A ERC não tem mãos a medir com Cristina Ferreira? – Observador

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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Paulo, o lápis azul de Trump consegue assim chegar muito longe?
Chegar longe não necessariamente em termos geográficos. Em termos geográficos nem precisa de chegar assim tão longe. A sede do FMI fica em Washington, precisamente na mesma rua da Casa Branca, na Pennsylvania Street. São 10 minutos a pé entre um local e o outro. Mas em termos institucionais, a censura de Donald Trump consegue, de facto, interferir, e de que maneira, com as nomeações para a organização internacional. A vítima, soubemos ontem, foi Ricardo Reis. A notícia veio no Financial Times. Ricardo Reis é um dos mais prestigiados economistas portugueses em todo o mundo, é sobretudo especialista em bancos centrais. Ele estava indicado para o cargo de economista-chefe do FMI, mas foi afastado da corrida porque criticou, imagine-se, a política de tarifas alfandegárias de Donald Trump. E já sabemos que quem se mete com Trump, leva. Portanto, este é mais um episódio que nos recorda que vivemos tempos muito estranhos. A maior democracia formal do mundo tem tiques cada vez mais evidentes, tiques cada vez mais ditatoriais.
Bruno, já passaram 25 anos.
25 anos desde aquela manhã de terça-feira de que toda a gente se lembra, é que todos nós nos lembramos de onde estávamos quando soubemos da notícia do ataque às Torres Gêmeas a 11 de setembro de 2001. E quando se percebeu que estávamos perante um ataque terrorista, houve uma noção quase imediata que a partir daquele momento, o mundo não voltaria a ser o mesmo. E são raros os acontecimentos que geram uma reação semelhante. Os historiadores gostam de olhar para a História de uma outra forma, desvalorizando a importância dos acontecimentos singulares, dando mais importância aos grandes movimentos ao longo do tempo. Mas a verdade é que o mundo em que vivemos atualmente é mesmo uma consequência do 11 de setembro, porque num momento estávamos no fim da História e a hegemonia norte-americana parecia incontestável. E horas depois vivíamos no mundo multipolar, com intervenção de agentes não estatais, que, por exemplo, levaram os Estados Unidos para duas guerras prolongadas e muito onerosas e cujos resultados deixaram muito a desejar. O nosso mundo mudou naquele dia e o mais impressionante é que todos nós percebemos logo que ia ser assim.
E para assinalar a data, a Tarde Política faz, a partir de Nova Iorque, entre as 17h e as 20h, o Ricardo Conceição e a Judite França vão estar em direto da cidade onde a História mudou. Antes disso, depois do jornal do meio-dia, vamos retransmitir a reconstituição dos ataques do 11 de setembro, um trabalho do André Maia e do João Miguel Santos, que emitimos pela primeira vez há cinco anos, em 2021. São 10 momentos-chave, hora a hora, do dia dos ataques que, como dizia o Bruno, fizeram parar o mundo. Paulo, voltando a um dos temas do momento, por acaso a comissão parlamentar de inquérito que o Chega quer fazer sobre Luís Neves vai avançar ou não?
Ainda não sabemos se essa comissão avança, pelo menos nos moldes que o Chega quer, com o propósito que o Chega quer. Há uma troca de argumentos entre o partido de André Ventura e o presidente da Assembleia da República. Aguiar Branco rejeitou a formulação original do Chega, onde encontrou, e citamos, “insuficiências na delimitação do objeto e dos fundamentos do inquérito parlamentar.” O partido já respondeu, aceitando apenas algumas das notas de Aguiar Branco. Diz que as dúvidas do presidente da Assembleia da República são destituídas de qualquer sustentação legal e constitucional. Portanto, vamos continuar aqui neste braço de ferro, vamos continuar a ter aqui uma troca de correspondência e de argumentos entre o Chega e a presidência do Parlamento. O prognóstico está no fim do jogo, não é?
Exato. Bruno, e a ERC não tem mais nada que fazer?
Luís, ao ler a decisão da Entidade Reguladora para a Comunicação Social sobre aquele já célebre caso de uma entrevista da apresentadora Cristina Ferreira, sobre um caso de violação de uma jovem, temos de chegar à conclusão que o volume de trabalho na ERC deve ser muito escasso, porque aquilo é todo um conjunto de interpretações jurídico-psicológicas sobre as declarações de Cristina Ferreira e que no fundo não faz mais do que aplicar uma camada de verniz às centenas e milhares de comentários que na altura se espalharam pelas redes sociais. A ERC considera, por exemplo, que o enquadramento conferido ao tema coloca frequentemente como dubitável o não consentimento da vítima, transferindo para si a responsabilidade e culpabilização, estabelecendo uma relação causa e efeito da violência sexual, colocando nela o potencial de evitar semelhante desfecho. Bem, desta vez foi sobre um caso de violência sexual, mas imaginamos então que a ERC tenha de se pronunciar sobre os mais variados assuntos que são comentados diariamente na comunicação social, do bullying ao alcoolismo, do racismo à violência no futebol, e não se percebe exatamente qual é a utilidade desta, que na prática se torna uma polícia do discurso.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
