Em ‘Impasse’ de André Singer, o enfraquecimento do lulismo – 11/09/2026 – Mario Sergio Conti

Em ‘Impasse’ de André Singer, o enfraquecimento do lulismo – 11/09/2026 – Mario Sergio Conti


O recém-lançado “Impasse” é o livro mais sombrio de André Singer. Cientista político e ex-secretário de imprensa no primeiro mandato do PT no Planalto, ele elaborou o conceito de lulismo —o reformismo fraco, com distribuição de renda sem conflitos e manutenção da ordem social que produz a desigualdade.

O impasse a que o livro se refere vem da dificuldade de o presidente acomodar os interesses díspares da frente que o elegeu. Numa ponta está o empresariado. Ele não quer apenas o fim das aposentadorias reguladas pelo salário mínimo. Almeja, como defendeu Armínio Fraga, congelar o mínimo por nada menos que seis anos.

A elite cosmopolita amaria capar as verbas obrigatórias da saúde e da educação. O que ela chama de “controle fiscal”, Singer traduz como “abolir as grandes despesas públicas de interesse popular”. O corolário desse programa seria a privatização ampla, geral e irrestrita, se possível, de nacos da Petrobras, das universidades públicas e, valha-me Malafaia, do SUS.

Na outra ponta da geringonça eleitoral que pôs Lula no Planalto, qual é o interesse popular? Pois bem: à metade do povo interessa o retorno da extrema direita ao poder. É o que dizem pesquisas eleitorais.

Bolsonaro sabotou as vacinas contra a Covid e 100 mil morreram. Afrouxou a proteção do meio ambiente, liberou queimadas e garimpos na Amazônia. Encheu a Esplanada de primatas verde-oliva, incitou o obscurantismo e, cereja no bolo, traficou joias árabes. Planejou matar Lula e Alckmin para instalar uma ditadura. É um brucutu.

Contudo, metade dos 154 milhões dos aptos a votar lhe admira o prontuário e cogita eleger seu pimpolho, justamente porque prometeu anistiar papai no dia da posse. Muita coisa pode mudar até a eleição, óbvio, mas durma-se com um barulho desse.

Não é à toa, pois, que “Impasse” tem como subtítulo “O Brasil e a Onda Reacionária”. Da eleição à reeleição de Trump, de Meloni na Itália à vitória há dias da Alternativa para a Alemanha, do desgrenhado Milei ao janotinha Bukele —a vaga protofascista é um tsunami global.

Como os governos da esquerda perfumada, do centro ponderado e da direita clássica não atendem às expectativas do povão, a extrema direita avança. Isso ocorre, em parte, porque a economia deixou a alçada dos políticos e passou às mãos dos bancos centrais independentes —que não são autônomos em relação ao grande capital, muito pelo contrário.

Bolsonaro foi precursor da mobilização de extrema direita. Culpou os políticos por todas as mazelas —sobretudo os comunistas, apesar de extintos no Pleistoceno. Insuflou o ressentimento das massas e triunfou. Mas, no governo, não rompeu com a política tradicional: aliou-se à sua banda mais torpe, o centrão, e delegou a economia ao Banco Central, assessorado por Paulo Guedes. Perdeu por pouco a reeleição.

Na terceira encarnação de Lula, o salário mínimo cresceu, isentou-se do imposto de renda quem ganha menos de R$ 8.000 e o desemprego caiu. Apesar disso, disseminou-se a percepção de que se fez pouco, o país marca passo, os problemas se acumulam, não há perspectivas claras para o futuro. O reformismo fraco do lulismo enfraqueceu-se e a extrema direita está aí.

Singer acha problemática a sustentação da democracia se o impasse persistir. “Sem reindustrialização, fica difícil oferecer perspectivas para a baixa classe média, segmento decisivo com vistas a brecar a onda reacionária”, escreve. Seria preciso, ainda, elaborar uma alternativa viável à sempre suspeita negociação do Planalto com o centrão.

“Impasse”, terminado no ano passado, não acompanhou a degradação da política de lá para cá. Depois de se assenhorarem de bairros, regiões e até cidades, PCC, Comando Vermelho e congêneres disputam parlamentos e prefeituras. O banditismo tomou até o Supremo.

Um capo mafioso, Daniel Vorcaro, comprou vossas excelências. Pagou-lhes uma baba em negociatas imobiliárias, contratos jurídicos fajutos, passeios de jatinho, regabofes em Londres, farofadas em Porto Seguro, bacanais de deixar o celular na porta. Como nos filmes de gângster, juízes dão proteção a criminosos que acendem charutos com notas de dólar.

Para influir nas eleições, os guardiões da Constituição dão-se rasteiras, apunhalam confrades pelas costas, armam-lhes armadilhas processuais. Posam de vestais e perpetram vazamentos a conta-gotas, liminares bizantinas, arapucas monocráticas, desabusadas chicanas. A perigo, a democracia está na mão de rábulas.


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