Ministro israelense diz que vai revogar cidadania de cineastas por documentário sobre Gaza

O ministro da Cultura de Israel, Miki Zohar, fez uma postagem nesta segunda-feira, 14, no X, antigo Twitter, dizendo que revogaria a cidadania dos cineastas Yuval Abraham e Rachel Szor, dupla israelense que ganhou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cinema de Veneza por seu documentário sobre o genocídio na Faixa de Gaza.
Na publicação, Zohar afirmou que a vitória do filme é chocante e classificou a obra cinematográfica como “desprezível”. “O ódio próprio ardente dos criadores, que estão dispostos a ferir sua pátria para receber aplausos dos antissemitas no mundo, é inconcebível e constitui uma traição ao país”, escreveu.
O ministro também reforçou que vai “agir imediatamente” para tirar a cidadania israelense dos dois cineastas, que chamou de “desprezíveis por traição contra o Estado”.
Segundo a sinopse oficial do Festival de Cinema em Veneza, a produção busca revelar como sistemas de inteligência artificial são usados pelas forças armadas israelenses para cometer “assassinatos em massa calculados” de palestinos em Gaza. Após sua exibição no evento, os espectadores aplaudiram o filme de pé durante 25 minutos.
Discurso de Abraham
Em sua fala após ganhar a premiação, Abraham destacou a rejeição do filme por parte dos israelenses. “Penso em todas aquelas pessoas, como políticos israelenses ou jornalistas em meu país, que agora estão atacando este filme, rejeitando-o sem sequer tê-lo assistido. Tanto esforço está sendo feito para evitar encarar a realidade”, disse.
O cineasta também reforçou a quantidade de crianças mortas em Gaza diariamente e a forma como esse massacre acontece de forma sistêmica, não aleatória. “Desde o início deste festival, em pouco mais de dez dias, Israel matou seis crianças palestinas em Gaza: uma menina de três anos em uma escola bombardeada, um menino de sete anos com o pai no carro e duas irmãs dormindo em casa”, ressaltou.
Além disso, Abraham também lembrou dos mais de 200 jornalistas palestinos assassinados por Israel em Gaza desde o início da guerra. “Suas vozes foram silenciadas e negadas. Acreditamos que negar um crime é o que permite que ele persista”, concluiu.
IA e rede de telecomunicações
Homens e mulheres das forças israelenses explicam, no documentário, como criaram e utilizaram sistemas com IA que, a partir da rede de telecomunicações de Gaza controlada por Israel, identificavam pessoas que depois se tornariam alvo de bombardeios.
“No filme mostramos como podem usar um programa espião para abrir os telefones das pessoas no prédio e escutar o que realmente está acontecendo: os últimos momentos das crianças, das mulheres, dos homens que vão ser bombardeados”, explica Szor.
Como relatam os próprios testemunhos, para cada alvo que querem eliminar, várias vítimas colaterais, até centenas, vão morrer no mesmo ataque.
O título do filme, NAZA, faz referência justamente ao eufemismo usado pelos serviços de inteligência israelenses para indicar o número de civis que provavelmente morrerão no bombardeio.
“A vigilância em massa está diretamente ligada aos massacres em massa e, além disso, permitiu criar uma série de justificativas para essas matanças”, indica Abraham.
A guerra empreendida por Israel causou mais de 73. 500 mortes e deixou 174. 500 feridos do lado palestino desde outubro de 2023, segundo o Ministério da Saúde do enclave, dirigido pelo Hamas, cujos dados são considerados confiáveis pela ONU. O conflito foi desencadeado após o ataque terrorista do grupo armado em 7 de outubro de 2023 contra Israel, que deixou mais de 1. 200 mortos, em sua maioria civis, e viu 251 serem levados como reféns para Gaza.
Anos de investigação
Os depoimentos no documentário, a partir de entrevistas realizadas em terraços de Tel Aviv, durante a noite, são fruto de anos de trabalho de investigação para poder criar uma possível relação de confiança.
Mas os próprios realizadores se surpreenderam com o fato de essas pessoas terem falado com tanta precisão sobre as operações.
“Como é possível que tanta gente — eram 24, mas havia mais que não aparecem no filme — estivesse disposta a revelar detalhes do sistema, falar dos crimes horríveis que haviam cometido? “, se pergunta Szor.
Com NAZA, o único documentário em competição pelo Leão de Ouro, Abraham e Szor esperam que sirva para que o Ocidente abandone seu apoio diplomático e militar a Israel e imponha sanções.
“Nós, que estamos dentro de Israel e da Palestina tentando lutar por uma mudança, precisamos disso”, disse Abraham. “Estão enfraquecendo as pessoas aqui dentro, que apoiam os direitos humanos e uma solução política, ao se recusarem a agir”, advertiu.
No ano passado, os dois jornalistas investigativos, junto com os palestinos Basel Adra e Hamdan Ballal, ganharam um Oscar de melhor documentário com “Sem Chão”, sobre a violência dos colonos israelenses na Cisjordânia Ocupada.
Na edição passada da Mostra de Veneza, “A voz de Hind Rajab”, sobre uma criança palestina assassinada pelas forças israelenses enquanto fugia da Cidade de Gaza, comoveu todo o festival.
(Com informações da AFP)
