Apoiar Lula contra o sistema é a tarefa da esquerda brasileira em 2026
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- O Congresso Nacional, dominado por forças reacionárias, rejeitou a indicação de Jorge Messias ao STF e contestou a dosimetria, marcando derrota ao governo de Lula.
- As pesquisas eleitorais para a disputa presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro mostram margens de erro e volatilidade, mantendo cenário semelhante ao de 2022.
- Lula fez pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV no 1º de maio, reforçando que o Governo está ao lado dos trabalhadores e criticando o “sistema”.
- Analistas alertam que qualquer vacilo nas estratégias dos candidatos pode definir o futuro político do Brasil e influenciar a luta de classes na América Latina.
A disputa política eleitoral no Brasil começou pra valer, as derrotas impostas contra o governo pelo Congresso Nacional dirigido por forças reacionárias — que vão do centrão fisiológico até a extrema direita — no tema da indicação de Jorge Messias ao STF e na questão da dosimetria, acordou quem estava distraído e/ou otimista demais sobre o humor do ambiente político do país. As pesquisas eleitorais oscilam dentro da margem de erro, algumas mais favoráveis a Lula e outras mais favoráveis a Flávio Bolsonaro. Na prática, estamos quase na mesma correlação de forças de 2022, ninguém sabe quem vai vencer a eleição presidencial até o ultimo minuto da apuração. O que sugere que qualquer vacilo de ambos os lados da disputa polarizada no Brasil — um dos países mais importantes para a geopolítica apocalíptica atual — definirá o destino não só das brasileiras e brasileiros, mas também da luta de classes latino americana e mundial. Caro leitor, veja que temos uma responsabilidade histórica em não errar nesse momento, concorda?
No mesmo dia das derrotas no Congresso Nacional e por conta do advento do 1º de maio, em horário nobre, Lula fez um pronunciamento em cadeia nacional de rádio e tv, que teve como centro os seguintes temas:
1. Lançamento de um pacote para aliviar dividas das famílias brasileiras ( Desenrola 2.0) com criticas ao sistema de apostas (BETS)
2. O anúncio do projeto de Lei que reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais sem redução de salários, com ênfase na situação das mulheres. Um enfrentamento direto contra os interesses da patronal!
3. Alertou sobre os efeitos da guerra e explicou as medidas que o governo está tomando para evitar que o preço dos combustíveis atinja o orçamento das famílias.
4. Falou dos números positivos da economia como a taxa de inflação controlada, desemprego em baixa e renda em alta, enumerou os principais programas do governo que atendem os interesses do povo trabalhador e reconheceu que ainda é pouco.
E fechou dizendo:
“Cada vez que damos um passo adiante para melhorar a vida do povo brasileiro, o sistema joga contra. O andar de cima, os bilionários, a elite que só pensa em manter privilégios às custas do povo. Se dependesse do sistema, nem a escravidão teria sido abolida no Brasil. Mas todo dia eu renovo minha fé em Deus e no povo brasileiro, na força de quem levanta cedo, enfrenta dificuldades, cultiva esperança e nunca desiste dos seus sonhos. Você que tem carteira assinada, que é MEI, que trabalha por aplicativo, que faz bico, que vende pela internet. Você que cuida, que ensina, que pega ônibus cheio, você que planta, colhe, cozinha e constrói. Você que é uma pessoa honesta e batalhadora, você que vive do próprio trabalho, seja ele qual for, tenha uma certeza neste 1º de maio: o Governo do Brasil está do seu lado.”
Não há dúvida que o pronunciamento de Lula colocou o seu governo do lado certo da história e em rota de enfrentamento com a faria lima, banqueiros, bilionários, com o sistema. O dever de todas as forças do espectro de esquerda do país é apoiar Lula contra o sistema.
O que significa na pratica apoiar Lula contra o sistema nesse momento decisivo da história do país e do mundo?
Antes um alerta, precisamos ter a consciência que o governo Lula III é uma articulação de frente ampla, que ao longo da sua gestão incorporou alguns quadros da centro direita entre seus ministros. Ao mesmo tempo, também deu espaço aos movimentos sociais e a partidos que tradicionalmente tem posições mais a esquerda que o próprio PT, na pratica só a federação PSOL-REDE tem/teve três ministr@s ( Boulos, Marina e Guajajara), além de chefias importantes como a presidência da FUNAI, IBAMA, entre outros…
Um governo de frente ampla está repleto de contradições e não está imune a criticas, como também enfrenta grandes desafios para conseguir fechar posições em relação a temas sensíveis e complexos. Mas foi a frente ampla que permitiu abrir as condições para derrotar Jair Bolsonaro em 2022 e bloquear o avanço da extrema direita e do neofascismo no poder central do país com mais um mandato. Em 2026, nos parece ser a tática acertada para acumular forças suficientes para evitar o retorno da família Bolsonaro de volta ao poder.
Nesse sentido, mesmo com as limitações de uma frente ampla, não podemos vacilar em apoiar Lula, quando a maior liderança da classe trabalhadora brasileira está se colocando publicamente contra o sistema, especialmente na luta mais importante desse século que é a redução da jornada de trabalho – O fim da escala 6×1!
A candidatura de Lula à Presidência da República para disputar a chance de um quarto mandato, já tem o apoio de todas as organizações de esquerda que tem representação parlamentar (algo inédito), mas deveria também ser apoiada por todos os partidos de esquerda que não tem representação no parlamento. As siglas como o PCO, PSTU, UP e PCB, além de se recusarem em fazer unidade em torno da candidatura de Lula, não conseguem unidade nem mesmo entre si, o que demonstra que são candidaturas preocupadas em sua própria autoconstrução e não na disputa real da luta de classes no Brasil. Deveriam refletir sobre essa tática, pois aplicam essa política por décadas, e continuam sendo siglas marginais, com rupturas constantes e cada vez mais alijadas da institucionalidade eleitoral. Essa posição é um erro ainda mais grave, numa etapa histórica reacionária, de fortalecimento das forças reacionárias no continente latino americano.
É preciso dar destaque ao papel que vem cumprindo Guilherme Boulos a frente da Secretaria Geral da Presidência da República. Através da palavra de ordem: “ Governo na rua”, o ministro vestiu um casaco que lembra os entregadores de app, e está levando os programas sociais do governo para o usufruto e conhecimento da população do país, está mobilizando a opinião publica para defender o fim da escala 6×1, está organizando a luta dos trabalhadores de App com a construção de pontos de apoio por todo país e outras reivindicações. Um exemplo de como é possível fazer as estruturas do governo produzir resultados concretos na disputa contra a extrema direita.
A soberania nacional precisa ter hierarquia programática
Por fim, apoiar Lula é uma tarefa que no seu conteúdo precisa hierarquizar a exigência que o programa de seu próximo governo, precisa estar na linha de frente a questão da soberania nacional. Esse tema não pode ser apenas discurso, a covarde e perigosa ofensiva imperialista liderada pelo neofascismo trumpista, exige uma atitude corajosa e ousada para construir um projeto nacional de desenvolvimento que inevitavelmente se enfrente contra as estruturas coloniais que ainda dominam o sistema liderado pela elite brasileira, sócia menor do império ocidental.
O mal estar social devido à precariedade do trabalho, os baixos salários, a dependência tecnológica, a primarização da economia que destrói o meio ambiente e as interferências externas na política brasileira, só podem ser enfrentadas com um projeto de desenvolvimento soberano que reindustrialize o país, gerando milhões de empregos especializados com bons salários, controlando nossos recursos naturais, e observando a transição energética. Colocando o Brasil na fronteira tecnológica em vários nichos da economia mundial, com integração latino americana, em aliança com os países do sul global, desdolarizando o mundo e abrindo as condições para um futuro de prosperidade compartilhada.
*Gibran Jordão é historiador, analista de geopolítica e TAE-UFRJ.
**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.
