“Avante!”, a festejar genocídios reais desde 1931 – Observador

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Ideias Feitas na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo. Hoje queres falar sobre artistas que boicotam Seinfeld, mas não boicotam a Festa do Avante.
Exatamente. Olá, Ricardo. Boa tarde. Anteontem, talvez te lembres, falei aqui dos obscuros comediantes e outros obscuros artistas portugueses que, não sei se foi por convicção ou por desejo de publicidade, uma coisa ou outra, mas o que importa é que decidiram anunciar o boicote à sua participação no festival de comédia que vai haver em Lisboa no final de outubro, início de novembro, em que o cabeça de cartaz é Jerry Seinfeld. O motivo é o apoio que Seinfeld expressa ao mero direito de Israel existir e de se defender, mas a palavra que alguns desses comediantes e artistas utilizam é genocídio. O tal genocídio imaginário que faz com que a população de Gaza continue a aumentar, em vez de diminuir. Ficamos então a saber que os artistas em questão são contra qualquer indivíduo que, a título pessoal, naturalmente, apoie um genocídio imaginário, mas não têm nada contra, antes pelo contrário, um partido organizado e que já nasceu há mais de 100 anos e que há mais de 100 anos apoia genocídios reais e matanças comprovadas. É que no passado fim de semana, não tinha tido tempo de falar, mas falo agora. No passado fim de semana voltou a realizar-se a Festa do Avante, como sucede há mais de meio século, e não é costume vermos comediantes e cançonetistas e outro género de artistas declararem que nunca participariam na dita festa, na medida em que, no fundo, e não só no fundo, esta é a celebração de uma ideologia responsável por mais de 100 milhões de mortos. E o cúmulo, que teria graça se não fosse absolutamente grotesco, é que a quase totalidade das figuras que boicotaram Seinfeld participaram nesta ou noutras Festas do Avante. Eu não vou citar nomes, não vale a pena, mas talvez valha a pena citar alguns dos verdadeiros genocídios e massacres de grande escala cometidos por regimes defendidos e venerados pelo PCP. Há umas ligeiras divergências, por exemplo, no caso do maoísmo, mas essas divergências, e isto até ajuda a tese, são apenas por pormenores programáticos ou divergências programáticas e jamais por causa da barbárie assassina. Quanto a isso, o PCP nunca teve objeções. São estes os genocídios e os massacres que cada participante na Festa do Avante apoia, enquanto condena Seinfeld por preferir Israel ao Hamas. De genocídios, isto não vai ser uma lista exaustiva, não te assustes. Temos o Holodomor, a famosa fome forçada na Ucrânia no início dos anos 30, que terá causado perto ou mais de 5 milhões de mortos. Houve a deportação no Cazaquistão dos chechenos em 1944, que terá causado cerca de 200 mil mortos. Houve a operação polaca do Comissariado do Povo para os Assuntos Internos, chamava-se assim na altura da União Soviética. O regime soviético alegou que havia uma suposta rede de espionagem chamada Organização Militar Polaca dentro da União Soviética. Era falso, claro, mas isso não os impediu de matarem cerca de 120 mil pessoas, polacos, no caso. Houve a deportação dos tártaros da Crimeia em 1944, também 100 mil mortos ou mais. Depois houve no Camboja, com 1,5 a 2 milhões de mortos, o genocídio provocado pelos khmers vermelhos. E depois houve uma série de outras matanças e de fome, através de fomes ou matanças diretas ou através da repressão política. Na China, o Salto em Frente matou dezenas de milhões de pessoas. A Revolução Cultural Chinesa, uns poucos anos depois, terá causado 3 milhões de mortos. O Grande Terror Stalinista causou mais de 1 milhão de mortos. A fome norte-coreana e os campos de trabalho também mataram cerca de 1 milhão de pessoas e continuam a matar. A repressão do regime castrista, que ainda vigora, também já matou dezenas de milhares de pessoas. E há muito mais casos de Angola a Nicarágua, passando por toda a Europa de Leste antes da queda do muro e por todos os lugares que tiveram o imenso azar de cair nas mãos de quem conseguiu concretizar os sonhos que felizmente o PCP não conseguiu cumprir aqui em Portugal. Eu acho até ridículo termos que relembrar isto em 2026, mas a Festa do Avante festeja com particular cinismo o sangue vertido por muitos milhões de desgraçados. E os que lá vão, festejam o mesmo. Eu não sei se as pessoas que lá vão para cima do palco ou para assistir ao que se passa no palco sabem disto. Acho que muitas saberão, tinham a obrigação de saber. É possível que haja muitas que não saibam, mas a ignorância terminal também não pode desculpar tudo. A verdade é que tudo aquilo é uma celebração de um horror, e um horror que dura há mais de 100 anos e para isso, aparentemente, não há boicotes. Os boicotes estão reservados para o Seinfeld, porque Seinfeld apoia Israel. É sempre Israel, é sempre a exceção, que não confirma regra absolutamente nenhuma. Confirma aquilo que nós desconfiamos, que quando Israel está envolvido, os genocídios, as matanças, os massacres mudam todos de figura e tudo assume uma gravidade que noutros casos, pelos vistos, é perfeitamente desculpável.
Obrigado, Alberto. E até amanhã.
Até amanhã, Ricardo.
