A injeção que pode mudar o tratamento do cancro – Observador

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador: a injeção que pode mudar o tratamento do cancro.
“So the Origami 4 Cohort 1 study of single agent amivantamab, given by a three weekly subcutaneous schedule”
Mesmo que perceba bem inglês, esta linguagem de cientista não é para todos. Para compreender do que fala este médico, a história de hoje leva-nos até Chicago, nos Estados Unidos, onde ontem terminou o Congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica.
“Demonstrated a statistically significant improvement in overall survival”
Quarenta e cinco mil médicos reunidos no mesmo espaço, ouviram em primeira mão as novidades da comunidade científica. Na verdade, a celebrar as conquistas da ciência, os avanços no tratamento do cancro. Um dos estudos mais falados foi o Origami 4, a fase dois de um ensaio clínico, que mostrou que grande parte dos participantes viu o tumor reduzir significativamente ou desaparecer por completo. Uma injeção debaixo da pele, mais simples e mais rápida que outros tratamentos e resultados aplaudidos de pé. Agora, o estudo vai entrar na fase três e doentes em Portugal também vão participar. Eu vou falar hoje com o Martim Andrade, jornalista do Observador, que escreve sobre ciência e investigação, e é ele quem nos vai dar os pormenores sobre este medicamento, para que serve, como funciona, por que é importante. E é também ele quem nos vai dizer se os cientistas já estão a preparar a festa da cura do cancro ou se é melhor olharmos para isto tudo com muita calma. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quarta-feira, 3 de junho. Olá, Martim, bem-vindo.
Olá, Pedro, obrigado.
Tu escreveste aqui um artigo que inevitavelmente vai deixar muita gente com esperança sobre os avanços na cura do cancro, ou pelo menos nalguns tipos de cancro. Vamos, se calhar, começar por aí. Estamos a falar de que tipos de cancro e qual é a importância, em termos estatísticos, destes cancros?
Este estudo, esta fase clínica que está a decorrer neste momento em vários países, e já lá vamos, está a focar-se principalmente em cancros da cabeça e do pescoço, que são o sétimo tipo de cancro mais comum no mundo. Em Portugal, é exatamente igual, há cerca de 2500 a 3000 novos diagnósticos todos os anos.
É imenso, é muita gente.
Sim, é imenso. E até há certos oncologistas que dizem que não é tão incomum como se julga, porque acho que ouve-se mais o cancro da mama, o cancro do pulmão, o cancro colorretal. Fala-se pouco deste cancro, mas que é, de facto, mais comum do que se diz.
Da cabeça e do pescoço, ou seja, estamos a falar uma coisa que seja, por exemplo, na língua, faz parte deste tipo.
Exatamente. É na língua, na boca, na laringe, tudo o que é entre a cabeça e o pescoço, ou seja, aquela região está incluída neste tipo de cancro. E este medicamento, esta nova possível terapia, está a ter um crescimento rápido na comunidade, está a revelar-se muito promissor, porque mostrou logo resultados muito positivos numa fase muito avançada da doença.
Quando dizes resultados muito positivos, estamos a falar de quê?
Ora bem, o estudo chama-se Origami 4, é uma segunda fase de ensaios clínicos focada num medicamento em específico. O nome é um pouco complicado. Chama-se Amivantamab, é um medicamento que foi desenhado pela Johnson & Johnson, inicialmente, para ser utilizado contra o cancro do pulmão de não pequenas células, é o nome técnico, mas é o tipo mais comum de cancro do pulmão.
Portanto, este medicamento já era usado, já estava no circuito, digamos assim, de tratamentos, mas aplicado a esse tipo de cancro do pulmão, que é um cancro do pulmão comum, e tinha bons resultados.
Exatamente. Tanto que, entretanto, já foi aprovado nos Estados Unidos, depois foi aprovado na Europa, é utilizado em Portugal também. Não é que toda a gente que tenha cancro do pulmão possa utilizar este tipo de terapia, mas que a grande maioria acaba por ter uma certa condição genética, quando desenvolve o tumor, que permite a ação deste medicamento, em conjunção com imunoterapias e talvez quimioterapias, que depois torna o tratamento mais eficaz.
Mais eficaz. E de repente, começam a perceber que este medicamento, que é usado para o cancro do pulmão, também pode ter aplicação noutros cancros, nomeadamente da cabeça e do pescoço, e com resultados que surpreenderam, eu não estou a exagerar se dizer que surpreenderam a comunidade científica.
É verdade. Foi uma grande surpresa, só para já agora expor quais eram os resultados. Este ensaio clínico teve 102 pacientes. Com este cancro numa fase já muito metastizada, muito agressiva, que já não tinha um prognóstico positivo.
Ou seja, já não havia propriamente grande esperança, nem havia tratamentos disponíveis que pudessem melhorar.
Exatamente. Tanto que estes pacientes já tinham esgotado a imunoterapia e a quimioterapia e esta aqui era, se calhar, a única possível hipótese que tivessem de conseguir alguma coisa.
E o que aconteceu quando começaram a fazer essas coisas?
O que aconteceu? Logo à sexta semana, depois de terem começado a tomar, isto são injeções, que toma-se num dia, depois toma-se na semana a seguir outra, e depois a partir daí é de três em três semanas que toma uma injeção deste medicamentoE a partir daí, a partir da sexta semana, é que começaram a notar, em 77% dos casos, algum tipo de resultado. Sejam eles uma diminuição significativa do tamanho do tumor, ou como aconteceu em 15 das 102 pessoas, que pode não parecer muito olhando numa grande escala.
Mas 15 em 100 é muito.
Mas 15 em 100 acaba por ser um valor significativo, que o tumor foi completamente erradicado, ou seja, desapareceu completamente do corpo das pessoas.
Ou seja, estamos a falar de pessoas que estavam no fim da linha, já não havia tratamento nem esperança propriamente disponível naquilo que estava no mercado já devidamente autorizado. Essas pessoas entraram nuns ensaios clínicos e desse grupo de pessoas, nessas circunstâncias, em cerca de 70% dos casos houve melhorias. Nalguns casos, a diminuição drástica do tumor, noutros casos, ele pura e simplesmente desapareceu. Estamos a falar de cerca de 15% dessas pessoas. É de facto incrível. É muito promissor. Isso foi a fase dois. Já agora, Martim, para quem não sabe o que são ensaios clínicos, os medicamentos não aparecem do nada.
Exato. Os medicamentos começam a ser desenvolvidos em laboratório. Fazem todo o procedimento em laboratório com ensaios em animais, por exemplo, numa primeira fase, e depois eventualmente progridem lentamente para a clínica. Especialmente na oncologia, o que acontece primeiro é: olham para doentes numa fase muito avançada da doença e veem se conseguem observar algum tipo de resultado positivo para depois começar a escalar na linha de defesa. Por exemplo, temos agora o Origami 4, que está a concluir, ainda não concluiu, mas temos agora estes resultados muito positivos. Mas já começou a terceira fase, que é o Origami 5, em que já estão a olhar para doentes deste tipo de cancro também, não numa fase precoce da doença, mas numa fase ainda inicial em que poderiam começar a procurar outro tipo de terapias, por exemplo, imunoterapias ou quimioterapias.
Ou seja, o que aconteceu até aqui foi com doentes que já estavam bastante avançados e com, digamos, fim de linha. Eu estava a usar essa expressão, não sei se isto sequer é usado na comunidade médica, mas acho que dá para perceber a imagem. E agora está a fazer-se o ensaio para doentes numa fase anterior, ou seja, que não estão ainda nessa fase. E é aqui que Portugal passa a entrar no estudo.
É verdade. O estudo começou no início deste ano e em Portugal, creio que já há o primeiro doente que vai começar agora esta terapia, mas há cinco hospitais em Portugal que aderiram a este-
Quais são?
Posso dizer. São o Hospital de Santa Maria, em Lisboa, a CUF Descobertas, o Hospital de Portimão, o IPO do Porto e a ULS Gaia Espinho.
São as cinco unidades que vão participar neste estudo, no Origami 5.
Exatamente. Neste momento, está um processo de recrutamento aberto, as pessoas podem falar com os médicos e os médicos, sabendo que isto existe, podem referenciar os pacientes para participarem neste estudo. Não é qualquer pessoa que tenha este cancro que pode participar. Eles dizem no anúncio que é preciso que o tumor esteja localizado na orofaringe, na cavidade oral, na hipofaringe ou na laringe, e que seja considerado incurável por terapias locais. Não está num estado muito avançado, que estava englobado naquela primeira fase que falámos agora, mas que já houve um alargamento.
Já se sabe que o que está disponível para tratar não vai ser suficiente.
Já não há um prognóstico também muito positivo, mas isto aqui já acaba por ser mais alargado, se não estou em erro, são mais de 100 localizações diferentes agora abertas. Esta é a fase do estado do estudo, em vários países também. O outro era alargado a 10 países ou 11 países, este agora já é muito mais.
Martim, quem ouviu isto, quem eventualmente possa estar a sofrer desta doença, possa estar a achar que corresponde a todos os critérios que foram definidos para a participação neste estudo, o que é que pode esperar? Porque efetivamente os números são animadores, os que são conhecidos até agora. E é normal que quem esteja a viver uma situação limite, como é a experiência de ter um cancro e sobretudo um cancro onde se sabe que o que está disponível para tratar esse cancro não vai funcionar, seja de se agarrarem com muita esperança a tudo aquilo que vai aparecendo de positivo, e isto é claramente positivo. Mas a comunidade científica tem aqui algumas reservas, ou seja, ainda há muito trabalho pela frente, ainda há muita coisa por fazer.
Sim. Todos os especialistas com quem falei a escrever a notícia, de facto alertam para esta necessidade de termos prudência, não a comunicar os resultados, mas para não tomarmos logo estes avanços, que são de facto promissores, como uma certeza de que vamos arranjar uma cura para o cancro. Não é isso que está em causa. Agora, a verdade é que também dizem, ao mesmo tempo, que estes resultados, que são bons, dizem mesmo inequivocamente que são resultados bons, são só para um medicamento isolado e que, na grande maioria dos casos, o medicamento não vai ser tomado por si só, vai ser sempre acoplado com imunoterapias ou com quimioterapia, é isso que vai ser estudado agora, que vai melhorar os resultados quase sem grande margem de erro.
Até porque há muitas coisas que é preciso saber, nomeadamente até que ponto é que esta reversão ou pura e simplesmente desaparecimento do tumor vai durar. Pode ser uma coisa temporária, não se sabe, não se faz ideia. E portanto, é preciso tempo e é preciso calma para estudar. Já agora, só para terminarmos, isto é um desafio para ti. Falaste com muitos especialistas para escrever este artigo, que naturalmente usaram linguagem técnica e depois, nalguns casos, para quem não sabe, tu não és médico. Não tens formação nessa área. E portanto, houve necessidade de perceber mais ou menos como é que funciona este medicamento. Tu consegues explicar-nos mais ou menos exatamente como é que ele funciona?
Houve um médico com quem eu falei que por acaso deu uma analogia interessante, que é: o medicamento é como se fosse uma chave para duas fechaduras.Muitas vezes, o que é utilizado neste momento é um bloqueio de uma proteína, que é o EGFR, que é uma proteína cuja função é contribuir para o crescimento do tumor.
Certo.
E quando existe uma anomalia no microambiente do tumor, esta proteína funciona de forma um pouco descontrolada, o que potencia o crescimento e a proliferação das células tumorais numa certa região.
Certo.
O que acontece muitas vezes também é que, para além desta proteína, existe uma outra via que é responsável por desencadear diferentes processos biológicos num funcionamento normal do corpo.
Certo.
Não existindo o tumor. Mas quando existe o tumor, aquilo altera o funcionamento também desta molécula e contribui também para a multiplicação.
Potencia essa multiplicação, portanto, os dois juntos são um fator péssimo para o desenvolvimento.
E também acabam por torná-lo um pouco invisível ao nosso sistema imunitário. Nós temos as defesas muito mais embaixo e não temos forma de o combater de forma natural. O que este medicamento faz? Vai bloquear a ação destas duas moléculas, destas duas vias, e a partir daí, o tumor torna-se visível, efetivamente para de crescer e o nosso sistema imunitário consegue começar a atacá-lo.
Uma vez que o vê, passa a atacá-lo, sabendo e identificando como um tumor.
Exatamente.
Muito bem, acho que passaste o desafio. Martim, obrigado.
Obrigado, Pedro.
Eu conversei com o Martim Andrade, jornalista do Observador, que escreve sobre ciência e investigação. Falamos sobre a injeção que vai ser testada em Portugal e que conseguiu erradicar cancros da cabeça e do pescoço. Ainda é cedo para saber se este medicamento vai cumprir todas as promessas que hoje sugere. Não sabemos ainda se os resultados vão ser duradouros, se se vão repetir à escala de milhares de doentes todos os anos. Mas sabemos que para quem tinha poucas opções e quase nenhuma esperança, alguns tumores pura e simplesmente desapareceram. E isso, por si só, já é uma notícia rara. Esta foi a história do dia, a sonoplastia do Rafael Pego, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até sexta.
