Entreguista, Flávio Bolsonaro vai aos EUA e oferece Brasil a Trump por suspensão do tarifaço até a eleição
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- Senador Flávio Bolsonaro (PL‑RJ) chegou a Washington em 5 de julho para participar da audiência pública do USTR sobre a proposta de tarifa de 25 % a produtos brasileiros.
- Em 2 de julho, enviou ao USTR um documento de 86 páginas solicitando a suspensão imediata da tarifa e o adiamento da decisão por 180 dias, até após as eleições presidenciais no Brasil.
- A audiência da Comissão de Comércio Internacional dos EUA ocorre nos dias 6 e 7 de julho, com Flávio previsto a falar na sessão de 7 de julho.
- Em live, Flávio acusou o presidente Lula de querer a tarifação para ganho político e criticou a postura do mandatário.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) desembarcou em Washington neste domingo (5) para participar de audiência pública do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) sobre a possível taxação adicional de 25% sobre produtos brasileiros.
O filho “01” de Jair Bolsonaro (PL) já apresentou ao órgão americano um documento de 86 páginas pedindo a suspensão das tarifas, com o argumento de que a medida fortaleceria eleitoralmente o presidente Lula em vez de pressioná-lo.
A iniciativa gerou reação imediata do governo federal, que a classificou como “entreguismo”, e acendeu o alerta entre empresários brasileiros que também participam das audiências e temem que a politização do tema prejudique as negociações.
Flávio Bolsonaro nos EUA: Ação e Argumentos
A audiência do USTR será realizada na Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos nos dias 6 e 7 de julho, com a participação de Flávio Bolsonaro prevista para a sessão de terça-feira, 7. Nesta segunda-feira (6), o blogueiro Paulo Figueiredo, aliado de Eduardo Bolsonaro e ponte entre o bolsonarismo e o governo norte-americano, também se apresentou ao órgão.
Na quinta-feira (2) Flávio havia encaminhado ao USTR um documento de 86 páginas pedindo a suspensão imediata das tarifas e o adiamento de qualquer decisão por 180 dias, de modo que a medida só fosse implementada após as eleições presidenciais no Brasil.
O argumento central do senador é que as sobretaxas não pressionariam o governo Lula, mas sim o beneficiariam politicamente. “As tarifas propostas dariam ao atual governo brasileiro exatamente a vitória política que ele vem buscando, ao mesmo tempo em que puniriam a economia americana e os próprios brasileiros que buscam uma relação mutuamente benéfica com os Estados Unidos”, escreveu Flávio no documento.
Em live transmitida de Washington no domingo, ao lado do irmão Eduardo Bolsonaro, o senador foi além e afirmou que Lula é “o único no mundo que quer essa tarifação para as empresas brasileiras porque ele acha que vai ter algum retorno político”. A live, formato consagrado pelo pai Jair Bolsonaro para comunicação com a base eleitoral, também serviu para Flávio criticar o gesto do presidente Lula de mostrar o dedo do meio durante evento no Palácio do Planalto na sexta-feira anterior.
Reações e Críticas à Viagem
A resposta do governo federal foi direta. Ao comentar a carta enviada por Flávio ao USTR, o presidente Lula afirmou que os Bolsonaro agem com “entreguismo” e querem “se submeter aos interesses dos Estados Unidos”. A acusação resume a leitura do Palácio do Planalto sobre a iniciativa: um parlamentar brasileiro recorrendo a um governo estrangeiro para influenciar uma disputa comercial que afeta o próprio país.
governo brasileiro, por sua vez, não ficou inerte: em 1º de julho, protocolou formalmente junto ao USTR uma resposta às conclusões da investigação, argumentando que a Seção 301 “não concede carta branca” para impor custos comerciais ao Brasil.
Entre os empresários brasileiros inscritos na audiência, a preocupação com o que chamam de “efeito Flávio” é concreta. Representantes de setores como café, arroz, etanol e cana-de-açúcar temem que as declarações do senador e de Paulo Figueiredo acirrem os ânimos e dificultem o processo de negociação com o governo norte-americano.
O receio é específico: o USTR faz perguntas a cada um dos inscritos, e ninguém consegue prever como as falas políticas de Flávio Bolsonaro serão recebidas pelos interlocutores americanos. “Há um receio de que haja uma politização ainda maior do tema”, registraram fontes do setor produtivo. O fato de ser ano eleitoral no Brasil é apontado pelos próprios empresários como fator que complica o ambiente de negociação.
Contexto da Disputa Comercial e o “Tarifaço”
A ameaça de sobretaxar produtos brasileiros em 25% tem origem em uma investigação conduzida pelo USTR com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, legislação americana que permite ao governo dos EUA investigar e retaliar práticas comerciais consideradas desleais por parte de outros países.
No caso do Brasil, o USTR aponta supostas práticas discriminatórias em áreas como o sistema de pagamentos instantâneos Pix, propriedade intelectual e combate ao desmatamento ilegal. A decisão final sobre a aplicação ou não das tarifas cabe ao presidente Donald Trump, após recomendação do USTR, com prazo previsto para 15 de julho.
Os empresários brasileiros presentes na audiência planejam argumentar que as tarifas não resolvem as questões comerciais em disputa e podem, ao contrário, prejudicar os próprios interesses americanos. O raciocínio é direto: encarecer importações de bens e insumos industriais brasileiros pode elevar a inflação nos Estados Unidos.
Setores como café solúvel, etanol de milho e minerais críticos estão na linha de frente das negociações. O café verde já consta na lista de exceções das tarifas, mas o setor cafeeiro quer ampliar essa lista para incluir o solúvel, argumentando que o produto atende à população de menor poder aquisitivo nos EUA. A estratégia dos empresários passa também por sinalizar abertura para negociações em outras áreas, como segurança energética e propriedade intelectual.
Implicações Políticas e Econômicas
A ação de Flávio Bolsonaro em Washington não ocorre no vácuo. Em episódio anterior, Eduardo Bolsonaro chegou a admitir publicamente que atuou pela imposição de tarifas ao Brasil, o que, segundo relatos, contribuiu para que o presidente Lula recuperasse popularidade e retomasse o discurso de defesa da soberania nacional.
A estratégia de Flávio de associar as tarifas a ganhos eleitorais de Lula repete a lógica de instrumentalizar a política externa para a disputa interna, desta vez com o sinal trocado: o senador pede a suspensão das taxas, mas o faz em um fórum estrangeiro, diante de autoridades de outro governo, usando argumentos que colocam a eleição brasileira como variável central para uma decisão americana.
A preocupação dos empresários com o “efeito Flávio” traduz, em termos concretos, o risco que essa politização representa para os setores produtivos que dependem das exportações para os Estados Unidos. A presença de um parlamentar brasileiro em Washington pedindo que a decisão sobre tarifas seja adiada até depois das eleições nacionais é, no mínimo, um sinal de que a disputa comercial foi absorvida pela lógica eleitoral. Para o governo brasileiro, que apresentou argumentos técnicos e jurídicos ao USTR, a concorrência de vozes da oposição no mesmo fórum complica a construção de uma posição nacional coesa. O resultado prático é uma negociação fragmentada, em que o Brasil chega à mesa dividido, e quem decide é Donald Trump.
