Mobilidade social: renda do pai define destino do filho – 31/07/2026 – Economia

Mobilidade social: renda do pai define destino do filho – 31/07/2026 – Economia


Vários estudos já mostraram que pessoas pobres no Brasil enfrentam diferentes barreiras para subir na pirâmide social. O Imds (Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social) acaba de esmiuçar novos dados que reforçam essa rigidez, mas olhando a partir do topo: quem é rico tende a permanecer lá em cima.

Esse retrato consta da nova edição do Atlas da Mobilidade Social, uma plataforma pública e interativa desenvolvida pelo Imds em parceria com o Prospera Lab, grupo de pesquisa que estuda temas sociais e políticas públicas no Brasil, em colaboração com instituições no país e no exterior.

Nessa análise expandida, constatou-se que mais da metade (56,5%) dos filhos dos 25% mais ricos continuam nessa faixa e 30,88% chegam ao grupo dos 10% mais ricos. Do outro lado, apenas 8,3% dos filhos dos 25% mais pobres conseguiram subir, sendo que uma parcela bem restrita de 1,28% chegou ao estrato dos 10% com maior renda do país.

Considerando filhos de famílias com renda média, 17,57% chegaram aos 25% mais ricos e só 3,92% alcançaram os 10% mais ricos.

Em resumo: quem nasce rico tem quase sete vezes mais chance de permanecer rico do que um pobre de enriquecer.

“Como a sociedade brasileira é extremamente estratificada por renda, a renda dos pais é um determinante muito forte do destino dos filhos”, explica o presidente do Imds, Paulo Tafner. O pesquisador afirma que a nova versão amplia os recortes geracional e de renda.

Enquanto a primeira versão, disponível desde junho do ano passado, observava um único bloco de pessoas nascidas entre 1983 e 1990, para a segunda edição a série foi quebrada, permitindo a comparação de duas gerações.

A primeira reúne pessoas nascidas entre 1983 e 1987, e a segunda, entre 1988 e 1990.

“A edição original media principalmente as chances de ascensão de quem nascia na metade mais pobre da população. Agora, o retrato ampliado traz novos estratos de renda, incluindo os segmentos de renda média e os mais ricos, o que permite medir não apenas quem consegue subir, mas também quem permanece no topo”, afirma o pesquisador do Imds, Leandro Rocha.

Para viabilizar a comparação, os valores foram ajustados a dezembro de 2019. A renda familiar média mensal dos 25% mais ricos era, então, de R$ 7.266,03. Os 10% mais ricos tinham renda superior a R$ 13.773,14 por mês. As famílias do segmento de renda média recebiam cerca de R$ 3.850 por mês. Os 25% mais pobres ganhavam até R$ 2.183,41 por mês.

A título de ilustração, reajustando os valores pela inflação medida pelo IPCA, a renda dos mais ricos estaria atualmente acima de R$ 10.600, sendo que os 10% do topo receberiam acima de R$ 20.100. A chamada classe média, cerca de R$ 5.600 por mês. Os mais pobres teriam renda familiar mensal de até R$ 3.200.

A comparação entre as duas gerações mostra que o avanço foi pequeno.

Filhos de pais mais pobres que nasceram entre 1983 e 1987 tinham 7,9% de chance de chegar ao grupo dos mais ricos quando adultos. Nos nascidos de 1988 a 1990, essa probabilidade subiu levemente para 8,8%.

A mesma rigidez foi identificada entre os filhos de famílias de renda média: a probabilidade de conseguir ficar entre os mais ricos quando adultos passou de 16,6% para 18,6% no mesmo período —o que para os pesquisadores do Imds é uma variação pequena, que reforça a persistência da baixa mobilidade social no Brasil.

A plataforma também permite analisar desigualdades entre raça e gênero.

Entre brancos que nasceram em famílias mais pobres, 36,32% permanecem nesse grupo quando adultos. Entre os não brancos, a probabilidade de continuar pobre sobe para 51,64%.

Entre as mulheres que nasceram em famílias mais pobres, cerca de 65% permaneceram nesse grupo na vida adulta. Entre os homens, a taxa foi de 32,95%. Se o recorte comparar mulheres pela cor, a disparidade se acentua: 69% das mulheres não brancas ficam entre os mais pobres, enquanto entre mulheres brancas a parcela é de 52,9%.

A atualização do atlas ainda incorpora 38 indicadores socioeconômicos municipais, como educação, mercado de trabalho e condições locais, para ajudar a identificar os fatores associados à mobilidade social.

Por exemplo, fica claro nas comparações geracionais que educação ajudou a atenuar a rigidez social.

A mobilidade se mostrou maior em municípios que atingiram posições melhores no Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). A probabilidade de ascensão também aumentou quando os pais tinham mais escolaridade. Como os filhos de famílias com mais dinheiro têm mais acesso à educação, e os filhos de famílias pobres, menos, as disparidades tendem a se perpetuar sem apoio de políticas públicas.

Esses indicadores adicionais também ajudam a identificar associações entre as condições do território de origem e as chances de mobilidade. Há indicativos de que cidades e estados com maior formalização do mercado de trabalho, mais dinamismo econômico e melhores condições de infraestrutura conseguem oferecer mais oportunidades para que filhos de famílias pobres melhorem de vida.

Assim, duas crianças com renda familiar semelhante podem ter trajetórias muito diferentes a depender do lugar onde nasceram.

O Acre apresentou a maior persistência da pobreza. No estado, 62% dos filhos das famílias mais pobres permaneceram nesse grupo quando adultos. Os dez piores resultados apareceram nas regiões Norte e Nordeste. No Sul foi o inverso. A probabilidade de um filho de pobre continuar entre os mais pobres ficou em 12,4% em Santa Catarina, 18,4% no Paraná e 20,7% no Rio Grande do Sul.

ENTENDA OS CRITÉRIOS

  • As análises do atlas são sustentadas por registros de fontes oficiais: Receita Federal, Ministérios do Trabalho e Emprego e do Desenvolvimento Social, além de pesquisas domiciliares do IBGE.
  • Os números do mapeamento têm como base os dados e a metodologia desenvolvidos no artigo acadêmico Intergenerational Mobility in the Land of Inequality (Britto et al., 2025).
  • Os grupos de renda foram definidos em relação à distribuição nacional, e não à distribuição interna de cada município. Uma pessoa pobre em um município de renda elevada pode ser classificada como rica no contexto nacional, enquanto uma pessoa rica em um município de baixa renda pode não ocupar os estratos superiores da distribuição nacional.



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