“Agenda ambiental não é exclusividade da esquerda”, diz Sérgio Etchegoyen

“Agenda ambiental não é exclusividade da esquerda”, diz Sérgio Etchegoyen



Sérgio Etchegoyen, general do Exército da Reserva, ex-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, durante a gestão de Michel Temer e cofundador do Centro Soberania e Clima, não tem histórico de militância ambiental. Ainda assim, decidiu criar, ao lado do ministro Raul Jungmann, falecido em janeiro deste ano, e do ambientalista Marcelo Furtado, uma organização dedicada a aproximar dois grupos que raramente se falavam — os que se preocupam com a segurança nacional e os que defendem o meio ambiente. “Não havia outro espaço para isso”, afirma em entrevista ao programa VEJA+Verde, conduzido pelo editor de VEJA Negócios Diogo Schelp.

A tese central do instituto presidido por Etchegoyen é que soberania e preservação ambiental não são adversárias. Ao contrário, são complementares. Sem presença do Estado nos territórios remotos da Amazônia, do Pantanal e do Pampa, não há fiscalização, não há coerção e não há como conter a degradação. “Não haverá possibilidade de preservação ambiental se os estados soberanos não forem capazes de exercer seus papéis de indutores dessa missão, de coordenadores e de poder de polícia”, diz Etchegoyen. O garimpo ilegal, segundo ele, é o exemplo mais eloquente: prospera justamente onde o Estado está ausente.

Bandeira da esquerda

A percepção de que a agenda climática é propriedade da esquerda incomoda Etchegoyen. Ele reconhece a origem histórica do fenômeno — Fernando Gabeira, Alfredo Sirkis, Marina Silva, todos vieram da esquerda —, mas recusa a conclusão. “Como se as questões ambientais fossem ou atingissem exclusivamente a esquerda. Elas atingem muito do capital brasileiro, muito da gente da direita. Aí está o exemplo do agronegócio”, diz o general. Para ele, esse fenômeno tem uma explicação pragmática: com o esvaziamento da dialética de classes, partidos progressistas migraram para bandeiras de apelo transversal. “Quando algo dá voto, criam-se nichos sociais que perduram.”

A consequência, avalia, é que a pauta ambiental foi ideologizada de forma desnecessária — e prejudicial. “Quem no Brasil hoje levantaria uma bandeira de devastação ambiental? É razoável imaginar que alguém vai defender o fim da legislação ambiental e esperar que receba votos?”, pergunta, retoricamente. Sua leitura é que a sociedade brasileira já internalizou o valor da preservação ambiental como um dado civilizatório. “Isso está fora de questão. Não se vai discutir no país nenhuma política sem levar isso em conta.”

Brasil na berlinda

O uso da pauta ambiental como instrumento de política externa é um dos pontos que mais irrita Etchegoyen. Ele cita as negociações do acordo Mercosul-União Europeia e as pressões tarifárias do presidente americano Donald Trump, que têm empregado argumentos ambientais para questionar a agropecuária brasileira. “Acusar o Brasil de degradação ambiental, de soja na Amazônia, isso é uma estupidez tão grande quanto aquelas imagens de girafas e leões na Amazônia”, diz. Seu argumento é o seguinte: o Brasil usa apenas 8% do território para lavouras e, somando a pecuária, chega a 30% — percentual inferior ao de Estados Unidos e vários países europeus.

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Etchegoyen recorre a uma analogia para ilustrar o que considera um duplo padrão: “Vamos imaginar que nós chegássemos na França e disséssemos que a Renault só pode produzir 20% da capacidade dela, porque tem que preservar o meio ambiente. Obviamente vai dar uma revolução. É exatamente isso que acontece com o proprietário rural na Amazônia: ele só pode explorar 20% de sua propriedade”. A Reserva Legal amazônica, relembra, é de 80%, um patamar que nenhum outro país exige dos seus produtores. Com isso, diz Etchegoyen, o Brasil tem a legislação ambiental mais avançada do mundo.

Justiça climática sem divisão

Questionado sobre o conceito de “justiça climática”, Etchegoyen evita a polarização. Diz que o tema é um dos eixos do Centro Soberania e Clima — e aponta as enchentes do Rio Grande do Sul de 2024 como a face mais concreta do problema. “As tragédias climáticas afetam inicialmente aqueles que vivem nas regiões mais vulneráveis, menos atendidas. Isso tem que ser observado”, afirma. Ele conta que acompanhou de perto os estragos no estado onde mora: conhecidos que perderam tudo, pequenos negócios varridos pela inundação no centro de Porto Alegre, histórias inteiras apagadas.

Mas o general acredita existir o risco da justiça climática virar mais um vetor de divisão política. “Nós não podemos aprofundar e deixar latente na nossa sociedade mais um caminho de divisão. Se isso acontecer, não vamos resolver o problema”. A saída, para o general, está em encontrar convergências.

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Trump e o recuo americano

Sobre a retirada dos Estados Unidos da Convenção Quadro da ONU sobre mudança do clima, Etchegoyen acredita se tratar de um “revés temporário”. “A sociedade americana não tem o viés tão hostil a essa questão quanto o atual governo dos Estados Unidos”, avalia o general.

O interesse de Trump nos minerais estratégicos do Brasil — e o uso de argumentos ambientais para pressionar o país comercialmente — é visto por Etchegoyen como mais uma razão para o Brasil exercitar uma visão de Estado de longo prazo. “Nós não podemos esgotar as alternativas agora, nem podemos aderir a protocolos que limitem lá na frente a prosperidade para os que nos sucederem”. O Brasil, recorda, é um dos países mais bem dotados em terras-raras do mundo e tem todo o direito de explorá-las à sua conveniência — o que, ressalva, inclui ganho financeiro para o setor privado, benefício coletivo imediato e visão de longo prazo para as gerações futuras.



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