Brasil e Argentina vivem maior crise diplomática em 30 anos
O Brasil e a Argentina vivem uma grave crise diplomática desde a participação turbulenta do presidente argentino Javier Milei na convenção partidária do PL, que confirmou o senador Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência da República no último sábado, 25.
Em solo brasileiro, Milei disparou ofensas diretas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), chamando-o de “presidiário”. O líder argentino também criticou a economia brasileira e, sem citar o nome diretamente, chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, de “lixo careca”.
As declarações provocaram reações imediatas do governo federal. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, manifestou pessoalmente o repúdio do Brasil ao embaixador da Argentina, Daniel Raimondi. Já o ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou Milei de “palhaço” ao rebater as críticas à economia brasileira.
Especialistas e a própria imprensa dos dois países apontam este momento como o pior e mais profundo tensionamento nas relações bilaterais dos últimos 30 anos.
203 anos de amizade manchada
Em nota divulgada na segunda-feira, 27, o Ministério das Relações Exteriores classificou a postura de Milei como inédita nas relações entre os dois países.
“Não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário e ao povo brasileiro”, afirmou a pasta.
O Itamaraty lembrou ainda que Brasil e Argentina mantêm 203 anos de relações diplomáticas e destacou que o país vizinho é um dos principais parceiros comerciais brasileiros.
Última grande crise ocorreu em 1973
A última grande crise entre os dois países ocorreu em 1973, quando o Brasil assinou o Tratado de Itaipu com o Paraguai. Na época, a Argentina manifestou contrariedade à exploração das águas transfronteiriças da bacia compartilhada pelos dois países, o que gerou um embate diplomático.
Como resposta, os argentinos tentaram viabilizar, em parceria com o Paraguai, a construção da Usina de Corpus, prevista para ser instalada a cerca de 250 quilômetros de Itaipu. O projeto, porém, nunca saiu do papel.
Desde então, prevaleceu um cenário de diálogo bilateral entre os governos. Esse quadro começou a se deteriorar durante as gestões dos então presidentes Jair Bolsonaro e Alberto Fernández, considerado por analistas um antecedente da crise atual.
Ação cautelosa
Apesar do embate político, o Itamaraty trabalha para preservar a relação comercial entre os dois países. A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil e um mercado estratégico para a indústria automotiva nacional.
A estratégia do governo brasileiro é manter o conflito restrito ao campo político e ideológico, garantindo que as fronteiras, os acordos do Mercosul e o fluxo comercial continuem funcionando normalmente.
