Pole dance: preconceito ainda entrava reconhecimento profissional; veja vídeo
Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
Por André Delattre, João Delattre, Pedro Dias e Mariana Mazzaro
Apesar de ter conquistado espaço em estúdios, competições, espetáculos e práticas esportivas, o pole dance ainda enfrenta preconceitos relacionados à sua associação histórica com a sensualidade e o entretenimento erótico.
Para profissionais da área, a falta de informação contribui para reduzir uma modalidade que exige força, técnica, flexibilidade e preparo físico a um único estereótipo.
A instrutora e empreendedora Beatriz Hamamoto Sobral, de 29 anos, afirma que já ouviu comentários que relacionam automaticamente quem pratica pole dance ao trabalho como stripper.
Para ela, combater esse tipo de preconceito passa por ampliar o conhecimento sobre as diferentes formas de praticar e trabalhar com a modalidade.
Do estereótipo à diversidade
O pole dance combina dança, acrobacias, giros, figuras, transições, musicalidade e expressão corporal. Além da vertente artística e dançada, existe também o pole esporte, que prioriza força, resistência, execução técnica e desempenho físico. As duas modalidades exigem progressão, preparo muscular e orientação adequada.
A associação entre pole dance e sensualidade, segundo Beatriz, não deve ser simplesmente apagada. A modalidade possui, de fato, uma história relacionada a diferentes formas de performance corporal, incluindo o burlesque, o circo e o entretenimento erótico. O problema surge quando essa trajetória é utilizada para definir todas as pessoas que praticam ou trabalham com pole.
Para ela, uma pessoa pode trabalhar com pole em um clube de strip, enquanto outra pode atuar como professora, atleta ou performer em espetáculos. São contextos diferentes de uma mesma prática.

Pole, como profissão, exige preparo
Além do preconceito relacionado à sexualidade, profissionais também enfrentam a desvalorização das atividades ligadas à dança e ao ensino. No pole dance, a preparação técnica ganha ainda mais importância porque os movimentos podem envolver suspensão do corpo, força, flexibilidade e diferentes níveis de complexidade.
Para ensinar com segurança, o profissional precisa conhecer progressões, respeitar os limites individuais e compreender as necessidades de diferentes corpos.
“A evolução deve acontecer de maneira gradual, evitando sobrecargas e possíveis lesões”, diz a artista
Beatriz começou a praticar pole em 2017, aos 20 anos, depois de ter experimentado uma aula aos 16. Inicialmente, a atividade era uma fonte de renda complementar enquanto cursava Letras-Tradução na Universidade de Brasília (UnB) e trabalhava como tradutora.
Com o aumento das turmas, as aulas passaram a representar uma renda maior do que os trabalhos de tradução. Hoje, ela soma nove anos de prática, sete anos como professora e três anos à frente do próprio estúdio.
Corpo além da aparência
Para além do condicionamento físico, o pole também pode transformar a relação dos praticantes com o próprio corpo. A modalidade trabalha força muscular, mobilidade, coordenação, resistência, postura, consciência corporal e expressão.
Segundo Beatriz, muitas pessoas chegam às aulas inicialmente motivadas por questões estéticas, mas passam a perceber o corpo por uma perspectiva diferente durante o processo. Em vez de enxergá-lo apenas pela aparência, começam a reconhecer suas capacidades, conquistas e possibilidades de movimento.
A prática também pode contribuir para autoestima, autoconfiança, redução do estresse e desenvolvimento da expressão pessoal. Nesse contexto, o corpo deixa de ser apenas objeto de avaliação e passa a ser uma ferramenta para movimento, força e expressão.
Uma modalidade para diferentes corpos
Outro ponto destacado por profissionais da área é que não existe um corpo ideal para praticar pole dance. Pessoas com diferentes idades, biotipos e níveis de condicionamento podem iniciar a modalidade, desde que respeitem seus próprios limites e tenham acompanhamento adequado.
Embora seja majoritariamente praticado por mulheres, o pole dance também é praticado por homens, tanto em propostas esportivas quanto artísticas. A modalidade, portanto, não está restrita a um gênero ou padrão corporal específico.
Informação como caminho para combater o preconceito
Para Beatriz, ampliar a visibilidade é uma das principais formas de mudar a percepção social sobre o pole dance. A presença da modalidade em escolas de dança, teatros, competições, eventos, shows e espetáculos ajuda a apresentar ao público uma realidade mais ampla do que aquela limitada ao estereótipo da sensualidade.
O objetivo, segundo a instrutora, não é negar a história do pole nem considerar a sensualidade algo negativo. A questão é reconhecer que ela representa apenas uma das possibilidades de expressão dentro de uma modalidade que também envolve esporte, arte, dança, acrobacia, força e autoconhecimento.
Quanto maior for o contato do público com essa diversidade, menor tende a ser o espaço para associações automáticas. Para os profissionais, o reconhecimento passa justamente por mostrar que, por trás de cada movimento, existe técnica, estudo, planejamento, responsabilidade e trabalho.
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira
