Corrida é o novo futebol? Esporte cresceu 85% nos últimos dois anos

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As corridas de rua se tornaram um dos maiores fenômenos do mundo esportivo no Brasil nos últimos anos, o que se materializa no aumento do número de provas realizadas no país. Em 2024, foram realizados 2.827 eventos de corrida, número que saltou para 5.241 em 2025, o que representa um crescimento de 85%.Na Bahia, foram registradas 124 corridas pela Federação Baiana de Atletismo em 2024, enquanto aconteceram 181 eventos do tipo em 2025, o que representa um aumento de 46%.

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Os dados fazem parte do levantamento oficial da Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor, apresentados no painel de encerramento do 4º Summit ABRACEO/CBAt, realizado em São Paulo.O recorte adotado pela ABRACEO considera a legislação que regula as corridas de rua no Brasil, bases da Confederação Brasileira de Atletismo e informações das federações estaduais e do Distrito Federal.Além disso, um estudo realizado pela Olympikus em parceria com a BOX 1824 revela que cerca de 15 milhões de brasileiros correm, sendo que 2 milhões desses começaram no ano passado, um crescimento de 15%.Saúde física e mentalA rápida popularização das corridas de rua no Brasil pode estar diretamente relacionada aos benefícios à saúde que as corridas podem proporcionar, como explica Alexandre Dortas, cientista do esporte e professor da UNIFTC.“É uma atividade aeróbica que contribui com o controle de peso, melhora a parte cardiorrespiratória e traz fortalecimento muscular, além do prazer, da questão lúdica, que envolve a atividade da corrida”, detalha Dortas.A fala do especialista casa com o relato que o jovem Marco Pitangueira, de 21 anos, deu ao portal A TARDE. O estudante universitário conta que começou a correr em 2021 com a motivação de deixar o sedentarismo. Para ele, no entanto, os benefícios do esporte não se limitam à parte física:

Sinto que a corrida é o pico de felicidade no meu dia. Com ela, eu consigo me distrair, aproveitar o meio ambiente e paisagens da cidade, além de conhecer pessoas novas diariamente. Gosto de correr de manhã cedo justamente por ficar com mais disposição durante o restante do dia. Fica a sensação de dever cumprido e tranquilidade.
Marco Pitangueira – Estudante de jornalismo

Desafio na vida adultaAssim como Marco, o administrador Tadeu Tavares, de 50 anos, conta que começou a correr em 2010 para cuidar do condicionamento físico, o que evoluiu para uma atividade regular nos últimos dois anos: “Com o tempo, a corrida deixou de ser apenas exercício e passou a fazer parte da minha rotina e da minha vida”.No entanto, a prática de exercícios físicos pode parecer cada vez mais distante à medida em que é preciso conciliar o esporte com as obrigações da vida pessoal e profissional. Diante disso, Tadeu revela a forma com a qual consegue equilibrar a prática das corridas com a rotina da vida adulta.

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“O segredo, para mim, é correr muito cedo. Normalmente já estou de volta para casa antes das 6h30, então a corrida em si não atrapalha minha rotina profissional nem familiar”, explica ele.“O maior desafio acaba sendo a preparação. Para conseguir acordar antes das 4h30, preciso dormir cedo. Muitas vezes vou dormir enquanto minha família ainda está reunida na sala. Existe um equilíbrio delicado entre cuidar da saúde, manter a disciplina e também preservar os momentos com a família. A corrida ensina muito sobre organização, prioridade e constância”, complementa Tadeu.“Um tênis, disposição e vontade”Ele afirma que o esforço para incluir a corrida de rua na rotina é recompensado, não somente em relação à parte física, mas também no aspecto emocional.“Correr na rua é libertador. Existe uma sensação muito grande de independência, porque você precisa de pouca coisa para começar: somente um tênis, disposição e vontade. Eu gosto muito de correr pela manhã. Parece que o dia começa diferente. Já acordo mais disposto, com mais energia e mais foco para enfrentar a rotina.”“Também gosto muito da sensação de ver a cidade despertando. As ruas ainda estão vazias, o silêncio domina tudo e parece que aquele espaço é só seu. A corrida melhora minha disposição, minha disciplina e até a forma como enfrento os desafios do dia a dia.”

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O administrador ainda conta que levou a prática esportiva para um cenário competitivo:“Hoje já participo regularmente de provas de 10 km e já completei uma meia maratona de 21 km. Foi uma experiência maravilhosa e muito marcante para mim, mas precisei caminhar em alguns trechos da prova. Minha grande meta agora é completar a Meia Maratona de Salvador, em setembro, correndo o percurso inteiro, sem ‘quebrar’ e sem precisar andar.”“Sei que isso exige preparação, disciplina e constância, então estou trabalhando para chegar mais forte física e mentalmente”, completou ele.Corrida do LeãoEntre as competições disputadas por Tadeu está a Corrida do Leão, iniciativa do Esporte Clube Vitória para promover o esporte, como conta Guilherme Queiroz, diretor do Departamento de Marketing do clube:“O objetivo da corrida, em primeiro lugar, é incentivar a prática esportiva, cuidar da saúde, do bem-estar, da saúde mental e incentivar as pessoas. A gente vê muitos torcedores que começaram a praticar corrida ou algum outro tipo de atividade esportiva depois da corrida do Vitória”.Para além da questão esportiva, a Corrida do Leão surge como um momento de confraternização, como conta o próprio Tadeu Tavares, que participou das últimas três edições do evento.“A Corrida do Leão é a prova mais simbólica para mim. Como torcedor rubro-negro, correr ao redor do nosso estádio e terminar a prova literalmente dentro do gramado do Barradão é uma sensação impossível de explicar completamente. No último quilômetro, quando entramos no estádio, parece que o corpo deixa de responder apenas ao físico e passa a ser movido pelas batidas do coração, no ritmo dos cantos da torcida. É como chegar em casa e receber um abraço de acolhimento”, definiu ele.

Tadeu Tavares na linha de chegada da terceira edição da Corrida do Leão, no Barradão

Foto: Arquivo pessoal

Ele também falou especificamente sobre a última edição, realizada em abril deste ano:“A última, realizada na orla, teve uma emoção diferente. Havia muito mais gente, o percurso inteiro virou uma festa e o pós-prova teve uma energia inexplicável. A bateria da torcida Os Imbatíveis transformou a orla em um verdadeiro santuário rubro-negro. Foi lindo e emocionante.”Nunca é tarde para começarAssim como a população adulta encontra um obstáculo nas obrigações da vida profissional e pessoal, pessoas da terceira idade tendem a se distanciar do esporte por motivos como a falta de motivação ou a insegurança em relação à questão física. No entanto, o professor Alexandre Dortas explica que o esporte pode ser praticado em qualquer faixa etária:“A restrição de idade não existe. A corrida é uma atividade física eclética. O mais importante é que o praticante esteja dentro de um processo de avaliação médica, clínica, fisiológica, que permita que ele faça isso sem nenhum tipo de prejuízo”.Foi nessa lógica que José Aguiar começou a correr aos 50 anos de idade. Hoje com 68, ele compartilha sua rotina como corredor nas redes sociais, onde acumula mais de 800 mil seguidores.

Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por José Aguiar – Corredor (@zeaguiarcorredor)Ao todo, José Aguiar já correu 2 maratonas e diversas meias maratonas, além de já ter vencido mais de 200 troféus. Ele também detém um dado que impressiona: desde os 54 anos, quando venceu sua primeira prova, ele nunca mais perdeu em sua respectiva categoria.Em conversa com o portal A TARDE, ele conta qual é o segredo para que pessoas mais velhas também entrem no mundo das corridas:

Basta começar aos poucos, não precisa ter pressa. A corrida é um esporte muito bom para a saúde, mas é necessário começar bem devagar, caminhando, dando alguns trotes leves e só depois começando a fazer uma corridinha. O mais importante é ter consistência, que aí você irá começar a sentir os benefícios e isso irá te levar longe.
José Aguiar – Corredor e influenciador digital

“Começar a correr depois dos 50 anos foi a melhor decisão que eu tomei para minha vida, hoje aos 68 anos de idade, me sinto como um jovem cheio de energia”, concluiu ele.Grupos de corridaExiste ainda quem quer entrar no mundo das corridas, mas não quer correr sozinho. Foi a partir daí que os amigos Fábio Silva e Luan Teles, de 28 e 25 anos, respectivamente, decidiram criar o “Collective Runners”, grupo de corrida para incentivar pessoas a viverem o esporte de forma coletiva em Salvador.Em conversa com o portal A TARDE, Fábio Silva contou que a ideia surgiu em 2025, quando ele percebeu que não existia um movimento forte de grupos de corrida, as “crews”, na capital baiana, assim como já acontecia em São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo.“Eu sentia falta de a galera se juntar para se exercitar, para conhecer pessoas e se conectar”, declarou ele.Pouco tempo depois, no dia 22 de abril do mesmo ano, Fábio e Luan organizaram uma crew que contou com a presença de somente uma pessoa. Um ano depois, agora em 2026, ele afirmou que o grupo do Collective Runners no WhatsApp já conta com mais de mil pessoas, enquanto os encontros do coletivo reúnem uma média de 150 a 200 pessoas.

Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por COLLECTIVE RUNNERS (@collectiverunners)De acordo com ele, as crews organizadas pelo grupo são abertas a todos e totalmente gratuitas, com o objetivo de incluir o maior número possível de pessoas. Segundo ele, no entanto, sempre é disponibilizado uma vaquinha para reunir fundos e organizar cafés da manhã para os participantes das corridas.“É só colar, é só aparecer lá, é só participar. Não tem nenhum tipo de pagamento, não tem nenhuma restrição. A gente está lá para receber todos os tipos de pessoas. A gente tem de fato esse papel de incluir, de movimentar a galera, de trazer geral para esse mundo do esporte, e fazer uma inclusão ao máximo possível.”Ainda segundo Fábio, os encontros do grupo não seguem uma rotina definida, mas costumam acontecer semanalmente. Todas as atualizações são postadas no perfil do grupo nas redes sociais.



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