Ave desaparecida das antigas rotas europeias volta a migrar em liberdade e faz biólogos celebrarem quase 200 sobreviventes
O retorno do íbis-eremita devolveu aos céus da Europa uma migração perdida havia séculos. Aves criadas em zoológicos aprenderam uma rota entre os Alpes e a Toscana e, no início de 2022, o projeto já acompanhava cerca de 200 indivíduos vivendo em liberdade.
Qual ave voltou a migrar pelos Alpes?
A espécie é o íbis-eremita, também chamado de íbis-calvo-do-norte. A ave possui plumagem escura, cabeça sem penas e bico longo e curvado, características que a tornam fácil de reconhecer durante os voos em grupo.
Ela já ocupou partes da Europa, do norte da África e do Oriente Médio, mas desapareceu da Europa Central no século XVII. Caça, perda de habitat e outras pressões humanas interromperam populações e rotas transmitidas entre gerações.

Como aves de zoológicos aprenderam uma rota migratória?
Os filhotes foram criados por cuidadoras humanas, que assumiram o papel de mães adotivas. Depois de semanas de treinamento, as aves passaram a seguir pequenos aviões ultraleves pilotados por integrantes do projeto durante a primeira viagem para o sul.
O percurso ligou áreas de reprodução ao norte dos Alpes à região de Orbetello, na Toscana. Após conhecer o caminho, parte das aves conseguiu retornar sem acompanhamento humano e transmitir a rota aos filhotes nascidos em liberdade.
O método foi construído em etapas:
Etapa
Como ocorreu
Resultado
Criação inicial
Filhotes de zoológicos
Cuidadoras formaram vínculos com as aves jovens
Confiança construída
Primeira migração
Voo guiado
Ultraleves conduziram o grupo até a Toscana
Rota aprendida
Gerações seguintes
Vida livre
Adultos ensinaram o percurso aos filhotes
Tradição restaurada
O que significa a marca de quase 200 animais em 2022?
O número se refere à população reintroduzida que vivia livre na região alpina no começo de 2022. Não representa toda a população mundial da espécie, que também possui grupos naturais ou reintroduzidos em outras partes da África, da Europa e do Oriente Médio.
Para o projeto, chegar a cerca de 200 aves mostrou que a população começava a reunir reprodução natural, aprendizado social e diferentes gerações. O objetivo seguinte passou a ser torná-la autossustentável, com menor necessidade de novas solturas e intervenções humanas.
Por que a rota entre os Alpes e a Toscana foi importante?
A migração permitiu que as aves usassem áreas adequadas em diferentes épocas do ano. Durante os meses quentes, elas se reproduziam em colônias alpinas; no inverno, encontravam clima mais favorável e alimento na região italiana.
O método também mostrou que um comportamento desaparecido pode ser reconstruído. Em vez de ensinar apenas um indivíduo, os pesquisadores criaram uma tradição migratória que passou das aves guiadas por humanos para gerações nascidas na natureza.
A recuperação depende de vários fatores:
●
Manter áreas de reprodução e alimentação protegidas
●
Acompanhar os grupos por dispositivos de rastreamento
●
Reduzir mortes em postes e redes elétricas
●
Combater disparos ilegais durante a migração
Leia também: O que diz a lei para quem circula apenas com a CNH Digital?
Quais riscos ainda ameaçam o íbis-eremita?
O crescimento não encerrou a recuperação. Tiros ilegais durante a passagem pela Itália, colisões, choques em redes elétricas e mudanças no clima continuam causando mortes e alterando o momento em que os grupos conseguem atravessar os Alpes.
O projeto LIFE Northern Bald Ibis mantém rastreamento e ações para reduzir essas perdas. A experiência amplia o conhecimento sobre a migração das aves, mas o futuro da população ainda depende de proteção contínua.
