“A curiosidade mórbida existe para nos ajudar a sobreviver” – Observador

“A curiosidade mórbida existe para nos ajudar a sobreviver” – Observador


Coltan Scrivner é um dos principais especialistas mundiais em curiosidade mórbida, um campo de estudo da ciência comportamental que ainda está a dar os primeiros passos. A expressão é facilmente mal interpretada (afinal, o adjetivo “mórbido” raramente se refere a algo bom), mas significa apenas um interesse particular por coisas que são ameaçadoras ou potencialmente perigosas, como serial killers ou casas assombradas. Não se trata de uma curiosidade “má”, apenas de um tipo que está relacionado com um conjunto de interesses que podem ser descritos como “mórbidos” e aos quais, apesar disso, milhares de pessoas dedicam diariamente várias horas do seu dia. Para alguns, não deixa de ser surpreendente que haja quem dedique tanto do seu tempo livre a ver de enfiada séries de true crime numa qualquer plataforma de streaming. Contudo, para muitos outros, não existe melhor maneira de passar um domingo.

Scrivner, cientista comportamental por formação e programador de cinema de terror por vocação, tem dedicado os últimos anos a tentar perceber porque é os humanos sentem tanta curiosidade por coisas relacionadas com a violência e a morte. Por outras palavras: porque é que são curiosamente mórbidos. A sua pesquisa levou-o aos primórdios da humanidade e fê-lo olhar com mais atenção para uma característica inerente a todos os seres vivos: o instinto de sobrevivência. As suas conclusões, e também as de outros especialistas de várias áreas da ciência, foram reunidas no livro Curiosidade Mórbida, recentemente publicado em Portugal pela Temas e Debates (com tradução de Artur Lopes Cardoso). Aproveitámos a oportunidade para falar com o cientista norte-americano.

Título: “Curiosidade Mórbida” | Autor: “Coltan Scrivner” | Tradução: Artur Lopes Cardoso | Editora: Temas e Debates | Páginas: 280

Em termos científicos, o que é que significa ser curiosamente mórbido?
De forma simples, significa ter interesse em coisas que são perigosas ou em aprender sobre coisas que são perigosas. A curiosidade mórbida não é uma curiosidade patológica ou má; significa apenas ter interesse em aprender sobre coisas que podem ser más.

A curiosidade pode ser má?
Acho que depende da pessoa a quem fizer essa pergunta. A curiosidade pode colocar-nos em situações das quais às vezes é difícil sair, mas não sei se existe um tipo de curiosidade inerentemente mau. De acordo com a minha experiência, às vezes as pessoas pensam que a curiosidade mórbida é má por causa do nome. A palavra “mórbida” faz com que pensem que é uma curiosidade má ou que existe algo de errado com as pessoas que se interessam por esses tópicos, mas não foi isso que descobri com a minha investigação.

Todos temos esta curiosidade? Ou é coisa exclusiva das pessoas que gostam de filmes de terror ou de livros de terror?
Todos a temos, precisamente. E tal como existem pessoas que são mais extrovertidas ou mais introvertidas, ou que são mais ou menos abertas a novas experiências, também existem pessoas que têm muita curiosidade mórbida e outras que têm apenas um bocadinho, e a maioria está algures no meio.

Funciona de maneira semelhante à ansiedade?
Pode funcionar. E, às vezes, as pessoas que são ansiosas são mais morbidamente curiosas, porque prestam mais atenção às coisas perigosas que existem à volta delas.

No livro, explica que a curiosidade mórbida está relacionada com o nosso instinto e que pode servir como medida preventiva contra potenciais perigos.
Exato. A curiosidade mórbida existe para nos ajudar a sobreviver e é quando estamos mais seguros que mais curiosidade temos. Isso também acontece com outros animais. A maioria dos animais beneficia com o facto de sentir curiosidade em relação a coisas que são perigosas. Se forem completamente alheios a isso, podem ser apanhados desprevenidos e ser surpreendidos por um predador ou por alguma coisa perigosa em seu redor. Na natureza, é normal ser curioso em relação a coisas que são perigosas. A diferença é que nós, humanos, podemos criar situações que não nos afetam muito quando interagimos com elas. Por isso é que criamos histórias. Podemos aprender muito sobre coisas perigosas com uma história, seja ela noticiosa ou ficcional, sem que tenhamos de nos expor ao perigo. Isso faz com que esse tipo de histórias seja muito atrativo e que os humanos sejam particularmente curiosamente mórbidos, mas essa tendência está relacionada com uma área evolutiva do nosso cérebro, que é muito antiga e que lida com a gestão das ameaças.





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