“vender” o Mundial – Observador

“A todos os que estão por trás das canetas e papéis, por trás dos ecrãs a espalhar ódio e falsos rumores, só quero dizer que, enquanto vocês estão aí sentados, nós, na FIFA, estamos na linha da frente a organizar, a trabalhar arduamente e a entregar o melhor espetáculo do mundo. Não registámos violência, não tivemos incidentes. Tivemos 100% de segurança, apenas alegria e felicidade. Lamento muito que estejam tão consumidos pelo ódio e pela crítica que não tenham conseguido ver absolutamente nada. O futebol não é política, o futebol é união. Esta competição demonstrou isso de forma impressionante.
Mencionaram as poucas pessoas a quem foram negados vistos e ignoraram os milhões de vistos que foram aprovados para cidadãos de todas as partes do planeta. O Irão entrou nos Estados Unidos sem incidentes ou conflitos. A seleção iraniana recebeu vistos porque o futebol é sobre paz, não é sobre política. Países que enfrentam graves crises de saúde ou outros países com problemas estruturais também receberam vistos. Quando o futebol trouxe o Haiti ao mundo – um país que muitos não conseguem ou optam por não visitar –, talvez tenha chegado o momento de pousarem as canetas e teclados e mostrarem algum respeito pelas equipas que jogaram.
Decisões de arbitragem potencialmente erradas, cartões amarelos ou vermelhos discutíveis, ou decisões subsequentes de não suspender jogadores em certas situações, são rotineiras e amplamente aceites em algumas das maiores ligas do mundo. É curioso que os mesmos países que empregam estas práticas no seu dia a dia sejam exatamente os primeiros a criticar. Àqueles que gastam o seu tempo e energia a odiar-nos, por favor, tirem um momento para refletir, meditar, rezar ou simplesmente ver um jogo de futebol e observar verdadeiramente os rostos, os olhos e as emoções das pessoas. Que o futebol se eleve acima de todo o ódio.”
A carta aberta de Gianni Infantino a fazer quase um balanço do Mundial de 2026 nos Estados Unidos, no México e no Canadá soava quase a “vingança”. No mínimo, uma resposta a todos os críticos. E sempre na mesma lógica: quase todos preferiram olhar para a árvore, muito poucos conseguiram ver a floresta. Com mais ou menos razão, agora a notícia é outra – e esse mesmo sucesso pode agora passar para as mãos de outros… não deixando de ficar nas suas mãos, a partir de 2031. Como? Vendendo a prova a privados.
De acordo com o The Times, que avançou com a informação antes do The Athletic e do The Telegraph darem mais pormenores sobre o que está em causa, Infantino pretende ser o líder de uma nova entidade comercial que seria criada pela própria FIFA, a FIFA Forward Enterprise, que estaria avaliada num montante a rondar os 20 mil milhões de dólares. Para quê? Era aqui que ficariam alojados os maiores acordos no plano comercial, fosse a nível de patrocínios, fosse nos direitos televisivos, fosse ainda nas partes mais comerciais que estivessem ligadas a todas as competições organizadas pelo órgão que tutela o futebol mundial, logo a começar pelo Campeonato do Mundo. Mas há mais neste plano: por forma a garantir uma maior injeção de capital, a FIFA estaria disposta a vender 20% desse capital por mais de quatro mil milhões de dólares.
Ao The Times, a FIFA confirmou que está a montar toda a operação com a ajuda do banco norte-americano JP Morgan e que existe já um fundo, o Thrive Eternal, que está interessado como potencial comprador de parte desse capital a alienar (sem especificar quanto). Curiosidade: o fundo pertence a Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner que é cunhado de Ivanka Trump, filha do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Esta mudança também dará a possibilidade de Infantino, enquanto novo líder da FIFA Forward Entreprise, receber de forma “legal” um ordenado (por sinal chorudo, acrescente-se).
O objetivo da FIFA passa por chegar ao ano de 2030 com um valor superior aos 14 mil milhões de dólares de receitas, potenciado também por um cada vez mais provável aumento do número de equipas no Mundial de Clubes e no Mundial de seleções. As 211 federações que fazem parte do órgão “sentirão” esse impacto também nas verbas que recebem na FIFA, que neste caso poderia subir para dois milhões de dólares cada além de outros projetos ligados ao futebol que teriam dessa forma “sustento” para passarem à prática.
A UEFA já reagiu a esta possibilidade, mostrando-se veementemente contra a ideia. “A UEFA leva este assunto muito a sério. Assim também o deveria fazer cada federação nacional e cada parte interessada: ligas, clubes, jogadores, adeptos, governos e todos os que se preocupam com o futuro do jogo. A alma e a governação do futebol não são ativos para serem negociados – especialmente quando não existe transparência sobre quem beneficia financeiramente. Ninguém é dono do futebol, não cabe à FIFA vendê-lo”, escreveu o órgão num comunicado emitido depois de ter saído a notícia original do The Times.
