“Menino não aprende a ser homem”…
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- Marina Bragante, vereadora da Rede em São Paulo, divulgou a frase “Menino não aprende a ser homem, ele aprende a não se comportar como uma mulher”.
- A fala gerou repercussão ao destacar que a socialização de meninos enfatiza a negação do feminino em vez do desenvolvimento da identidade masculina.
- Dados do Ministério da Saúde e da Fiocruz apontam que homens têm risco 3,8 vezes maior de suicídio que mulheres, com 36,8 mortes por 100 mil entre jovens.
- O alerta busca discutir o modelo de masculinidade restritivo, reforçado por expressões como “homem não chora”, e seu impacto na saúde mental masculina.
“Menino não aprende a ser homem, ele aprende a não se comportar como uma mulher.” A frase, publicada pela vereadora paulistana Marina Bragante (Rede), ganhou repercussão ao sintetizar um padrão de socialização tão comum quanto preocupante: muitos cuidadores ainda criam meninos com mais foco na negação do feminino do que no desenvolvimento da própria identidade e masculinidade.
Esse modelo cultural tem efeitos mensuráveis: no Brasil, homens têm um risco cerca de 3,8 vezes maior de morrer por suicídio do que mulheres, segundo dados do Ministério da Saúde. Entre homens jovens, a taxa chega a 36,8 mortes por 100 mil, segundo dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
A ideia expressa por Marina Bragante alerta para um conceito central nos estudos de gênero: meninos não são apenas incentivados a certos comportamentos. Eles são ensinados, desde cedo, a evitar outros. Frases como “homem não chora” ou “isso é coisa de menina” funcionam como mecanismos de controle emocional. E o resultado é um modelo de masculinidade baseado na restrição.
“Desde cedo, o ‘ser homem’ é apresentado como uma fuga constante: não chore como menina, não segure como menina, não tenha interesses de menina. A masculinidade tradicional não é uma construção de identidade, é uma barreira de contenção contra o feminino”, diz a vereadora. “Quando a sensibilidade, a arte e o afeto são rotulados como ‘coisa de mulher’, o homem cresce amputado.”
O impacto em números
Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde, expectativas sociais que associam homens à dureza emocional e à autossuficiência contribuem diretamente para comportamentos de risco, menor busca por ajuda e piora nos indicadores de saúde .
Os efeitos desse padrão começam cedo e se acumulam ao longo da vida. Nas Américas, homens vivem em média 5,8 anos a menos que mulheres, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A mortalidade por causas violentas (como homicídios e acidentes) pode ser até sete vezes maior entre homens jovens.
“A masculinidade tóxica exige que o homem performe agressividade e distância emocional para ser aceito no grupo. Isso gera uma sociedade misógina, onde o feminino é tão desvalorizado que qualquer homem que o tangencie é alvo de ataques”, afirma Marina, psicóloga e mãe de trigêmeos, em sua rede social.
O silêncio emocional dos homens
O documentário “O Silêncio dos Homens” aborda justamente esse processo: meninos que crescem sem espaço para expressar emoções tendem a se tornar adultos com dificuldade de comunicação e maior isolamento emocional.
Na mesma linha, The Mask You Live In (A Máscara em que Você Vive) mostra como a pressão para se encaixar em um ideal rígido de masculinidade leva jovens a reprimirem sentimentos como medo, tristeza e insegurança.
Essas produções são embasadas em pesquisas acadêmicas que associam a masculinidade tradicional à menor procura por ajuda psicológica e ao agravamento do sofrimento mental.
Masculinidade tóxica: do conceito ao efeito concreto
O conceito de masculinidade tóxica descreve padrões culturais que incentivam repressão emocional, valorização da agressividade, rejeição da vulnerabilidade e resistência em buscar ajuda.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), esse conjunto de expectativas está ligado ao aumento de suicídios, abuso de álcool, acidentes e comportamentos de risco, e violência interpessoal, saindo de uma discussão aparentemente subjetiva para o impacto direto em índices de saúde pública.
Coragem para questionar normas enraizadas
Ao questionar a masculinidade tradicional, a fala de Marina Bragante ainda provoca resistência, justamente por mexer com normas culturais profundamente enraizadas.
Essa repercussão expõe, entretanto, o quanto a forma como meninos são educados afeta muito além de suas relações. Esse tipo de criação afeta a saúde, expectativa de vida e a capacidade de lidar com o próprio sofrimento. “Precisamos de uma masculinidade que não precise odiar o feminino para existir. Ensinar nossos meninos a serem humanos, antes de ensiná-los a serem machos”, registra a vereadora em sua publicação.
