A rota alternativa de Irã e Rússia para driblar o cerco de Donald Trump
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- Rússia e Irã retomaram o transporte marítimo pelo Mar Cáspio para contornar as incertezas no Estreito de Ormuz.
- O país enviou trigo ao Irã via Cáspio, primeira carga por esse caminho em cerca de oito anos, desviando o Mar Negro.
- Irã figura como o terceiro maior comprador de trigo russo, reforçando a segurança alimentar diante da crise de fertilizantes e grãos.
- A Rússia solicitou ao bloco BRICS a criação de um estoque conjunto de grãos para evitar novos choques de oferta internacional.
Rússia e Irã voltaram a usar com mais ênfase o transporte marítimo via Mar Cáspio, o corpo d’água fechado que une os dois países costeiros na região eurasiática a leste do Cáucaso.
O Cáspio, entre Europa Oriental e Ásia Ocidental, não tem saída para o oceano, e integra Azerbaijão, Rússia, Irã, Cazaquistão, Turcomenistão e Uzbequistão no seu entorno, países que também dividem os direitos de exploração do subsolo rico em hidrocarbonetos, com um longo histórico de tratados.
As movimentações comerciais bilaterais entre Irã e Rússia no Cáspio retomam pela rota alternativa em resposta às crescentes incertezas no Estreito de Ormuz, o principal corredor energético do mundo, .
Outra crise que se anuncia é a do setor de alimentos, em vista da paralisação do transporte de fertilizantes, grãos e outros insumos relevantes para a agricultura russa. Isso motivou o país, o maior exportador mundial de trigo, a solicitar aos BRICS que criassem em conjunto um estoque de grãos a fim de evitar novos choques de oferta internacional.
O transporte do país pelo Cáspio, em direção ao Irã, foi de trigo, o que quebra o padrão logístico anterior. Foi a primeira vez em que a Rússia enviou cargas de trigo pelo lago salgado ao invés de transportá-lo pelo Mar Negro, que tem como ponto final os terminais do Golfo Pérsico, hoje em disputa.
Segundo o Ministério da Agricultura russo, o Irã é o terceiro maior comprador do trigo do país, cujas cargas não passavam pelo Mar Cáspio há cerca de oito anos.
Os embarques no porto caspiano já aumentaram 61% no primeiro trimestre de 2026, impulsionados pelo comércio bilateral entre os países.
A intensificação do uso do Cáspio está ligada ao avanço das obras do Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INSTC), projeto de cerca de 7.200 km a unir Rússia, Irã e Índia, entre o norte europeu e o sul asiático, a partir de ferrovias, rodovias e rotas marítimas.
O INSTC poderia reduzir em até 30% o tempo de transporte entre as capitais russa e indiana (com apenas 20 dias de trânsito, ou metade do tempo a partir do Canal de Suez), segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento.
O Mar Cáspio funciona como eixo central desse corredor, entre os portos russos (Astrakhan e Makhachkala) e iranianos (Bandar Anzali).
A Rússia, cuja capacidade atual de transporte de grãos via Cáspio é de cerca de três milhões de toneladas anuais, tem investido na sua infraestrutura regional. O país planeja construir um novo terminal em Makhachkala, no Daguestão (costa ocidental do Mar Cáspio), até 2028, com capacidade adicional para mais 1,5 milhão de toneladas no mar fechado.
Do lado iraniano, a intenção é que as rotas pelo Cáspio ajudem a reduzir a dependência do Golfo Pérsico e diversificar os canais de importação de alimentos com seu aliado eurasiático, que produz um quarto do nitrato de amônia do mundo (fertilizante essencial para a agricultura) e mais de 88 milhões de toneladas anuais de trigo, de que é o principal exportador mundial.
