.

O problema não está na ausência de talento. Está na escassez de programas permanentes de cooperação entre instituições dos dois países. Enquanto universidades norte-americanas, europeias e asiáticas ampliam redes internacionais de pesquisa, Brasil e China ainda concentram grande parte de seus esforços em acordos pontuais, muitas vezes dependentes de iniciativas individuais de pesquisadores.

Essa realidade precisa mudar rapidamente. A inteligência artificial já redefine cadeias produtivas, serviços públicos, diagnósticos médicos, logística, educação e segurança digital. Nenhuma universidade conseguirá acompanhar sozinha a velocidade dessa transformação.

O laboratório do século XXI

Outro campo em que Brasil e China podem construir uma agenda comum é o das plataformas digitais e das Big Techs. O debate internacional deixou de girar apenas em torno da inovação tecnológica. Questões como soberania digital, proteção de dados, transparência algorítmica, direitos autorais, concentração econômica e regulação passaram a ocupar espaço central nas políticas públicas.

A China construiu gigantes tecnológicos como Alibaba, Tencent, Huawei, ByteDance e Baidu. O Brasil, por sua vez, tornou-se uma referência internacional em regulação financeira digital, governo eletrônico e inclusão bancária. Reunir pesquisadores de direito, economia, ciência da computação, comunicação e relações internacionais para estudar esses modelos produziria benefícios que ultrapassam o interesse acadêmico. Trata-se de compreender como diferentes sociedades enfrentam desafios semelhantes sem abrir mão de suas características institucionais.

O audiovisual oferece outro exemplo eloquente. Em poucos anos, a China criou uma indústria de microdramas que, segundo estimativas do setor, movimentou cerca de US$ 7 bilhões em 2025, superando a bilheteria anual do cinema chinês. Produzidas para celulares, com episódios de um a três minutos e narrativas altamente dinâmicas, essas obras passaram a influenciar plataformas de streaming, publicidade, comércio eletrônico e produção de conteúdo em diversos países asiáticos.

O Brasil possui uma tradição reconhecida em dramaturgia, documentário e produção televisiva. O encontro entre essa experiência narrativa e os novos formatos chineses poderia abrir uma agenda inédita de pesquisas sobre roteiros assistidos por inteligência artificial, comportamento de audiência, monetização digital, narrativas interativas e formação de profissionais para uma indústria audiovisual que já nasce global.

Há ainda um caso que desperta interesse crescente entre especialistas chineses e brasileiros: os pagamentos instantâneos. Desde seu lançamento, em novembro de 2020, o Pix transformou profundamente o sistema financeiro nacional. Em 2025, ultrapassou 170 milhões de usuários e consolidou-se como uma das maiores plataformas públicas de pagamentos em tempo real do mundo. A experiência chinesa percorreu trajetória distinta. Alipay e WeChat Pay integraram pagamentos, transporte, comércio eletrônico, comunicação e serviços públicos em um único ecossistema digital utilizado diariamente por centenas de milhões de pessoas.

Comparar essas duas experiências interessa muito mais do que aos economistas. Elas oferecem um extraordinário campo de pesquisa para especialistas em inovação, regulação, segurança cibernética, comportamento do consumidor e políticas públicas. Em vez de estudarem esses fenômenos isoladamente, brasileiros e chineses poderiam produzir conhecimento em conjunto, oferecendo respostas que dificilmente surgiriam dentro das fronteiras de apenas um país.

Muito além do intercâmbio

A aproximação entre universidades brasileiras e chinesas não deve limitar-se ao envio de estudantes para programas de curta duração nem à assinatura periódica de memorandos de entendimento. O desafio é construir instituições permanentes de cooperação. Um consórcio binacional dedicado à inteligência artificial, outro voltado aos sistemas de pagamentos digitais, um centro de pesquisa sobre novas linguagens audiovisuais e uma rede de estudos sobre governança das plataformas digitais produziriam resultados muito mais consistentes do que iniciativas isoladas.

Há exemplos internacionais que demonstram esse caminho. Universidades de diferentes países mantêm laboratórios compartilhados, desenvolvem patentes em conjunto, publicam artigos em coautoria e dividem infraestrutura científica de alto custo. Brasil e China dispõem de massa crítica suficiente para criar uma arquitetura semelhante. O que ainda falta é transformar essa possibilidade em prioridade política, acadêmica e empresarial.

O intercâmbio cultural também precisa acompanhar essa mudança de escala. Literatura, música, cinema, gastronomia e exposições continuarão aproximando os dois povos, mas a cultura do século XXI também é produzida por algoritmos, plataformas digitais, jogos eletrônicos, inteligência artificial e ambientes virtuais de aprendizagem. Um pesquisador brasileiro que compreenda o ecossistema tecnológico chinês terá condições muito melhores de interpretar as transformações contemporâneas. O mesmo vale para pesquisadores chineses interessados em compreender a diversidade cultural, institucional e econômica brasileira.

A década da decisão

O Brasil reúne atributos que despertam crescente interesse na China: liderança mundial em agricultura tropical, matriz energética relativamente limpa, biodiversidade, experiência em inclusão financeira digital e um mercado consumidor superior a 210 milhões de habitantes. A China, por sua vez, tornou-se referência em infraestrutura, manufatura avançada, inteligência artificial, veículos elétricos, telecomunicações e inovação industrial. Essas competências não competem entre si; elas se complementam.

Essa complementaridade recomenda a criação de uma agenda permanente envolvendo CAPES, CNPq, FINEP, Embrapa, Fiocruz, Banco Central, universidades públicas e privadas, além de suas instituições congêneres chinesas. O objetivo não deve ser apenas aumentar o número de convênios, mas produzir pesquisas capazes de gerar patentes, startups, políticas públicas, produtos tecnológicos e soluções para problemas compartilhados.

As empresas também têm papel decisivo. Fabricantes de veículos elétricos, companhias de energia, bancos, empresas de telecomunicações, plataformas digitais e produtoras audiovisuais necessitam de profissionais preparados para trabalhar em ambientes multiculturais, compreender diferentes sistemas regulatórios e transformar pesquisa em inovação. A universidade é o espaço natural para formar essa nova geração.

A ponte do conhecimento Brasil e China

Durante décadas, a relação entre Brasil e China foi medida pelo volume de navios que cruzavam oceanos transportando soja, minério de ferro, petróleo e bens industrializados. Esses indicadores continuarão relevantes, mas já não são suficientes para explicar a natureza da parceria construída pelos dois países.

As nações que liderarão as próximas décadas serão aquelas capazes de compartilhar conhecimento com a mesma intensidade com que compartilham comércio e investimentos. Essa é a verdadeira fronteira estratégica da relação sino-brasileira.

Se o século XX aproximou Brasil e China pelos mercados, o século XXI poderá aproximá-los pelos laboratórios. Quando pesquisadores, professores, estudantes, empreendedores e criadores dos dois países passarem a trabalhar em redes permanentes de cooperação, a parceria deixará de ser lembrada apenas pelos recordes do comércio bilateral. Será reconhecida pela capacidade de produzir ciência, tecnologia, inovação e cultura em benefício de duas sociedades que, juntas, representam quase um quarto da população mundial.

Essa é a ponte que ainda falta construir. E, justamente por ainda não existir plenamente, talvez seja a obra mais importante da relação Brasil-China nas próximas décadas.




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