AfD dobra de tamanho e extrema direita pode governar estado alemão
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O partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) conquistou uma vitória expressiva nas eleições regionais deste domingo (6) no estado da Saxônia-Anhalt, no leste do país, região da antiga Alemanha Oriental. Segundo as pesquisas de boca de urna, a legenda obteve pelo menos 44% dos votos, mais que dobrando sua performance anterior e deixando muito para trás a União Democrata-Cristã (CDU), de centro-direita, que projeta conquistar apenas 18,5%.
Apesar do triunfo histórico, não é certo que a AfD vá conseguir formar maioria absoluta para governar, ainda que o clima entre os extremistas seja de euforia. “Nós fizemos história hoje”, declarou Ulrich Siegmund, de 35 anos, o principal candidato do partido anti-imigração no estado, enquanto a contagem dos votos continuava.
A co-líder nacional da AfD, Alice Weidel, elogiou o desempenho do partido como “sensacional”. “Recebemos um mandato muito claro para governar aqui”, afirmou, de acordo com a AFP. Com um comparecimento recorde de pelo menos 75% dos eleitores no estado de 2,1 milhões de habitantes, ela adotou um tom de expectativa. “Veremos o que o resto da noite traz e como as coisas se desenvolvem.”
O dilema do “cordão sanitário”
Para o establishment político alemão, o resultado é um terremoto. O atual governador do estado, Sven Schulze (CDU), classificou o desfecho como “um golpe severo” para a legenda. A esperança da centro-direita agora é tentar costurar uma ampla e improvável coalizão com partidos menores, incluindo a centro-esquerda (SPD), os Verdes e até a extrema esquerda (Die Linke), para se manter no poder.
Não se trata de uma eleição direta para o cargo de governador. Os candidatos que conquistarem um dos mandatos diretos nos 41 distritos eleitorais estarão aptos a entrar no parlamento e todos os partidos que receberem pelo menos cinco por cento dos votos terão representação no parlamento estadual. É preciso formar maioria no Parlamento para definir o novo governo.
Até o momento, todos os principais partidos mantêm um “cordão sanitário” de não cooperação com a AfD, cuja filial estadual é oficialmente classificada como “extremista de direita” pela agência de inteligência doméstica da Alemanha.
Pânico entre minorias
A perspectiva de um governo estadual de extrema direita é um choque profundo para um país que há décadas tenta expiar a história sombria da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto. “Estou pessoalmente chocado com este resultado eleitoral”, desabafou Josef Schuster, presidente do Conselho Central dos Judeus, à AFP.
O medo também tomou conta das ruas. No sábado, milhares de opositores marcharam na capital regional, Magdeburgo, com faixas dizendo que “a vida é melhor sem nazistas”. A manifestante Laura Saalfeld resumiu o sentimento: “Estou muito preocupada”. Para ela, o estrago já está feito. “Quaisquer que sejam os resultados, a atmosfera vai mudar. Simpatizantes da extrema direita se mostrarão mais abertamente nas ruas.”
Os temores se justificam, segundo o historiador Pedro Maxwill, em artigo no Der Spiegel. “Provavelmente não houve eleições estaduais desde 1949, especialmente em um estado tão pequeno e com um potencial tão alto para o caos. O AfD provavelmente alcançará seu melhor resultado de todos os tempos em uma eleição federal ou estadual , o que significa que, mesmo como partido de oposição, poderá exercer uma influência enorme no clima social e nos processos políticos”, prevê.
“A normalização do extremismo de direita se aceleraria e debates fundamentais e potencialmente explosivos seriam inevitáveis. A discussão sobre a proibição do partido poderia ganhar novo fôlego. Também é provável que haja novas demandas para que os outros partidos sejam mais abertos e dispostos a dialogar com o AfD”, pondera o historiador.
Agenda radical e impacto econômico
Embora Siegmund tente se vender como o “rosto amigável” da AfD, explorando a nostalgia da antiga Alemanha Oriental comunista, suas promessas não têm nada de amistosas. Ele planeja iniciar uma “ofensiva de remigração e deportação” desde o primeiro dia de governo. A agenda do partido também inclui a substituição de bandeiras do orgulho LGBTQIA+ nas escolas públicas pela bandeira alemã e a redução da ênfase no ensino sobre o Terceiro Reich nas aulas de história.
O Instituto Econômico Alemão alertou que essa política anti-imigração seria ruinosa para a Saxônia-Anhalt, que depende fortemente de trabalhadores estrangeiros, especialmente no setor de saúde.
O resultado também coloca imensa pressão sobre o líder nacional da CDU, Friedrich Merz. Para Holger Schmieding, do banco Berenberg, a crise é evidente. “O resultado é ainda pior do que as pesquisas de opinião haviam sugerido de antemão”, escreveu o analista.
Segundo ele, a derrota acachapante terá consequências internas. “Isso muito provavelmente desencadeará um período de exame de consciência sério e potencialmente barulhento dentro da CDU.” Schmieding conclui apontando o principal culpado pelo avanço extremista. “Uma razão principal para o sucesso da AfD parece ser que o governo federal sob Merz se tornou profundamente impopular.”
O partido de Mersz pode sofrer um novo revés daqui a duas semanas, nas eleições de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental também elegerá um novo parlamento estadual. Segundo as pesquisas, a sigla está em quarto lugar, atrás da AfD, SPD (Partido Social-Democrata) e Die Linke (A Esquerda).
Com informações da AFP
