Arqueólogos encontram nos Pirenéus o possível acampamento de uma tropa romana atacada há dois mil anos

Arqueólogos encontram nos Pirenéus o possível acampamento de uma tropa romana atacada há dois mil anos


Duas pequenas peças de chumbo encontradas em uma passagem dos Pirenéus podem ter resolvido um mistério registrado há quase dois mil anos. Marcados com as iniciais de um governador romano, os projéteis revelam onde soldados de Roma montaram um acampamento em 39 a.C. antes de serem surpreendidos por uma emboscada indígena.

Os vestígios foram identificados em Collet de Jovell, uma passagem montanhosa situada na região de Cerdanya, nos Pirenéus orientais da Catalunha.
Os vestígios foram identificados em Collet de Jovell, uma passagem montanhosa situada na região de Cerdanya, nos Pirenéus orientais da Catalunha. – Imagem gerada por IA

Onde o acampamento romano foi localizado?

Os vestígios foram identificados em Collet de Jovell, uma passagem montanhosa situada na região de Cerdanya, nos Pirenéus orientais da Catalunha. A posição estratégica permitia controlar caminhos entre vales e acompanhar a movimentação de pessoas, animais e tropas perto da atual fronteira entre Espanha e França.

Segundo pesquisadores da Universidade Autônoma de Barcelona, o local abrigou um acampamento militar temporário ligado à campanha romana contra os Ceretanos. A descoberta modifica a interpretação tradicional de que o confronto teria ocorrido mais a oeste e oferece a primeira possível localização arqueológica do episódio descrito por fontes antigas.

Vestígios militares foram identificados em uma passagem estratégica nas montanhas catalãs.
Vestígios militares foram identificados em uma passagem estratégica nas montanhas catalãs. – Imagem gerada por IA.

Como os projéteis ajudaram a datar o conflito?

Entre os objetos encontrados estão projéteis de funda produzidos com chumbo fundido. Dois deles apresentam as letras CND, interpretadas como uma referência a Cneu Domício Calvino, governador romano da Hispânia durante a revolta dos Ceretanos registrada em 39 a.C.

Essas iniciais funcionam como uma assinatura militar capaz de associar o material a uma autoridade e a um período específicos. Projéteis marcados podiam indicar o comandante responsável, identificar unidades ou transmitir mensagens políticas, transformando uma peça de munição em um importante documento histórico.

Quais objetos confirmam a presença dos soldados?

O levantamento arqueológico recuperou outros materiais característicos do cotidiano das tropas romanas. Em conjunto, eles indicam que soldados permaneceram na passagem, ainda que provavelmente por pouco tempo, e ajudam a diferenciar o local de um simples caminho usado por comerciantes ou moradores da região.

  • Projéteis de funda feitos de chumbo fundido;
  • Pregos de ferro usados nas sandálias dos legionários;
  • Fíbulas romanas destinadas a prender roupas;
  • Moedas compatíveis com a datação do acampamento;
  • Objetos dispersos que sugerem uma retirada desorganizada.

Os pregos, conhecidos como clavi caligae, eram fixados nas solas das sandálias militares para melhorar a resistência e a aderência. A presença dessas peças, somada às moedas e aos broches, reforça a hipótese de que Collet de Jovell recebeu uma unidade romana envolvida diretamente na repressão da revolta.

Pregos de sandálias e moedas confirmam permanência de tropas na região.
Pregos de sandálias e moedas confirmam permanência de tropas na região. – Universidade Autônoma de Barcelona

Quem eram os Ceretanos?

Os Ceretanos eram um povo indígena estabelecido nos Pirenéus antes da consolidação do domínio romano. Roma havia iniciado sua expansão pela Península Ibérica em 218 a.C., durante a Segunda Guerra Púnica, mas encontrou resistência prolongada de diferentes comunidades que tentavam preservar seus territórios e formas de organização.

O historiador romano Cássio Dio relatou que os Ceretanos emboscaram tropas comandadas por Domício Calvino em 39 a.C. Parte dos soldados teria fugido durante o ataque, levando o governador a impor punições severas antes de reorganizar o exército e esmagar a revolta. O relato, porém, apresenta a perspectiva dos vencedores romanos.

A descoberta muda a história da conquista romana

Os achados demonstram que a incorporação da Hispânia não foi rápida nem pacífica. Mesmo após quase dois séculos de presença romana, comunidades dos Pirenéus ainda conseguiam organizar ataques capazes de surpreender tropas profissionais. Collet de Jovell transforma essa resistência, antes conhecida principalmente por textos, em uma realidade arqueológica concreta.

Novas pesquisas no local podem revelar estruturas defensivas, áreas de alojamento e outros sinais da emboscada. Preservar o sítio e ampliar as escavações é essencial, pois cada objeto recuperado ajuda a devolver voz aos povos que enfrentaram Roma e impede que uma parte decisiva da história permaneça escondida nas montanhas.





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