A esquerda, o ecopopulismo e a habitual sopa de letras – Observador

O tempo passa, as gerações também, mas há doenças políticas que nunca conseguimos extirpar. Pelo contrário: num tempo de comunicação instantânea e fácil comunicação horizontal, a amalgamação é uma das receitas de sucesso dos mais diferentes populismos. Damos muita atenção ao que à feito para as bandas do Chega (um dos mais recentes posts de Ventura no Facebook é um bom exemplo deste jogo de amalgamações e indignações: “Porque é que o Centeno e Manuel Pinho têm direito a reformas antecipadas e milionárias e a maioria dos portugueses tem de se matar a trabalhar quase até aos 70 anos?”), muito menos atenção ao que ouvimos vindos de outras bandas. Felizmente esta semana a Climáximo, com a sua habitual histrionia, veio não só recordar-nos os limites do absurdo, como confrontar-nos com aquele que é cada vez mais o discurso monotemático de boa parte das esquerdas.
Na religião apocalíptica praticada por estes devotos da Igreja Universal da Climatologia, como muito certeiramente em tempos lhe chamou Paulo Tunhas, é muito fácil explicar o mundo: “O capitalismo fóssil oferece-nos um futuro de escassez, desigualdade, militarização e colapso climático acelerado” escrevia-se esta semana a propósito da tempestade Kristin, que como se sabe só aconteceu porque vivemos “subordinados à sede de lucro vampírica das grandes empresas.”
Na linha destes raciocínios, estes radicais passaram a semana a cortar ruas (no Areeiro, em Lisboa), a vandalizar a fachada de uma empresa, a roubarem supermercados ou a organizarem manifestações pindéricas (mas abusivas). Os objectivos vão variando conforme o cenário, mas o inimigo nunca muda, pois “vivemos na derradeira guerra da Humanidade” já que “assistimos à escalada das agressões imperialistas para poder extrair, controlar e produzir mais combustíveis fósseis, acelerando a humanidade em direção ao colapso climático e social”, isto sem esquecer “a militarização das fronteiras europeias que fazem das pessoas migrantes alvos de ataque” e, claro, o país que encarna todos os males, Israel, a “bota na Ásia ocidental” do “chamado ‘mundo livre’”. Isto enquanto ora se fala “do imperialismo e de políticas bélicas, genocidas e fascistas”, ora se defende que “ninguém devia ter que pagar para comer enquanto os ricos lucram como nunca”…
Nesta sopa de letras onde cabe tudo e é indiferente a ordem das palavras, aquilo que está sempre presente são os ódios eternos das esquerdas radicais, seja qual for a vestimenta mais ou menos modernaça que apresentem. Por isso mesmo Paulo Tunhas, no indispensável texto que já referi – “Introdução ao ecopopulismo” – chamava a atenção para o discurso de icónica suma sacerdotisa da agremiação, a inevitável Greta Thunberg, que já na altura (2019) escrevia que a “crise climática” fora “criada e alimentada” pelos “sistemas de opressão coloniais, racistas e patriarcais”, pelo que “temos de os demolir todos”. Naturalmente que, nesta linha, o passo seguinte foram as flotilhas de Gaza, o que de resto faz jus à tradição do anticapitalismo radical.
(Foi recentemente publicado um livro importante sobre estas ligações, The Revolutionists, de Jason Burke, que reconstitui as ligações entre os radicais europeus que derivaram para o terrorismo na década de 1970 e os terroristas palestinianos de então, sendo que tanto nessa altura como agora havia muito pouca noção de como essa aliança era contraditória: hoje são os militantes LGBTIQA+ que desfilam ao lado de mulheres de burka, na época eram radicais alemãs que achavam apropriado ir para acampamentos palestinianos fazer topless…)
E se amalgamação é uma regra de todos os populismos, no ecopopulismo ela supera todos os limites, como é bem visível no caso de Zack Polanski e do seu Green Party no Reino Unido, como escreveu recentemente aqui no Observador Patrícia Fernandes, recordando a forma como ele apresenta o mundo, e cito-o: “seja na luta contra os magnatas dos combustíveis fósseis ou contra o ódio anti-LGBTIQA+, são os mesmos sistemas de violência e exploração que temos de combater.”
O raciocínio é pois sempre o mesmo: o mundo pode ser descrito como fruto de sistemas de opressão, e como já não faz sentido gritar, como Marx e Engels em 1848, “Proletários de todos os países, uni-vos!”, então gritemos “Oprimidos de todos os países, uni-vos!” Isto partindo do princípio de que tudo são sistemas de opressão, já não apenas o capitalismo (ou o seu estádio supremo, o imperialismo, para seguir a máxima de Lenine), mas também o heteropatriarcado, ou os sistemas coloniais, ou o homem branco, ou os combustíveis fósseis, isto naturalmente sem esquecer a encarnação suprema de todos os males, os Estados Unidos e, ainda mais do que o Estados Unidos, “o Estado genocida sionista chamado Israel”.
E não se pense que se trata de uma moda passageira ou de um mal marginal. Em Portugal os radicais da Climáximo podem ser apenas uma mão cheia de estudantes do Camões ou da António Arroio, mas no Reino Unido o Green Party emergiu como o mais recente fenómeno político, ganhando rapidamente peso eleitoral (sobretudo entre o eleitorado feminino mais jovem) e ameaçando engolir boa parte da base eleitoral dos trabalhistas. Mais: as roupagens “verdes”, ou “climáticas”, são apenas a novas roupagens de um radicalismo que, sobretudo depois da queda do Muro de Berlim, tem procurado desesperadamente novas causas e saltitado de tema em tema conforme as modas do momento. Já tivemos os antiglobalistas da década de 1990 e do Fórum de Porto Alegre, já tivemos o “Occupy Wall Street”, já tivemos o #MeToo e o feminismo anticapitalista, já tivemos os excessos do wokismo, temos agora essa espécie de denominador comum que serve para tudo ao misturar “apocalipse climático” e causa palestiniana. Falta apenas saber o que virá a seguir.
Num tempo em que a direita tradicional e moderada está ameaçada pela subida eleitoral dos populismos identitários, esta amalgamação ecopopulista constitui porventura um desafio ainda maior para as esquerdas moderadas que, até por falta de outras causas, começam a deixar que o seu discurso também seja contaminado pelo mesmo tipo de radicalismos antiocidentais. Às vezes por puro oportunismo (onde o primeiro-ministro espanhol é campeão), outras por real convicção ou falta de outros horizontes, como é já notório em sectores do nosso Partido Socialista. Depois não se queixem.
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